31.1.02

Este é um post que vale a pena estar nos dois blogs. Aliás, em vários, se vários eu tivesse!

Nada como um pouco de merda jogado no ventilador de vez quando. Concordem ou não, todos os que gostam de poesia têm de ler a Carta Aberta aos Poetas Brasileiros do Alexei Bueno, publicada hoje no Caderno B do JB. A entrevista de Bueno, no mesmo lugar, também é excelente. Veja alguns trechos sensacionais da carta-manifesto:

O Brasil continua, até hoje, atolado na Escola do Recife e no Positivismo. É o fetichismo da objetividade, que serve de base para as maiores sandices críticas entre nós. (...) Há subjetividades muito mais exatas e diretas que mil objetividades.

Toda a grande literatura é continuidade e sobretudo ruptura.

A ''verdadeira'' poesia brasileira será a de quem a escrever grande, e João Cabral de Melo Neto não merece ser avô dos pigmeus que por aí invocam o seu nome.

Após uma luta feroz para se estabelecer uma liberdade criadora no Brasil empreendida pelos modernistas na vigência do lamentável Neoparnasianismo, acabaram por criar outra camisa-de-força, pior, na nossa literatura, que nega aos que não se filiam a ela todos os territórios expressivos conquistados após o Modernismo.

O Parnasianismo foi o Concretismo da República Velha positivista. O Concretismo foi o Parnasianismo da ditadura militar. Todos grandes defensores do ''rigor formal'', da ''clareza'' e da ''razão''! Todos muito ''modernos'', essa palavra que não quer dizer absolutamente mais nada!

A Modernidade morreu, viva a arte e a literatura! Que os seus fósseis ladrem a sua ladainha decrépita à vontade. Basta de múmias marqueteiras.

Cabe a todos os poetas desse país, especialmente aqueles esquecidos fora das metrópoles, mas sobretudo aqueles que têm algo a dizer, aqueles que sentem a imperiosa necessidade de dizer algo, pois daí nasceu sempre toda a literatura, e não de ludismos formais, mandar todo esse lixo ao espaço, e iniciar com o novo milênio uma nova poesia, que não será nem ''moderna'', nem ''verdadeira'', nem ''legítima'', nem coisa nenhuma, será grande quando o for, e moderna e verdadeira e legítima porque o foi. O espírito sopra quando e onde quer, e para nós há três milênios de riqueza poética às nossas costas, um fabuloso desprezo ao nosso lado e o ilimitado da História à nossa frente!


Ave, Alexei.

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