28.12.01

Para fechar o ano (agora só blogo dia 2/1), rock and roll para a festa ;-)))))
E Feliz 2002!!!!

SHOUT IT OUT LOUD (Paul Stanley, Gene Simmons, Bob Ezrin)

Well, the night's begun and you want some fun
Do you think you're gonna find it (think you're gonna find it)
You got to treat yourself like number one
Do you need to be reminded (need to be reminded)
It doesn't matter what you do or say
Just forget the things that you've been told
We can't do it any other way
Everybody's got to rock and roll, whoo, oh, oh

Shout it, shout it, shout it out loud
Shout it, shout it, shout it out loud

If you don't feel good, there's a way you could
Don't sit there broken hearted (sit there broken hearted)
Call all your friends in the neighborhood
And get the party started (get the party started)

Don't let 'em tell you that there's too much noise
They're too old to really understand
You'll still get rowdy with the girls and boys
'Cause it's time for you to take a stand, yeah, yeah

Shout it, shout it, shout it out loud
Shout it, shout it, shout it out loud

Shout it, shout it, shout it out loud
You've got to have a party
Shout it, shout it, shout it out loud
Turn it up louder
Shout it, shout it, shout it out loud
Everybody shout it now
Shout it, shout it, shout it out loud
Oh yeah
Shout it, shout it, shout it out loud
Hear it gettin' louder
Shout it, shout it, shout it out loud
And everybody shout it now
Shout it, shout it, shout it out loud

"Somente os amantes" -- Capítulo I

Havia muitos anos não caía uma tempestade tão terrível no Rio de Janeiro quanto aquela da Semana Santa de 1991. Carros viraram embarcações, centenas de pessoas ficaram sem suas casas, outros tantos morreram, a leptospirose tomou conta da cidade. Numa casa da rua Cosme Velho, porém, seus ocupantes pareciam alheios à chuva. Os vizinhos ouviram um berro, ruídos de vidro quebrado, e depois de um silêncio repentino um tiro. Apesar da curiosidade, poucos foram os que abriram as janelas para ver apenas de relance um homem encapuzado atravessar a rua e tomar um táxi, apressado. A polícia, chamada pouco depois, encontrou a porta da casa aberta e descobriu (além de mim) um cadáver no chão da sala, com um tiro na boca.
Foi este o fim da amizade entre Otávio e Marcel, que ironicamente começara num dia idêntico, quinze anos antes. Marcel tinha dezessete anos nessa época, e Otávio, dezoito. O primeiro fora passar as férias de inverno na Região dos Lagos, mais precisamente em Coqueiral. Os pais não suportavam o verão, com seu ar abafado, suas cenas vagarosas e seus turbilhões de gente nos balneários. Ademais, eles adoravam tomar banho de lagoa, e no verão as lagoas ficavam ferventes com a força do sol... No inverno, não obstante o frio à noite (que, de resto, convidava a uma caneca de vinho) era delicioso sentar-se pela manhã dentro d'água e conversar, ou simplesmente pensar em nada. Podia-se percorrer quilômetros lagoa adentro com a água salgada até a cintura e sentir-se engolido pelo nítido azul do céu de inverno misturado com a água esverdeada.
Marcel adorava tudo isso também, e mais, a perfeição da lua nas noites estreladas de Coqueiral. Mais tarde comentaria com Otávio, durante uma bebedeira num festival de queijos e vinhos local, que vira a lua mais perfeita de sua vida naquela noite. Otávio riu, com aquele riso abafado que lhe era característico, e zombou do amigo, dizendo que a bebida o envenenara e o tornara um romântico incorrigível. "Isso eu sempre fui", protestou Marcel, e arrastou Otávio para o terraço do clube onde acontecia o festival. O astro estava lá, inchado de luz, completamente estarrecedor em seu espetáculo de derramar alvas folhas virtuais sobre a água parada. Um quadro pintado por Dioniso. O próprio Otávio se surpreendeu declamando um poema imperfeito diante daquela visão. Não o escreveu, porém, e nos anos vindouros seria tema de chacota para Marcel o único verso que lembrava: "És maior que a Terra/E toda a sedução do Mal encerras".
Naquelas férias de inverno, porém, a lua parecia estar de péssimo humor. Não apareceu em nenhum momento. Deixou que as nuvens a ocultassem, desprezando homens e criaturas de Deus. O frio tomou conta das manhãs, também, e não restou nada a Marcel senão ler empoeiradas seleções do Reader's Digest empilhadas num quartinho no fundo da casa que os pais haviam alugado. Em breve, começou a chover por dias seguidos, e o que devia ser prazer tornou-se um pesadelo.
Marcel ficou deprimido, como costuma acontecer com os que são sempre otimistas e entusiásticos. Um dia, abriu a janela, desanimado, para contemplar a praia, tão perto e tão longe. Chovia sem parar. Foi quando ele viu alguém sentado na areia, imóvel e com o rosto voltado para a água. Tinha abundantes cabelos negros, totalmente empapados de chuva, e estava completamente vestido, com jeans, camiseta e tênis. Marcel ficou olhando. Por fim, a curiosidade falou mais alto e ele saiu de casa (não sem antes pegar um guarda-chuva) em direção à praia.

20.12.01

Um poema em prosa de Oscar Wilde para a ocasião (e feliz Natal a todos):

The Master

Now when the darkness came over the earth Joseph of Arimathea, having lighted a torch of pinewood, passed down from the hill into the valley. For he had business in his own home.

And kneeling on the flint stones of the Valley of Desolation he saw a young man who was naked and weeping. His hair was the colour of honey, and his body was as a white flower, but he had wounded his body with thorns and on his hair had he set ashes as a crown.

And he who had great possessions said to the young man who was naked and weeping, "I do not wonder that your sorrow is so great, for surely He was a just man".

And the young man answered, "It is not for Him that I am weeping, but for myself. I too have changed water into wine, and I have healed the leper and given sight to the blind. I have walked upon the waters, and from the dwellers in the tombs I have cast out devils. I have fed the hungry in the desert where there was no food, and I have raised the dead from their narrow houses, and at my bidding, and before a great multitude of people, a barren fig-tree withered away. All things that this man has done I have done also. And yet they have not crucified me".

19.12.01

Logo, logo vem o capítulo I de meu romance. Vou interrompê-lo uma vez mais para postar uma crônica aqui sobre minha relação com a música, que já foi publicada anteriormente no Falaê e também pelo Gustones em seu blog. Aí vai:

"AVE AEROSILVA (Ou: de como o rock-testosterona salvou uma vida)

Minha mãe tinha um violão, mas eu nunca dera atenção a ele até meus onze anos. Foi quando a turma do prédio começou a estudar violão com uma professora, e me perguntaram se eu não queria aprender também. Até então, curiosamente, minha vida fora uma grande redoma de silêncio. Eu não ligava para nada em especial em música, quando muito algumas coisas legais da Jovem Guarda, quando o Rei era realmente o Rei. Quando comecei a aprender, tudo mudou da noite para o dia. Passei a ficar com o ouvido grudado no rádio, tentando imitar tudo o que é música. Em pouco tempo tirava as canções sozinho. Cheguei a dar um show com os amigos e fiquei empolgadíssimo.
Quando ganhei minha primeira vitrola, um modelo Philips portátil, já tinha começado a ficar fissurado em rock and roll, isto é, no que ouvia nas novelas, na TV. Não conhecia nada de nada ainda. Mas tive a bênção de ganhar, como primeiro vinil, em meu aniversário de doze anos, "Os grandes sucessos de Bill Haley and His Comets". Pirei. O disco virou figurinha fácil nos hi-fis da época. Depois vieram Elvis, Slade, Kiss, AC/DC, Deep Purple & cia, e me viciei sem volta nas guitarras. Como não podia deixar de ser, assim que consegui juntar algum, aos dezesseis comprei minha primeira guitarra, uma Felpa Coronado ou Apache verde, rosa e preta (!!!!). Uma verdadeira "bicheira", mas para mim o som era de outro mundo.
Agora era montar uma banda de rock. Aí começou meu calvário. Entrei para uma banda cujos integrantes eram incríveis, mas os gostos musicais não se encaixavam. Durante anos a fio a amizade falou mais alto e toquei e compus de jazz a samba, passando por MPB, boleros, baiões e mais o que se possa imaginar -- tudo em nome da diversidade e da união. Havia até um rock ou outro, mas nada que conseguisse saciar minha sede de pauleira. Tentei outros projetos, um de MPB, outro de punk, enquanto a banda original trocava de formação mas mantinha a falta de identidade musical. Por fim, já trabalhando como jornalista (a música sempre foi uma estrada empírica e paralela em minha vida, apesar de tudo -- mesmo com todas as minhas hesitações ao longo dos anos, hoje sei que não podia deixá-la tornar-se uma profissão: ela faz parte de outra realidade), decidi acompanhar um remanescente da banda, grande figura, grande cantor e músico -- o Hélcio -- para não enferrujar meus dedos e manter a chama acesa.
E eis que, hoje, recém-chegado aos 39 e prestes a adentrar a seara dos "enta", minha vida foi salva miraculosamente por dois animais roqueiros, Marlos e Gustavo. Um sucinto e-mail me perguntou, em meados de 2000, se eu não queria trocar a guitarra pela batera (o que eu já tentara no projeto punk) num power trio de raiz, cheio de testosterona e baseado nos Imortais: Stones, Who, Doors, Hendrix, Rory Gallagher... Topei na hora, sem saber se conseguiria. Mas o primeiro ensaio foi uma tempestade eletroquímico-musical. Parecia que tocávamos juntos há anos. Um puxava um som, o outro gritava "essa eu sei, peraí" e a coisa fluía, regada sempre a generosas doses de álcool. Nada de sobriedade no roquenrou, man.
A vida hoje em dia está bem longe daquela redoma dos meus onze anos. Não haverá mais silêncio, a não ser aquele que antecede o próximo rock, ou o que às vezes nos toma de assalto quando fumamos um cigarro entre uma jam e outra. Não sabemos o que dizer, talvez porque os corações estejam urrando e prefiram evitar a tergiversação das palavras. E, se algum dia houver um show do Aerosilva (nome nada original, mas já pegou), ele não terá plano nenhum, apenas o reagrupar de cacos, porradas e desilusões de três almas. E tudo será impiedosamente lançado a uma pira funerária ao primeiro ranger distorcido de um acorde."
André Machado -- "The Axe", baterista e carrasco

Publiquei este post em meu outro blog, em http://andremachado.blogspot.com. Mas ele merece ser repetido aqui.

Ontem realizei um sonho antigo: cumprimentei pessoalmente o grande escritor argentino Ernesto Sabato. Ele esteve no Rio para duas conferências na Universidade Cândido Mendes. A segunda, a que assisti, foi "Confissões de um escritor", e, segundo o professor Cândido Mendes, que apresentou e comentou a conferência, será publicada por aqui com certeza. Sabato está velhinho, com 90 anos, e pode ter sido uma das últimas oportunidades para ver o autor de clássicos como "O Túnel" e "Sobre Heróis e Tumbas". Fiquei comovido com sua fidelidade a seus ideais, ele que largou a Física para se dedicar à Literatura e sustenta que a razão não serve para orientar nossas vidas, não consegue conter coisas como a solidão, o absurdo, o amor e a morte. Sabato contou que largou a ciência ao descobrir que o mundo não está lá fora, mas dentro de nós; comentou que as idéias jamais existem em estado puro, como querem os filósofos e os cientificistas, mas estão sempre mescladas a alguma emoção; e sustentou que a educação não deve formar meros profissionais, mas homens, na mais ampla tradição do humanismo. Neste começo lamentável de milênio, foi um bálsamo ouvir as palavras, ainda que baixas e expressas com dificuldade, de um grande defensor da poesia e da esperança em meio ao caos. Foi com grande orgulho que subi ao palco e pedi que ele autografasse meu exemplar de "Antes do fim", seu recente livro de memórias. E não me cansei de olhar o autógrafo à noite e hoje de manhã. Larguei a biografia da Mary Stuart que estava lendo e mergulhei nas memórias de Sabato. Que homenagem maior poderia prestar-lhe?
Ao entregar-lhe o livro, disse-llhe apenas: "Para André". E ele respondeu, sorrindo: "Só isso? Não quer que escreva mais nada?" Eu respondi que não. Sabato olhou o livro, elogiou a beleza da edição brasileira e escreveu "Para André, com meu afeto, E. Sabato". Então eu apertei longamente sua mão (como suspeitava, ele tem um aperto de mão firme, que transpira confiança, como o do Verissimo) e declarei: "Foi uma grande honra estar aqui e poder conhecer o senhor. Obrigado". Não consegui falar mais nada. Mas Sabato apertou-me a mão mais fortemente e murmurou "muchas gracias". Depois, saí. Já ganhara meu presente de Natal. Para mim, foi como se cumprimentasse Wilde ou Nietzsche. Sabato é um dos Imortais de verdade, e estará sempre em meu coração. Sua Alejandra Olmos, de "Sobre Heróis e Tumbas", é a personagem feminina que mais amo em toda a literatura. Não tem para ninguém, nem Julieta, nem Madame Bovary. Ave, Sabato!

17.12.01

Bom, aí vai. Vamos começar a publicar meu primeiro folhetim via blog.

"SOMENTE OS AMANTES"

Prólogo

"Meu nome é Jean. Sou jornalista e, como tal, treinado para me ater aos fatos, embora muitas vezes os fatos sejam de pouca ou nenhuma importância: os sentimentos por trás deles é que realmente contam. Por isso, ao menos desta vez, depois de tantos anos com minha garganta e meus olhos ardendo devido ao silêncio, decidi pôr no papel a história mais estranha de amizade que já presenciei. Poderia dizer que fui um personagem desta história, mas não seria verdade. Conheci seus protagonistas, estive em suas casas, durante algum tempo fizemos juntos um periódico universitário cheio de fanfarronices, mais fui mais testemunha (apesar de pelo menos um ato desastroso) do que aconteceu entre eles que qualquer outra coisa. Chamavam-se Otávio e Marcel.
Fala-se muito do amor; diz-se que o amor está estreitamente ligado à morte; que uma paixão fulminante é pior que cem sabres. Mas a amizade também é um sentimento volátil. Dizem que a felicidade é sua maior inimiga, porque uma pessoa feliz sempre atrai inveja, mesmo dos melhores amigos. Não concordo. A felicidade repele a amizade, sim, mas porque quem está feliz logo começa a se tornar um moralista. Quem é feliz torna-se tão cego quanto um apaixonado, acha que a vida lhe sorriu porque é um eleito, fica arrogante, impiedoso e só tem olhos para seus próprios vícios (que define como virtudes).
Que não me censurem. Eu já fui feliz, e nenhum de meus amigos me invejou. Mas eu os repeli, um a um, como se répteis fossem. Estava certo de ter um coração dourado, e os defeitos deles, eu sabia, intuía, não deviam maculá-lo. Por isso, em meus sonhos, matava-os todos. Tornei-me indiferente e frio. Um altar, sem carne nem sangue, apenas pedra polida. E, no fim, morri eu mesmo, provavelmente de tédio.
A morte, contudo, rondou de maneira mais eficaz as vidas de Otávio e Marcel e mostrou do que a felicidade é capaz quando se transforma em veneno. Por isso, antes de retornar às glórias da vida jornalística (esqueci de dizer, sou cronista de "O Tempo"), vou aproveitar minhas breves férias para redigir este aviso: que todos os que amam o seu amigo se previnam contra as armadilhas da felicidade. A única maneira de ser feliz é cultivando os amigos... mesmo à custa da dor. Mas vamos à história, que já é tempo."

12.12.01

Um pouco do velho (e maravilhoso) Machado de Assis (de "Dom Casmurro"):

"Voltei-me para ela; Capitu tinha os olhos no chão. Ergueu-os logo, devagar, e ficamos a olhar um para o outro... Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três páginas, mas quero ser poupado. Em verdade, não falamos nada; o muro falou por nós. Não nos movemos, as mãos é que se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se, apertando-se, fundindo-se. Não marquei a hora exata daquele gesto. Devia tê-la marcado; sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma noite, e que eu poria aqui com os erros de ortografia que trouxesse, mas não traria nenhum, tal era a diferença entre o estudante e o adolescente. Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.
Não soltamos as mãos, nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam a meter-se uns pelos outros... Padre futuro, estava assim diante dela como de um altar, sendo uma das faces a Epístola e a outra o Evangelho. A boca podia ser o cálix, os lábios a patena. Faltava dizer a missa nova, por um latim que ninguém aprende e é a língua católica dos homens. (...) Estávamos ali com o céu em nossas mãos, unindo os nervos, faziam das duas criaturas uma só, em uma só criatura seráfica. Os olhos continuaram a dizer cousas infinitas, as palavras de boca é que nem tentavam sair, tornavam ao coração caladas como vinham..."

11.12.01

Fala, moçada, estou de volta. E com uma bela definição de rock and roll do Gene Simmons em recentíssima entrevista concedida à "Rolling Stone":

"...And when you think about it historically, rock & roll is exactly that: white people coming together with black people and inventing this other kind of thing, which black people didn't sing and white people didn't sing. So rock & roll is itself when two different kinds of people get together. Ultimately, of course, it's about sex. A lot of critics have never really gotten that. They didn't get it then, and they don't get it today. Some of the harshest criticisms of rock bands, including Kiss, have been, "Ah, all that stuff is all about sex, sex, sex." Well, moron, by definition "rock & roll" means that. "Let me rock & roll you all night long" doesn't mean "let's quote Nietzsche and Kierkegaard to each other and discuss existential philosophy." These guys read too many books and never get laid. I think you need to get laid more and read a few less books -- a little balance in life."

Yeah, yeah, yeah!!!!

30.11.01

Ainda não tive tempo de reunir todos os meus escritos em prosa para começar a publicá-los aqui (precisarei digitar meu ronance aos poucos). Enquanto eles não chegam, fiquem com a melhor descrição de orgasmo feminino que conheço...

"And it seemed she was like the sea, nothing but dark waves rising and heaving, heaving with a great swell, so that slowly her whole darkness was in motion, and she was Ocean rolling its dark, dumb mass. Oh, and far down inside her the deeps parted and rolled asunder, in long, fair-travelling billows, and ever, at the quick of her, the depths parted and rolled asunder, from the centre of soft plunging, as the plunger went deeper and deeper, touching lower, and she was deeper and deeper and deeper disclosed, the heavier the billows of her rolled away to some shore, uncovering her, and closer and closer plunged the palpable unknown, and further and further rolled the waves of herself away from herself leaving her, till suddenly, in a soft, shuddering convulsion, the quick of all her plasm was touched, she knew herself touched, the consummation was upon her, and she was gone. She was gone, she was not, and she was born: a woman." -- D. H. Lawrence.

PS -- Estarei desconectado, em viagem, na próxima semana, portanto não se assustem com a pausa nas blogadas... Volto dia 10/12, com tudo em cima. Até lá...

28.11.01

Demais, demais, demais este trecho da história "Sete beijos" do visceral guitarrista Gustavo de Almeida:

"Ela teve que ir embora. No dia do aniversário dele, e ele passou o dia fazendo isso, levando ela embora. Ouviram juntos a música do Radiohead que canta "she looks like the real thing", e ele chorou, no colo dela, porque sabia que tudo estava acabando ali, naquele momento. Preferiu chorar de uma vez, enquanto ela estivesse por perto -- não deveríamos ser assim com todos que amamos, chorar em sua presença, e não quando os corpos inertes em um caixão não podem mais aprender de vida com nossas lágrimas? Sim, ele foi ao próprio enterro, mas o corpo era o dela, e estava viva."

Cara, é isso aí. Eu já chorei diante de quem amei (e quem amo) umas boas vezes. E não tenho a menor vergonha disso. Parafraseando aquela fala do "The Commitments", I'm a weeper and I'm proud.





27.11.01

Olá. Aí vai mais uma crônica, que anteriormente publiquei no Falaê/Paralelepípedos. Em breve vou postar aqui, em capítulos, um romance que escrevi em 1991. Ele vai virar um blog-folhetim. ;-)

Enivrez vous!

A expressão acima, que também serve de título a um poema de Baudelaire e significa "embriaguem-se!", presta-se perfeitamente para identificar certos points cariocas. E não apenas os bares, centros de excelência da arte de de s'enivrer. (Na verdade, nem todos convidam ao prazer de uma garrafa. Eu diria que o boteco -- venha de onde tiver vindo, uma invenção do Rio -- é o primeiro lugar em que nos sentimos realmente chegados a uma genuína libação, em especial os pés-sujos. O antigo Color Bar, ao lado do prédio da Manchete na Rua do Russell, antes da reforma que o tornou mais palatável aos turistas que infestam o Hotel Glória, era o paraíso dos libadores e um dos chopes mais gostosos da região, sem falar nos sanduíches de polenguinho e de provolone com salaminho. Depois, tem a beira de praia, que dá ainda mais sabor a uma cerveja e torna um manjar dos deuses o peixe frito mais safado. E por aí vai, pois na verdade essa conversa etílica é para outra coluna.)
O que eu dizia é que existem certos locais em que você se embriaga não de álcool (pelo menos nem sempre de álcool), mas de uma espécie de arrebatamento celestial (ou infernal) que transforma de imediato quatro paredes ou muros em um destino certo a ser revisitado. Já que começamos a falar do Catete, darei outro exemplo local: o parque do Palácio do Catete, atual Museu da República. O lugar é carregado de uma forte mística e, ainda que varrido e tratado, mesmo hoje não perde seu ar de abandono, com seus canais e fontes inativos e solitárias estátuas pelos cantos. Nessa época do ano, é ímpar sentar ao sol e observar o farfalhar da vegetação, sentir o silêncio. Ou ler, especialmente algum livro denso, cujas palavras ali parecem gravar-se com maior renitência na mente. Ou ainda levar boa companhia e ter conversas completamente caleidoscópicas naquele borgiano jardim onde os caminhos de nossa História se bifurcam... Uma vez estive lá à noite, para assistir a uma encenação de "Rinoceronte", de Ionesco. Dizem que Vargas gostava de passear pelas aléias à noite, e gosto de imaginar o velho caudilho na noite enevoada de 23 de agosto de 1954 meditando sobre o iminente suicídio diante da fonte principal, que data de cem anos antes. (Pelo que sei, ele não fez nada disso aquela noite, que nem enevoada devia ser, mas gosto de imaginar assim mesmo.)
Outro lugar que faz o cérebro dar voltas e entrar em alfa é a livraria Leonardo da Vinci, no subsolo do edifício Marquês do Herval, no coração da avenida Rio Branco. Toda vez que entro lá tenho a impressão que estou numa catedral construída de livros, e espero a qualquer momento ver passar o sacerdote de Biblos com um turíbulo perfumado e balouçante na mão. É como se os livros falassem e contassem segredos em sussurros que acompanham o agradável tilintar dos pingentes a cada visitante que entra. Pode-se passar horas ali apenas tocando os livros e passeando pelas estantes, sem se dar conta da vida. Ainda que o seu relógio teime em caminhar para diante, tenha certeza de que ali o tempo pára. Seria uma das minhas escolhas para passar a eternidade, não fossem os livros finitos, é claro.
Já parou para pensar nisso? Devem existir lugares que, para você, são mágicos. Por vezes ficamos neles mais tempo do que planejávamos, sem perceber, tomados por algum instinto indefinível, e quando saímos nos damos conta de que estávamos em outro mundo. E às vezes o lugar é de uma simplicidade patética. Pode mesmo ser seu canto preferido em casa. Lugares assim me dão, apenas por sua perspectiva diferente, a certeza de que há pelo menos alguns mistérios que permanecem a salvo da fúria avassaladora da objetividade e da ciência.

26.11.01

Vamos soltar mais algumas coisas -- como este texto, que originalmente escrevi para o supersite Falaê, mas não resisto a publicá-lo aqui...

Títulos (quase) inesquecíveis

Não tem nada mais divertido (quer dizer, tem, mas vá lá) que comprar um jornal fait divers saído quentinho do forno no ponto de ônibus no terminal de ônibus ao lado da praça XV, ou na estação das barcas, às três da manhã, em especial se você estiver bêbado e quiser cuidar para não dormir no trajeto. Eu acabava dormindo assim mesmo, mas antes me entretinha com manchetes sensacionais, verdadeiras obras-primas da subliteratura como “Chinelada na bunda acaba com alegria da sapatão” ou “Levou onze tiros na cabeça e está vivo”.
Até me lembro duma antiquíssima matéria — “Boi de 400 quilos é retalhado por multidão faminta”, ou algo assim — que contava a história do pobre boi Amélio, que, imprevidente, caiu de um barranco nos fundos de um conjunto habitacional e foi impiedosamente retalhado pela galera da vizinhança. O pessoal estava com muita fome e invadiu o conjunto munido de facas, cutelos, serrotes e o escambau... Saiu num diário carioca como reportagem, mas tinha todos os retoques do mais puro realismo fantástico. Sem falar dos hilariantes entretítulos. Um era “Boi nos ares” e a ele se seguia, aproximadamente (escrevo de memória), o texto: “Tudo começou quando dois estudantes dobravam a esquina do conjunto tal, quando um deles olhou para cima e perguntou ao outro:
— Boi voa?
— Não.
— Bom, então caiu um boi ali do barranco”.
Ato contínuo, vinha a narração do ruído da turba enfurecida atacando o lugar e arrancando tudo do Amélio até restarem apenas os ossos. O final patético falava do desespero do português que era dono do boi acidentado, chorando de soluçar ao lado da ossada: “Ó pá, mas o que fizeram com meu Amélio?...”
Os títulos fait-divers deixam de ser engraçados quando é no seu texto que eles aparecem, cortesia de seu editor, que de vez em quando resolve mudá-los com uma sutileza hipopotâmica. Um velho amigo -- o inesquecível Marcão (Marco Antônio Anchieta) -- certa vez escreveu um conto nelson-rodriguiano em que o marido de Helena, uma mulher fria e distante, ia aos poucos descobrindo mudanças “calientes” nela, a ponto de abandonar sua amante e resolver, certa tarde, levar à esposa flores de surpresa. Ele, naturalmente, encontra a cara metade nos braços de outro... O título que o autor deu, “Flores para Helena”, foi mudado para “Helena, a insaciável”...
Depois disso, o Marcão decidiu estudar filosofia. ;-)
Este blog está sendo inaugurado como um atalho para meu blog original, "Comentários e Versos do Cadafalso", cujo endereço fica em http://andremachado.blogspot.com/. Estou aproveitando que a querida Cora Rónai deu o endereço trocado do meu blog em sua coluna no Informática Etc, de O Globo, para criar mais este, que vai tratar só de prosa, já que o Cadafalso original lida com poesia. Vou postar aqui várias outras coisas que tenho guardadas: diálogos, crônicas, etc. Cora, sem querer você me deu mais um blog ;-))

Para começar, um desvario logo de cara:

Carta aos infernos

Porto um desejo sob os olhos inquietos. Uma gota de néctar, um inferno brilhante de sal. Se meu êxtase dominar minha arte, então que ela seja dele a escrava. Meu amor cambaleia e a força dos dedos mal o consegue segurar -- essa dor da revolta entorna todo o líquido dos poros; e o perfume do silêncio transfigura a luz monótona. Não sei de relógios, nem de histórias, nem de biografias. Sei das tais linhas tortas, amo a noite das nossas desilusões, pergunto minuto após minuto sobre o que fizeste da tua louca fantasia de viver. O que resta do nosso quarto de badulaques? Por que não respondes? Queres ser imortal também? Eu quero. Mas desejo também subir a temperatura e volver a cabeça num beijo louco e eterno nos seios da vida e da música interminável. Que minha homenagem póstuma seja um copo vazio. Um copo de cristal, porém. Se minha arte sucumbir a minha energia, que possamos explodir em cinzas e sonhar por entre as ondas do oceano e do abismo de onde nos atirarão. Uma só insânia. Uma só espada. Um só parágrafo. Eis a chave, eis a porta também. A minha carta não tem envelope, nem será enviada. Ela está nas profundezas do meu peito em agonia.