24.1.07

Reproduzo aqui o maravilhoso texto de José Castello publicado no último Prosa e Verso. Não deixem de ler. É uma porrada.

"O pai humilhado

José Castello

Sofremos, hoje, de um persistente sentimento de mal-estar. Para além dos eventos do real, alguma coisa, a que não conseguimos dar um nome, dói, sem parar, dentro de nós. Essa agonia não tem causa precisa, não é o efeito direto de um ataque, ou de uma decepção. Eis o problema maior: sofremos, sem saber dizer de que sofremos.

Na literatura, este mal-estar errante, e aflitivo, se expressa no sentimento, cada vez mais comum, de que "tudo já foi escrito". Uma perplexidade diante do papel em branco que se parece com uma vertigem, na qual a palavra - e não a consciência - nos fosse roubada.

O mal-estar está em toda parte. Sua face mais visível, contraditoriamente, é o sentimento de vazio, como se todos carregássemos uma folha em branco dentro de nós. Sofremos não de uma presença, mas de uma ausência. De uma fome que alimento algum sacia.

Os escritores, que partem de cadernos vazios e de páginas em branco, lidam diariamente com isso. Muitas vezes, seu desalento diante do mundo parece ser só uma pose, ou uma afetação. "Arquivos do mal-estar e da resistência", valente ensaio do psicanalista carioca Joel Birman lançado pela Civilização Brasileira, nos faz ver que não é. O mal-estar, hoje, pertence a todos.

Até pouco tempo, diz Birman, os psicanalistas eram procurados por pacientes nervosos, com o coração em guerra, feridos por uma luta interior que não podiam resolver. Eles se deitavam no divã em busca de um pouco de paz. Hoje, em vez disso, os psicanalistas recebem em seus consultórios pessoas que se declaram vazias. Seu grande problema é não ter um problema. Sua dor maior é a incapacidade de sentir dor. O mal-estar, agora, é isso: um rombo.

Desamparados, buscam artifícios que preencham o buraco que trazem no coração. Drogas pesadas, álcool ou comida em excesso, sexo compulsivo, a obsessão pelo trabalho, a mania de comprar e comprar, tranqüilizantes, antidepressivos - a esses substitutos se apegam, na esperança vã de tampar o rombo pelo qual sua vida escorre.

Ainda assim, o vazio se dissemina. Nos dias de hoje, dominados pela agitação, pela brutalidade, pela dispersão, já não controlamos nossas vidas. Somos todos, um pouco, como os personagens do gaúcho João Gilberto Noll: vagamos, tateamos, afundamos em nosso próprio fosso.

Borges dizia que a literatura se faz no caos, mas que o escritor só pode lidar com o caos porque se apóia na suposição de um cosmos. Na idéia de que no interior do caos existe uma ordem secreta, inacessível, quase inútil, mas que ainda assim está ali. Só porque se consolam com isso, escritores conseguem escrever.

Sem essa suposição, perdemos a força. Pais inquietos e fracos, incapazes de lidar com os filhos. Professores nervosos, já sem nenhuma autoridade. Instituições que desmoronam, governos instáveis, populações à deriva. O mundo - eis o que sentimos de pior - se torna um trem desgovernado. No fundo desse vazio, Birman diz, está a figura lastimável de um pai humilhado.

O pior: diante da fraqueza do pai, nos apegamos, muitas vezes, à utopia de um pai onipotente. Ele pode ser insensível, pode ser cruel, pode ser tirano - mas funciona. Na penúria e no desamparo, sentimos uma nostalgia louca das algemas, como se a única forma possível de viver fosse a submissão.

Os escritores, que partem de uma folha em branco e têm o vazio como matéria, sabem que a coação e a onipotência de nada servem. Escrever é dialogar com a imperfeição. Atitude que, transposta para a vida, sugere Birman, conduz direto à fraternidade.

A literatura trafega na contramão do mundo prático, de medições e de resultados, que hoje habitamos. Escrever é avançar em direção a um destino a que nunca chegaremos. Esta viagem sem rumo, no entanto, não provoca agonia. Traz, isso sim, uma pequena, efêmera, mas preciosa, felicidade.

Não é estranho que psicanalistas e escritores se entendam. Ambos lidam, no fim, com a mesma matéria: o desassossego que, na aflição, chamamos de agonia, mas que, se desistimos de esperar uma salvação, chamamos de vida."

3 comentários:

José Mesquita disse...

Texto primoroso. Gostaria que vc publicasse um verbete sobre o autor, José Castello.

Alessandra Archer disse...

Maravilhoso

Alessandra Archer disse...

maravilhoso