3.10.02

Escrevi este texto para a próxima edição do site Falaê. Aqui, a première dele:

Travessia mágica

Comecei a pegar as barcas Rio-Niterói para valer em 1981, quando ingressei na faculdade de jornalismo. Todo dia curtia a brisa da baía de Guanabara lendo a "Última Hora" ou algum livro do Wilde. Na volta, estava sempre com dois companheiros nikitenses (de Nikity City) e vínhamos conversando entusiasticamente sobre as grandes questões de nosso fim de adolescência: mulheres, mulheres e mulheres. (Mentira. Havia outros assuntos também, mas no fim tudo leva a elas ;-) )

Entretanto, de manhã estava invariavelmente só e desenvolvi o hábito da leitura na barca. Não existe melhor meio de transporte para a contemplação do que uma barca. Ela vai devagar, pachorrenta, gemendo e tremelicando por vezes com algumas ondas, e há tempo para aquela filosofada essencial. Comecei e terminei montes de volumes a bordo. Cheguei ao ponto de detestar encontrar alguém na estação porque sabia que me roubaria o tempo precioso em que podia mergulhar em paz na ficção. Meu vício apenas fez piorar depois que me casei. Sem sossego na casa habitualmente cheia, deixava para saborear meus alfarrábios na baía.

Nos tempos da Conerj, a companhia de navegação estadual, as barcas eram mal conservadas e sujas, ao contrário do que acontece hoje, depois da privatização. Mas havia mais folclore e tipos engraçados durante a travessia. Como uma velhinha tinhosa que dava um show de bola contando sua vida errante, seus encontros com a polícia e marginais e outros "causos". Todo mundo ria e no final ela pedia o dinheiro do cafezinho. Um dia recebeu uma moeda de um centavo e xingou o doador: "filhodaputa, acha que isso aqui dá pra tomar um café?" As gargalhadas balançaram a barca. E as histórias do pessoal que pegava a embarcação cedinho, cochilava na proa e caía na água? Hoje isso não acontece, é proibido viajar na proa. Mas na época podíamos até sentar na beira da barca, os pés balouçantes sobre a água que aparentemente corria, célere. Bom, mas voltando aos mergulhos involuntários, lembro-me do caso de um velhinho carregando sua marmita e caindo na água depois de um cochilo. Os passageiros da proa, com um humor impiedoso, gritavam, enquanto tentavam resgatar o velho: "aí, vovô, vai tomar sopa hoje no almoço, hein?"

Depois, as embarcações ganharam televisores (graças a Deus, retirados recentemente) faxina e assentos acolchoados. Uma tem até uma lanchonete dentro.

Também tenho saudade das antigas chatas para automóveis, que peguei muitas vezes com meus pais para visitar minha avó em Jacarepaguá, nos anos 60. Voltava deitado no banco de trás, olhando as estrelas. Veio a Ponte Rio-Niterói e elas foram embora. Ficamos com os engarrafamentos.

Viajo de barca ainda hoje, quase todo dia. É o melhor remédio para o estresse, não tem ansiolítico que substitua. Ainda mais depois de um dia duro de trabalho. Você passa vinte minutos na baía, deixa tudo para trás e chega a outra cidade, para um novo começo, seja do que for. Aliás, está na hora de embarcar. Até o próximo texto. Soltem as amarras!

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