29.1.02

Esta história, de autor desconhecido, é, segundo alguns sites, um clássico. Parece até roteiro de uma historinha do Dilbert:

O SAPO COR-DE-ROSA

O diretor de arte chegou às 10:30, óculos escuros, cabelo molhado. A menina do atendimento, desesperada, já estava na criação cobrando os anúncios.

- Pelo amor de deus! O cliente vai viajar hoje à tarde e quer ver os layouts pra poder mostrar para o diretor internacional que vai ter uma reunião com a coordenação da América Latina e eu vou me ferrar porque todo mundo tira o corpo fora!

O diretor de arte não tinha ainda achado aquela sacada gráfica, entende?

- Pelamordedeus! Pelamordedeus!

O diretor de arte, sem tirar os óculos nem dizer palavra, senta na frente do computador pensando: "Que saco, só um mês de prazo, o redator fez os títulos só há duas semanas, assim não dá pra trabalhar".

Quinze minutos depois, os layouts estão saindo da impressora. O redator vê os anúncios e comenta:

- Por que um sapo cor-de-rosa?

- Sei lá, é uma imagem bonita, instigante... - diz o jovem diretor de arte.

- Mas o anúncio é de eletrodoméstico. Que é que tem a ver?

O diretor de arte não queria entregar que não pensou em nada e que aquele sapo era a única imagem que tinha no arquivo do computador, mas nem deu tempo de ele inventar uma justificativa.

- Daquí esse troço que eu tô com pressa.

No caminho do cliente, no carro, o diretor de atendimento vê pela primeira vez os anúncios para poder dizer na reunião que tinha acompanhado o processo criativo todo, inclusive direcionado a criação para não perder o foco da campanha e dar destaque ao sapo cor-de-rosa.

Sapo cor-de-rosa?

- Que droga é essa de sapo cor-de-rosa aqui nesse anúncio!?

- Sei lá, foi a criação que fez, eu não sei de nada, só cobrei os caras.

O diretor de atendimento não podia jogar fora o anúncio, era o único em que o título fazia uma vaga menção ao produto. Teve que pensar em uma saída.

Chegaram ao cliente, uma imensa multinacional. Estão na sala de reunião com toda a equipe de marketing da empresa. O diretor de atendimento, uma velha raposa, apresenta o layout do sapo rosa falando da necessidade de um property para a marca e a importância do impacto que a comunicação deve ter junto às donas de casa, que uma imagem altamente diferenciada não permite a indiferença do público alvo e que um sapo, com certeza, sensibiliza a donas de casa de qualquer classe, e que o fato de ele ser rosa (uma cor altamente ligada ao universo feminino) anularia toda a imagem negativa do anúncio em questão.

Seja o que Deus quiser.

O diretor de marketing da multi ouviu tudo sem mudar sua expressão de jogador de pôquer. Houve aquela pausa que prenuncia hecatombes.

- O que vocês acham? - perguntou o chefâo de marketing para seus comparsas.

As respostas vieram pela ordem crescente na hierarquia local:

- Um pouco estranho.
- Bem estranho.
- Estranho é apelido.
- É sem dúvida a coisa mais estranha do mundo.
- Uma merda.
- Eu até que gostei do sapo cor-de-rosa - disse o chefão de marketing.

As mudanças de opinião seguiram a ordem decrescente.

- Uma merda que pode dar certo.
- Sem dúvida se é a coisa mais estranha do mundo é porque tem um certo appeal racional, Algo de especial.
- Especial é apelido.
- Bem especial.
- Ainda acho um pouco estranho - disse o mais baixo na hierarquia, que por manter sempre sua opinião foi despedido alguns meses depois.

No final valeu democraticamente a lei do mais forte. E o diretor de atendimento voltou para a agência pensando por que raios o chefão do marketing gostou do sapo cor-de-rosa. "Será que a idéia é boa? Não, não, impossível sair coisa boa da criação. Por que o chefão gostou? Na verdade eu é que sou um puta vendedor. Eu sou foda."

Na verdade, o chefão de marketing não sabia por que raios tinha aprovado aquele anúncio do sapo cor-de-rosa. Ele estava divagando sobre sua casa de campo, pensando como era gostosa aquela menina da agência que fala rápido, não prestou muita atenção no que o cara da agência falava. Mas, para falar tanto, ele devia estar falando coisas importantes. Não pegava bem passar por ignorante na frente de seus subalternos.

E agora o chefâo de marketing está num avião, levando numa pasta branca de papel-cartão um sapo cor-de-rosa, que deve ser apresentado para um chefe que é mais chefe que ele. "Vou ter que enrolar os gringos", pensou.

A reunião com o pessoal da América Latina começou com um clima tenso. Nenhum dos diretores de marketing dos vários países onde a empresa atuava tinha um trabalho decente para mostrar. Quando o diretor de marketing do Brasil mostrou o anúncio do sapo cor-de-rosa foi um alívio geral. Todo mundo começou a apoiar a idéia do brasileiro, pelo menos assim ninguém precisava justificar seu próprio fracasso.

- Me gusta mucho el sapo rosado.
- Sin duda tenemos un simbol.

O coordenador de marketing para toda a América Latina - o big-boss de todo mundo ali - não falava bem castelhano.

O big-boss dos cucarachas, como secretamente se autodenominava o coordenador de marketing para toda a América Latina, telefonou para a matriz no dia seguinte dizendo que havia unanimidade em torno de um conceito- Amazing concept- desenvolvido pelo marketing de Buenos Aires, ou será de Caracas? - I don't know, só sei que é de um lugar do Brazil.

O anúncio do sapo cor-de-rosa e o big-boss dos cucarachas estavam a caminho da matriz, em Atlanta. O chefão estava tranqüilo em relação ao sapo. Todos os diretores de marketing da América Latina haviam feito reports provando a viabilidade da estranha personagem anfíbia. Que os reports foram feitos para agradar a ele, o big-boss, ninguém contou. Nos reports havia números, e números fazem até um sapo cor-de-rosa existir. O coordenador de marketing para toda a América Latina entrou às 8:00h na sala do seu chefe, que estava reunido com toda a presidência da grande empresa multinacional de eletrodomésticos. Debaixo do braço, um sapo cor-de-rosa. Reunião de portas fechadas.

Às 8:05 a secretária escutou alguém gritar na sala:

- What the hell is that??!!??

Passaram-se seis meses.

O diretor de arte chegou às 11:00. Óculos escuros, cabelo molhado. A menina do atendimento havia deixado um grosso fichário na mesa da dupla de criação. Na capa do fichário lia-se: The Pink Frog. No fichário havia todas as normas de utilização do Pink Frog. O tipo de sapo que deve ser utilizado, qual a tonalidade do cor-de-rosa, as melhores posições em que deve ser fotografado, a proporção que deve ter o sapo, perdão, o Pink Frog, em relação ao formato do anúncio. Havia até a recomendação de que se usassem sapos vivos e que se pintasse o sapo por computador para evitar problemas com os ecologistas. O sapo foi completamente dissecado em duzentas páginas.

Por conta do sapo cor-de-rosa, muita gente foi promovida, tanto no cliente quanto na agência.

- Puxa, que legal! Eu sempre quis ser diretora de contas e mandar nesses babacas!

Todo mundo se deu bem, menos o diretor de arte. Parece que o cliente pediu a cabeça dele porque ele não seguiu as normas de aplicação do Pink Frog, e colocou em risco a seriedade do marketing do cliente.

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