21.7.06

Vi a exposição do Degas, no MASP. Muito bem montada. Mas o mais legal foram as gravuras indecentes que Picasso fez de prostitutas aprontando o diabo enquanto o Degas, um tímido, observava de um canto, sempre com olhar espantado. A série foi batizada de "Degas voyeur" e é sensacional.

Também aproveitei para curtir o acervo do museu. A tela de Corot que retrata uma cigana com bandolim me hipnotizou.

Li a biografia de D. Pedro I escrita com leveza e maestria pela Isabel Lustosa. O imperador é descrito por ela como a verdadeira identidade de Macunaíma, o herói sem caráter. Mas, apesar das muitas vaciladas, deu ao Brasil a Independência, manteve-o coeso e ainda conseguiu derrotar o irmão usurpador em Portugal e botar sua filha no trono. E tudo isso num espaço de 12 anos, entre 1822 e 1834. Consumiu-se rápido, o homem, morrendo com 36 anos no mesmo quarto onde nascera.

É impossível parar de ler o livro. O personagem é muito fascinante. Mas dá para perceber que os verdadeiros estadistas ao lado dele eram José Bonifácio e D. Leopoldina. Se tivessem assegurado maior influência sobre D. Pedro, nossa história seria diferente. E talvez o Primeiro Reinado não tivesse acabado tão rápido.

12.7.06

Farewell, Syd Barrett. May you shine on like a crazy diamond wherever you are.

6.7.06

A final França x Itália está mais com cara de disputa entre culinárias do que de partida de futebol.

30.6.06

Eu pensei em traduzir este provérbio búlgaro que achei num site para o português, mas em inglês ele está afiadíssimo. É sobre a oportunidade.

"Seize opportunity by the beard, for it is bald behind."

Não é legal?

28.6.06

Estou relendo o "Retrato de Mr. W. H.", de Oscar Wilde. A história-ensaio gira em torno da identidade misteriosa do W.H. do título, a quem os sonetos de Shakespeare teriam sido dedicados.

Wilde escreveu o texto e, alguns anos depois, ampliou-o. O manuscrito original sumiu no leilão que se seguiu a sua prisão, em 1895, em Londres, e reapareceu décadas depois nos Estados Unidos. A versão ampliada foi publicada em suas obras completas.

24.6.06

O único, o inimitável Maloca Mendes virou editor do caderno de informática de O Dia. Isso é que é uma boa nova. O Guardião do Cadafalso deseja a ele muitas boas matérias na nova empreitada.

23.6.06

O Brasil ontem foi muito bem no jogo contra o Japão. Até que enfim o time desencantou. E já era hora, pois vai começar a fase do mata-mata na terça, contra Gana.

20.6.06

Mais fotos do Rio Negro: as duas primeiras de Henrique Martin, a última do meu celular.



15.6.06



Um trecho de igapó (a floresta amazônica inundada), para ilustrar o que falei no post anterior. A beleza da região ficou ainda maior com o dia perfeito em que navegamos pelo rio Negro. A bela foto é também de Henrique Martin.


Fotografando o encontro das águas dos rios Negro e Solimões, perto de Manaus. A visão é inesquecível. Os rios estavam na época da cheia, e tanto as margens quanto as ilhas no meio do caminho só exibiam praticamente as copas das árvores. A foto é do coleguinha Henrique Martin.

11.6.06

Fim de semana de plantão. Hoje, então, trabalhei desde cedo num capítulo do novo livro techie que estou finalizando e, agora, vim para o jornal. E no ônibus uma galera voltando da praia...

10.6.06

Decidi botar novo layout aqui. Já estava na hora. Agora os dois Cadafalsos ganharam uma identidade visual entre si, o que faz mais sentido. Nada como arrumar a casa de vez em quando.

9.6.06

Meu violão e minha guitarra estão encostados há um bom tempo num canto da sala lá de casa; é como uma parte adormecida de minha existência. E meus parceiros favoritos de som, Maloca e Gustones, andam longe e tão cheios de trabalho como eu. Assim que terminar meu novo livro techie, este mês, vou tentar armar uma reunião do Aerosilva. Viver sem rock e rhythm and blues é um pecado capital para um fiel dos três acordes como eu.

É como canta o David Coverdale:

Give me a rock an' roll band
With a mean an' dirty blues guitar!

E também:

I got a juke box heart
Full of honky tonk rhythm an' blues!

26.5.06

Eu parei para ver, outro dia, o documentário do Scorsese sobre Bob Dylan, "No Direction Home". É absolutamente sensacional. Imperdível, mesmo com quase três horas de projeção. Ajuda a entender um pouco os anos 60 nos EUA, o auge do Village em Nova York... Tem os beats falando, Allen Ginsberg, por exemplo. E o próprio Dylan pontuando entre as seqüências históricas e musicais.

Uma porrada. E tem os primeiros shows de Dylan com a The Band, afiadíssima. A guitarra de Robbie Robertson esmerilhada, os solos como uma relação sexual prestes a chegar ao orgasmo.

E todo mundo vaiando, dizendo que Dylan eram um judas por largar o folk acústico e cair de boca na eletricidade. O artista foi corajoso ao romper com o que estava ficando meio estereotipado e abraçar um novo caminho. Todo artista tem que ter essa coragem. Mas poucos, depois que fazem sucesso e ganham dinheiro, têm.

E é como alguém no documentário fala: nos anos 60, não era a indústria que fazia o artista. O que ele tinha a dizer realmente importava.

Mas hoje, com a vida digital e a cultura livre, as vozes independentes se fazem ouvir uma vez mais. Se por um lado a tecnologia impulsiona a "música" eletrônica (à qual tenho horror, porque fere minha formação musical), por outro cria alternativas de edição e publicação. É um consolo.

5.5.06

Minicontos do desconforto -- 84

Tudo, absolutamente tudo nela era um clichê. Era insuportável vê-la falar frases inteiras chupadas da boca de gente medíocre, de livros medíocres, de filmes medíocres, de atores medíocres, de músicos medíocres, de namorados medíocres, de livros de auto-ajuda (chamá-los de medíocres é redundância).

Ele não agüentou. Um dia, resolveu telefonar para a Casa Branca.

-- George W., eu sei onde estão as armas de destruição em massa que vocês não encontraram no Iraque. Ah, sim, sei que era tudo mentira, mas no fim das contas elas existem aqui, insuspeitadamente. Manda uma força-tarefa aqui pro Rio de Janeiro, no condomínio *** na Barra.

-- Well, sir, but... armas num condomínio?

-- São armas de destruição em massa de paciência.

28.4.06

Moçada, vou estrear uma coluna no Info Etc da próxima segunda. Só queria
avisá-los, vai ser uma nova fase para mim. A coluna será mensal.

17.4.06

Trilha sonora de hoje:

Riders on the storms (Doors)
Rain (Cult)
Crying in the rain (Whitesnake)
Rainy days and mondays (Carpenters)
Chove Chuva (Jorge Ben Jor)
Chuva de prata (Gal)
Raindrops keep falling on my head (Burt Bacharach)
Lágrimas e chuva (Kid Abelha)
In the eye of the storm (Roger Hodgson)
The rain song (Led Zeppelin)

13.4.06

Um filme bom é aquele que você vê várias vezes e, a cada sessão, descobre um ângulo diferente na história. Ontem revi "Closer", filme de que gostei muito, e desta vez fiquei com a nítida impressão de que o dermatologista interpretado (magistralmente) por Clive Owen consegue manipular direitinho os outros três personagens do filme (interpretados por Julia Roberts, Natalie Portman e Jude Law).

Também é de Owen uma das melhores frases do filme. Respondendo à acusação de Law de que é frio e vê o coração humano apenas como um diagrama, o médico responde na lata algo como: "seu babaca, você já viu um coração humano? Parece um punho fechado, coberto de sangue!"

Uma coisa não mudou, entretanto, em "Closer". Natalie Portman rouba o filme e está um Tesão, assim, com T maiúsculo mesmo. A fala de sua personagem na exposição de fotos dizendo que as pessoas fotografadas estão todas tristes, mas as fotos tornam tudo bonito e é isso que importa para os "apreciadores idiotas de arte", evidenciando a relação meio que de sanguessuga entre a problemática personagem de Julia Roberts e os objetos de suas lentes, também é uma porrada.

7.4.06

To travel hopefully is a better thing than to arrive.

(Robert Louis Stevenson)

True hope is swift, and flies with swallow's wings;
Kings it makes gods, and meaner creatures kings.


(Shakespeare)

6.4.06

Verissimo sempre enfia a ponta de sua caneta na veia. Da sua coluna de hoje:

"(...) Os que hoje propõem a 'flexibilização' dos direitos dos trabalhadores conquistados em anos de luta (como os que os franceses hoje defendem nas ruas de Paris) babariam com o que veriam no século XIX: homens, mulheres e crianças trabalhando 15 horas por dia, sem qualquer amparo, e sem qualquer encargo legal ou moral, fora os magros salários, para seus empregadores."

Aqui no Brasil, onde o capitalismo ainda é totalmente selvagem, esse blablablá de livre negociação, fim de carteira assinada, contratos temporários, enfim, a tal flexibilização, tudo isso é conversa para boi dormir: as palavras elegantes escondem a involução das conquistas sociais, a regressão à barbárie (como se já não tivéssemos barbárie suficiente no país) e mais, mais, mais dinheiro para a turma já endinheirada, que nos olha de cima como se não passássemos de um monte de merda.

Eu esperava do atual governo, no mínimo, uma política salarial, coerente com o que o partido pregou ao longo de duas décadas. Mas os bancos nunca lucraram tanto, a galera da especulação financeira nunca esteve tão bem e nós, assalariados, somos como párias dentro de nosso próprio país. É uma vergonha!

E isso tudo sem falar da corrupção. Que, se não é nova e vem de outros governos (o que não a torna menos que inaceitável) é absolutamente imperdoável para quem sempre se proclamou sacerdotisa da ética.

Eu mal posso esperar a hora da eleição. Que os traidores do povo tenham seu próprio cadafalso dentro das urnas.

Eu não vou anular meu voto, que é minha única arma.

4.4.06

A vida começa aos quarenta. Começa a degringolar.

29.3.06

Moçada:

Ganhei o prêmio SecMaster de Melhor Contribuição Jornalística na área de segurança da informação, na categoria Júri Popular. A premiação foi ontem à noite em São Paulo. É a primeira vez que o evento Security Week inclui a imprensa em sua premiação, e é claro que fiquei muito feliz de estar entre os vencedores.

A todos os que me deram a honra de seu voto, meu muito obrigado.

26.3.06

Ah, que bom acordar com a chuva num domingo de manhã. Especialmente num domingo em que você tem que dar plantão.

* * *

Ontem vi o filme "O último portal", baseado no livro "O clube Dumas", de Arturo Pèrez-Reverte. O livro é muito melhor. Até porque a direção de Roman Polanski é meio burocrática e os elementos de suspense do livro são quase todos retirados da trama. Mas Johnny Depp, Frank Langella e Emmanuelle Seigner salvam um pouco o resultado.

* * *

Por falar em Polanski, o melhor filme de todos os tempos sobre a solidão ainda é "O inquilino".

* * *

E já que estamos falando em cinema, outro dia mesmo vi "Entre umas e outras". Confesso que fiquei ansioso, até mesmo em algumas cenas onde deveria rir. É que tenho um amigo igualzinho (em comportamento) ao companheiro de aventuras de Paul Giamatti no filme. O cara é encrenca pura... e uma criança grande. Pobre Giamatti, eu sei bem o que você sofreu. ;-)

25.3.06

Em 1978 o Kiss lançou quatro Lps solo. O batera Peter Criss fez o mais suave de todos. É dele a melhor balada da coleção. Faz um tempo que não ouço, mas gosto muito dela.

Night falls on the city
Finds me all alone
Makes me wonder
Should I just go on home

And I walk up the stairs
To see if you're sill there
Would you mind if
I found you alone

Then a cold wind came callin'
Strange how it knew it'd bother me
See the night would fade
But the pain's gonna stay
Makes me wonder
Have you ever made love to me

I can't stop the rain,
here it comes again
Lightnin' strikes across the sky
Oh, I can't stop the rain, here it comes again
Lightnin' only blinds my eyes

Ain't it sad
When the only love I ever had
Just slips away
Right through my fingers

Ain't it a shame
when I think of your name
The only memory I have is it

I can't stop the rain,
here it comes again
Lightnin' strikes across the sky
Oh, I can't stop the rain, here it comes again
Lightnin' only blinds my eyes


("I can't stop the rain", Peter Criss)
Minicontos do desconforto -- 83

Precisou ir ao cinema, ficar no escuro, porque tinha vergonha das próprias lágrimas. Não importava que o filme fosse um desenho animado. Ele ficou lá atrás, tentando fazer do seu pranto a coisa mais silenciosa do mundo.

Quando se acalmou um pouco, recostou-se e fechou os olhos. E sonhou com sua juventude invencível, em que, como dizia a canção, não precisava da ajuda de ninguém. É, Lennon e McCartney estavam certos: a vida nos faz inseguros -- na verdade, nos faz pastiches de nós mesmos.

Naquela noite, a solidão daquele homem fez até os gaiatos personagens da tela se transformarem. O "o que é que há, velhinho" do Pernalonga até ficou mais cúmplice e menos sarcástico. A ira do pato Donald arrefeceu e ele fez as pazes com os esquilos. E Papa-Léguas e Coiote jantaram juntos, civilizadamente.

Ele devia estar sonhando -- aquilo não era possível. E estava: acordou quando o adolescente ao lado derramou um pouco do refrigerante em seu colo. Não ligou: pelo contrário, conseguiu sorrir pela primeira vez em duas semanas.

Quando saiu do cinema, catou na lata de lixo a vida que tinha jogado fora e a pôs novamente no bolso.

24.3.06



As imagens do local místico onde estive, no interior de SP (veja post mais abaixo). Em cima, a pirâmide de energia; e uma visão do vale, com uma cachoeira no meio.

23.3.06

É muita cara de pau! Mas muita mesmo!

Do Boletim do Sindicado dos Jornalistas do Rio:

"Patrões de jornais e revistas oferecem 4,5% de reajuste -- Acredite, jornalista. Eles oferecem um reajuste inferior à inflação do período. Isso em um ano em que o faturamento com publicidade cresceu mais de 14%, num desempenho surpreendente para a economia brasileira. Na última reunião de negociação, no nosso Sindicato, tivemos alguns avanços em poucas cláusulas sociais — como o aumento do auxílio funeral de R$ 500 para R$ 1 mil (comemore! nossa reivindicação era de R$ 2 mil) — e muitas propostas indecentes. Uma delas foi de criar, no segundo maior estado da Federação e um dos centros de mídia do país, ex-capital da República, um piso salarial de R$ 560 reais. Sim, é isso mesmo. Você não está com problemas de leitura. Problemas você vai ter se não se mobilizar e lutar pelo seu salário. Para saber do andamento das negociações e defender sua qualidade de vida, fique atento à convocação da próxima assembléia. Estamos aguardando uma nova proposta, menos indecente, dos patrões, para então marcar o encontro da categoria. Quem fica parado é poste!"

22.3.06

De volta de uma viagem a trabalho, no interior de SP. Fiquei num hotel com tendências místicas e fiz até uma caminhada com direito a pirâmide energizante, réplica do Templo do Sol dos incas e um labirinto concêntrico. Embora, como todo poeta, eu tenha um lado meio místico, nunca fui muito do estilo "nova era". Mas fiquei muito impressionado com a configuração sonora da réplica do Templo do Sol. Fiquei no centro dele e disse uma palavra. Ela ecoou imediatamente nos meus ouvidos, como se não tivesse sido eu a proferi-la, mas alguém a meu lado. É provável que haja alguma explicação científica para isso, mas tenho certeza de que não será suficiente.

17.3.06

Eu sou um romântico incurável, não um naturalista. Mas há que reconhecer, são poderosas as palavras de Júlio Ribeiro em "A carne":

O amor é filho da necessidade tirânica, fatal, que tem todo o organismo de se reproduzir, de pagar a dívida do antepassado segundo a fórmula bramática. A palavra amor é um eufemismo para abrandar um pouco a verdade ferina da palavra cio. Fisiologicamente, verdadeiramente, amor e cio vêm a ser uma coisa só. O início primordial do amor está, como dizem os biólogos, na afinidade eletiva de duas células diferentes, ou melhor, de duas células diferentemente eletrizadas. A complexidade assombrosa do organismo humano converte essa afinidade primitiva, que deveria ter sempre como resultado uma criança, em uma batalha de nervos que, contrariada ou mal dirigida, produz a cólera de Aquiles, os desmandos de Messalina, os êxtases de Santa Teresa. Não há recalcitrar contra o amor, força é ceder. À natureza não se resiste, e o amor é natureza. Os antigos tiveram uma intuição clara da verdade quando simbolizaram em uma deusa formosíssima implacavelmente vingativa, na Vênus Afrodite, o laço que prende os seres, a alma que lhes dá vida.

14.3.06

The true mystery of the world is the visible, not the invisible.

Oscar Wilde

13.3.06

Minicontos do desconforto -- 82

Ele compreendeu que seu vulcão interior -- depois de tantos anos quieto, sentindo o mar ventoso de tristeza lamber seus olhos cabisbaixos -- ia explodir de novo. Veio no meio da tempestade a consciência de que uma nova paixão despertava o magma e incandescia suas entranhas. Abriu-se para a chuva, repudiando toda a hesitação racional, e recebeu de volta sua verdadeira natureza, impetuosa, aventureira, com cascos de corcéis selvagens, sorrisos de sátiros e uma força irreprimível.

E ela, ela, só ela, tomava sua cabeça como uma voragem, como o aproximar das coortes de Aníbal, como o primeiro regurgitar do cosmo, como um coração escarlate a ribombar e espalhar vida renovada por um corpo ferido após longa doença.

Que pena que van Gogh não mais estivese vivo para pintá-lo.

10.3.06

Moçada, sou finalista ao prêmio SecMaster de melhor contribuição jornalística na área de segurança da informação, que venho cobrindo há um bom tempo. Há uma comissão julgadora, mas também uma votação popular. Por isso, se quiserem me dar uma forcinha, o site para votação fica aqui.

É preciso se cadastrar para votar. Uma vez cadastrado, deve-se entrar com login e senha e ir até a categoria Finalistas para Contribuição Jornalística. Eu estou lá esperando seu voto. A quem puder dar uma força, agradeço.

(Obs: é preciso votar nas outras categorias também).

7.3.06



Mais fotos da Bélgica (veja as outras no Cadafalso I). No alto, uma visão do Burg, em Bruges, local onde ficava a fortaleza do Conde de Flandres. Acima, eu diante da prefeitura de Bruges, um edifício de tirar o fôlego.

24.2.06

SHAKESPEARE E RICARDO III NA RIODADES

Parte III

-- Mas Ricardo, você há de convir que seu pai, o duque de York, não era boa bisca. Ele estava de olho no poder desde sempre.

-- Porque odiava ver o reino nas mãos de um neto de usurpador, e ainda por cima um neto inapto para o poder. Dizem que Henrique VI tinha até problemas mentais. Meu pai reivindicava legitimamente o trono para os seus.

-- Mas quando o rei teve um colapso nervoso em 1453, ele fez manobras sujas para se tornar protetor da Inglaterra.

-- E você queria o quê? Que ele perdesse a oportunidade? Não seja ingênuo, Will. De qualquer modo, o protetorado durou pouco. O rei se recuperou e nasceu um herdeiro, Eduardo de Westminster. Aos poucos, meu pai decidiu reunir seus exércitos e enfrentar os partidários de Henrique de frente. E assim começou a Guerra das Rosas, a vermelha dos Lancasters usurpadores, e a branca, dos York.

-- Imagino que seu ódio aos Lancasters advenha do que fizeram após a morte de seu pai, não? Botaram a cabeça dele numa estaca e uma coroa de papel, rindo e celebrando barbaramente sua morte. Foi depois de algumas batalhas entre os dois lados.

-- Foi odioso. Eu tinha oito anos de idade quando isso aconteceu. Lembro-me... era inverno, logo depois do Natal.

31.1.06

SHAKESPEARE E RICARDO III NA RIODADES

Parte II

-- Will, eu nasci no dia 2 de outubro de 1452, no castelo de Fotheringay. O mesmo castelo onde Maria Stuart perderia a cabeça em fevereiro de 1587, mas disso você deve se lembrar, pois estava bem vivo então. Meu pai era Ricardo, o terceiro Duque de York, e um homem, como eu, um bocado injustiçado. Aliás, é melhor começar daí, porque a história que vou lhe contar é uma de ódio e disputa por poder. Eu fui o último rei da Casa de York, que foi apeada do poder em manobras um tanto sujas. Tudo começa antes mesmo de 1400, no reinado de Ricardo II. Ricardo II, não sei se você sabe, era provavelmente bissexual. Mas se fosse um bom rei ninguém ia notar. O problema com ele (como também com o Eduardo II, seu bisavô) era que tinha porque tinha de botar seus favoritos para dar pitacos na administração do reino.

-- Também escrevi peças sobre isso.

-- Eu sei, e igualmente distorcidas, mas não tanto quanto a minha. De qualquer modo, só falo do Ricardo II para lembrar que ele foi deposto pelo primeiro sujeito da Casa de Lancaster a ocupar o trono inglês, Henrique de Bolingbroke, ou Henrique IV. Ele mandou matar Ricardo II após prendê-lo, mas as suspeitas de que o rei ainda vivia duraram tanto tempo durante seu reino de usurpador que precisou abrir o caixão de Ricardo só para provar à população que ele de fato estava morto.

-- Mórbido. Mas uma boa cena.

-- Henrique IV morreu em 1413, depois de uma terrível doença que lhe desfigurava a face e partes do corpo, além de aparentes ataques de epilepsia. Alguns os atribuíam a sífilis. Seu filho Henrique de Monmouth tornou-se então Henrique V. Este foi um grande guerreiro, o vitorioso da Batalha de Agincourt, que você tão belamente descreveu em sua peça sobre ele. Só que morrreu quando seu herdeiro, também chamado Henrique, tinha menos de um ano de idade. E aí a porca começa a torcer o rabo. Porque o reinado de Henrique VI foi um desatre total para a Inglaterra.

-- Também não é assim, Ma... desculpe, Ricardo.

-- É que você sempre escreveu do ponto de vista da Casa de Lancaster, a que está ligado meu maior inimigo, Henrique Tudor. Imagine, fazer uma peça em três partes sobre aquele bobalhão do Henrique VI...

-- Foi um bom rei.

-- Foi um rei bonzinho e babaca, governado pelos assessores e por aquela jararaca da mulher dele, Margaret de Anjou. Preste atenção e você verá o que quero dizer. Seu Amaro, desce mais uma cerveja aqui!

22.1.06

SHAKESPEARE E RICARDO III NA RIODADES

Parte I

Existe um lugar insuspeito perdido no subúrbio de Niterói. Chama-se Riodades e, lá, nada acontece. O tempo parou. Na esquina da rua Cinco de Março com a Álvaro Neves, fica a mercearia do Seu Amaro, um português simpático, bigodudo e bem-apessoado que gosta de puxar dois dedos de prosa com os clientes que aparecem para comprar uma cerveja ou um traçado. De vez em quando, Seu Amaro bota umas poucas mesas na calçada, para os bebuns de sempre jogarem um carteado.

Foi nessa mesa que, uma tarde, sentaram-se dois tipos. Ambos eram muito brancos. Um meio calvo, com uma barba penteada e um ar meio afetado. Outro, com um ar senhorial, lábios finos de juiz, olhos escuros e penetrantes. À primeira vista, poderia se pensar que mancava um pouco, mas o andar esquisito era na verdade causado pela cicatriz de uma velha ferida de batalha perto do joelho direito.

Embora os dois estivessem vestidos como a maioria dos homens da Riodades se veste no domingo — de bermudas, camisas de abotoar abertas e sandálias de dedo — e, também como os nativos, pedissem uma dose de cachaça antes de partir para a cerveja barata, seus nomes eram um tanto estranhos: William Shakespeare e Ricardo de Gloucester.

Outra coisa estranha era que, embora parecessem de carne e osso, os dois eram fantasmas. Fantasmas muito velhos — um do século XV, outro dos séculos XVI/XVII — e com uma certa conta a ajustar.

Esta é a crônica da conversa que William (Will) e Ricardo (que na verdade foi o rei Ricardo III da Inglaterra) tiveram naquela tarde pachorrenta. Eles falaram no inglês empolado de seus tempos, mas para o pessoal da mesa vizinha pareciam duas minhocas da terra falando um português bem rasteiro. É este que vamos ouvir aqui também.

— Will, você foi muito injusto comigo — começou Ricardo.

— Majestade, o senhor tem que entender...

— Não me chame disso aqui. Nem de senhor. “Você” servirá. Não queremos chamar a atenção.

— Sim, Ma... desculpe.

— Você foi muito injusto comigo, como eu dizia.

— Entenda: eu escrevia para os herdeiros do seu inimigo. Inimigo vencedor, diga-se de passagem. E você já estava morto há uns cem anos.

— Mesmo assim. Sua peça “Ricardo III” manchou minha reputação para sempre. Até hoje todo mundo acha que eu sou malformado, corcunda, a própria personificação do Mal.

— Para meus patrocinadores, você era.

— Eu o trouxe aqui porque acho que você deve conhecer a verdade.

— Sei.

— Não está interessado?

— Se não estivesse, não estaria aqui sentado. Mas a verdade é sempre um conceito muito subjetivo. Até me lembrei de outra peça minha, “Júlio César”. Você acha que a verdade sobre César era a mesma para Marco Antônio e Brutus?

— (Suspirando) Eu sei que não. Mas estou aqui para relatar apenas os fatos. Eu não sou um santo, mas sua injustiça me aborrece muito. Até Belzebu me sacaneia, dizendo que minha alma penada devia ser corcunda e manca. Não tenho ilusões de que recuperarei minha reputação, a não ser que você reencarne no século XV como um de meus aliados de York (risos), mas quero que me ouça mesmo assim. Vocês jornalistas detestam admitir seus erros.

— Nunca fui um jornalista. Escrevi peças e poemas.

— Foi um cronista do seu tempo, a seu modo. E aqui tem a chance de ouvir a história na fonte.

— Que seja. Estou ouvindo.

— Para começo de conversa, nunca conspirei contra meu irmão George, duque de Clarence. Eu o adorava. Ele é que cavou sua própria ruína. E também fui leal a meu irmão Eduardo IV até que ele desse seu último suspiro.

— Em vista de seus atos posteriores, eu duvido.

— Vou lhe contar a história desde o começo.

19.1.06

Mário de Andrade tinha razão ao dizer que amar é um verbo intransitivo.

30.12.05

Outro dia eu estava conversando com o Paulo Couto, do FórumPCs, e ele me dizia que foi muito feliz quando morava na Bahia, um lugar onde se sabe curtir a vida. E fiquei pensando: a felicidade é mesmo essa coisa fragmentada -- porque nós, os seres humanos, temos uma baita barreira a refrear a sensação de felicidade: a angústia. Pelo menos os seres humanos que pensam têm alguma parcela de angústia, que volta e meia vem à tona, com ou sem motivo.

Então, quando a gente pára pra refletir, descobre alguns poucos momentos (os que a amnésia alcoólica nos permite reter) em que a angústia, por algum milagre, foi embora (ou se escondeu muito bem) e nos deixou contemplar (ou fazer parte de) um universo em perfeita harmonia (é por isso que a gente bebe: beber ajuda, se você não deixar o porre chegar à fase depressiva. Na fase alegre e amorosa, a angústia vai pra pqp.)

Dá para lembrar alguns momentos em que estive em perfeita sintonia com o Espírito: solando uma guitarra no teatro da Uff no em julho de 1983; sentado à beira de uma piscina semi-acordado com uma lata de cerveja na mão em abril de 1994; fazendo sacanagens com uma namorada no sofá em fevereiro de 1980; num romance de carnaval em fevereiro de 1982; na minha festa de casamento em outubro de 1987; quando conheci todos os meus amigos de infância, nas décadas de 1960 e 1970, que em minha mente chamo de Os Imortais; e quando vi minhas filhas cantarem no coral da escola este ano -- elas me fizeram chorar, porque a música, quando emitida somente através da voz humana, tem um poder de atingir o peito que nenhum outro instrumento possui.

Fins de ano não costumam figurar nestes momentos, porque o réveillon de modo geral me lembra que vou ficar mais velho. E me faz pensar em quanto tempo me resta. E nas coisas que ainda não fiz. Mesmo que eu dance a noite inteira e relaxe, me lembro disso em algum momento.

Mas quero lhes desejar um excelente 2006: afinal, temos muito ainda o que fazer este ano. No mínimo, nas urnas.

Um grande abraço a todos vocês que me acompanham aqui desde 2001.

29.12.05

Don't part with your illusions. When they are gone you may still exist, but you have ceased to live.

Mark Twain
Eu adorei o novo "King Kong". Não dá para sentir as três horas passarem, e as cenas na ilha (criada digitalmente) são impressionantes. As passagens com os dinossauros são melhores que os três Jurassic Parks juntos.

E Naomi Watts está a própria personificação da Beleza.

26.12.05

Já disse que estou mergulhado em "A torre negra", de Stephen King. Já estou lendo o quarto volume. Mas dei uma parada para reler "O leão, a feiticeira e o guarda-roupa", de C. S. Lewis, após ver o filme "Crônicas de Nárnia". Essa história me encantou quando criança e continua uma delícia: ao contrário da formalidade de seu amigo Tolkien, Lewis escreve conversando com o leitor, num estilo conciso e leve.

E qual de nós não gostaria, por vezes, de abrir um guarda-roupa e encontrar outro mundo, outras possibilidades de vida e jogo, numa passagem secreta? Pelo menos em alguns recantos do meu cérebro, há muitas Nárnias que visito, e que jamais perdem seu fascínio.

12.12.05

Amanhã, dia agitado: lançamento do livro da Beth Orsini no Museu da República, depois lançamento dos livros do Nelson Vasconcelos e do Leonardo Pimentel na livraria DaConde, no Leblon.

25.11.05

Democracy is a device that ensures we shall be governed no better than we deserve.

George Bernard Shaw

21.11.05

Minicontos do desconforto -- 81

Mais tarde ele não soube precisar, mas houve um dia em que dormiu criança e acordou adulto.

Antes, a Fé caminhava de braços dados com ele todos os dias -- na escola, no caminho para casa, durante as refeições, nas brincadeiras com os amigos. E ela tornava-o capaz de engendrar maravilhas com a sua mente crédula, despreocupada -- houve muitas primeiras vezes naqueles anos, um mar de olhos arregalados e de sorrisos francos e lágrimas de origem certa.

Então, num belo dia de maio, conheceu a Dúvida. Lânguida e silenciosa, envolta num vestido cor-de-cisma, ela o olhou de cima da mangueira onde ele se recostava com um livro. Ele olhou para cima, formulando uma pergunta e, sem saber, deu com os olhos da dama, oblíquos como os de Capitu.

Devagar, sem pressa, numa imitação digna de Oscar da serpente do Gênese, ela desceu da árvore e soprou sobre as folhas do livro. Ele leu um pouco mais e seu semblante ficou carregado.
Naquele fim de tarde, as afirmações dos amigos ficaram translúcidas e, quando a noite caiu, ele deixou de adivinhar os desenhos das constelações e passou a se perguntar quando as estrelas que via tinham morrido e quanto de falso tinha seu brilho.

Quando se deitou, a Dúvida fez amor com ele. Mas ele duvidou: achou que havia sido apenas uma polução noturna.

E ela riu quando percebeu que ele estava pronto. Riu o mesmo riso irônico que ele ofereceu a sua irmã menor no café da manhã do dia seguinte, quando ela lhe falou da fada dos dentes. E a Fé, que tomava uma xícara diáfana de café ao lado da menina, chorou amargamente.

12.11.05

Novembro, mês de aniversário dos Cadafalsos. Este ano haverá festejos especiais... mas por enquanto ainda näo posso adiantar nada. ;-)

Já säo quatro anos de posts. O tempo realmente voa.

7.11.05

Já estão saindo do prelo os livros "Fotos no PC", de Nelson Vasconcelos, e "Som no PC", de Leonardo Pimentel, os primeiros de uma série de entretenimento techie da Campus. Ambas as obras pretendem mostrar, num clima prático e objetivo, como trabalhar, respectivamente, com arquivos de imagem e de música no computador, otimizando a máquina para essas tarefas. Cobras em seus temas, Vasconcelos e Pimentel são as pessoas certas para levar o leitor por essas veredas. O lançamento oficial dos dois volumes será em breve; assim que tiver a data, aviso.

4.11.05

Um dos sonhos recorrentes que tenho é o de estar voando. Pois bem, nas férias dei uma volta pelo teleférico de Friburgo, subindo os 1.322 metros do Morro da Cruz em duas etapas. Andar de teleférico é como subir uma montanha-russa, só que sem o pavor daquela descida vertiginosa depois. Tudo bem, você desce mais tarde, mas é como estar planando. E numa cadeira, em vez de numa cabine, é sempre melhor, pois a sensação de estar flutuando acima de tudo é maravilhosa.

31.10.05

De volta de um período de férias hibernantes e desconectadas. Logo haverá mais minicontos na área.

20.9.05

E a semana continua: depois do lançamento do livro, ontem, Jessica, minha filha mais velha, vai cantar no Municipal de Niterói amanhã, com o Coral do Centro Educacional, onde já milita há alguns anos. O coral é tudo de bom, eles arrasam. Não por acaso, a lotação do teatro já está esgotada. Este pai coruja estará lá animadíssimo. Rebeca, minha caçula, deve cantar também, se melhorar de um resfriado que pegou.

13.9.05


Semana de contagem regressiva para o lançamento do novo livro. É só clicar na imagem para ver os detalhes.

2.9.05

Amanhã, às 10h, eu e mestre Fernando de Oliveira daremos uma entrevista no programa da Promo Info na Rede Record sobre o novo livro, escrito junto com mestre Aroaldo Veneu, "Linux: comece aqui".

O lançamento do livro já está marcado: vai ser dia 19 de setembro, na Letras e Expressões, em Ipanema, a partir das 20h. Em breve vou botar um JPG do convite aqui.

31.8.05

Moçada, que inverno é esse, hein? Fala sério, dá vontade de ir para a praia...

21.8.05

Minicontos do desconforto -- 80

Tocou a música que havia sido "dela", na adolescência.

Eles estavam alegres, haviam dançado e bebido pequenas batidas geladinhas de morango; estavam naquele território que fica entre iniciar o vôo para o nirvana ou se render ao desejo tão sublimado na busca da perfeição (perfeição lá para as nêgas do Buda, né?, que para nosso corpo sedento e trêmulo não serve mesmo, pensou ele, dominado pela vodca). Ele se sentou um pouco, ouvindo os acordes suaves.

Então, de repente ela o olhou de um modo estranho.

-- Você se importa se eu te beijar?

-- É claro que não -- ele se ouviu dizer numa voz cheia de nonchalance, que escondia a tensão súbita.

Ela deu-lhe um pequenino beijo nos lábios. Ele ficou insatisfeito. Veio outro beijo tímido, mais um, mais um e então ele lhe tocou os cabelos, acariciando sua nuca e sentindo todo aquele calor sólido subir-lhe pelo meio das pernas, exatamente como sentiu o caseiro de Lady Chatterley. A ereção foi pronta e inevitável.

E exatamente aí ela abriu a boca e as línguas deslizaram livres e sem vergonha, sem culpa, e então o beijo foi sôfrego como uma espera embutida no palato durante anos; as colcheias da música pareciam estar dentro da boca perfumada, as cifras do violão inscritas no batom delicado que se misturava aos líquidos amorosos, à respiração que parecia gemer e sussurrar dialetos perdidos no tempo, na relva e nas fontes dos jardins babilônicos.

Ele a abraçou, envolveu seu corpo no laço de seus músculos; o beijo ficou mais intenso e as línguas eram como katanas forjadas em carbono, que se tocavam e recuavam em movimentos ensaiados, cuidadosos, mas tão intensos que tudo à volta deles sumiu de repente e ambos se sentiram em outro lugar, em outra época, uma época pagã, livre, algo debochada, onde havia correntezas de vinho e sombras generosas com um frescor realmente novo.

A música voltou quando ela deitou devagar a cabeça em seu peito.

Eis a verdadeira sabedoria, a sabedoria do gesto: beijar, pensou ele. Para que se livrar do desejo, se é justamente ele que leva à ausência de sofrimento? O desejo é o cerne de nossa condição, refletiu. E não apenas o desejo de possuir -- ali, o desejo era de se entregar, de (se possível) arrancar sua alma, dobrá-la e dar de presente a ela.

Ele já saíra com muitas amigas, e muitas vezes quisera dizer-lhes o que ia na alma com um beijo, porque a certo momento da noite as palavras se retiravam para dormir. Mas a maioria não havia compreendido essa vontade premente.

Ela mudara isso e não percebera. Mas ele nunca se sentira tão feliz.

Ela abriu sua alma para ele o resto da noite, falando de todos os seus conflitos interiores. Ele ouviu e deu sua opinião. Mas, toda vez que queria falar de si e do que sentia, simplesmente a beijava com ardor.

E nunca ele foi tão eloqüente.

17.8.05

Come on Charlotte
Wake up San Diego, Milwaukie, Miami
Put your two lips together and kiss

We're kissin' in Cleveland,
and Cincinnatti too
Way out in Chicago, I'll tell you what to do
They party all over, even in St. Lou
So baby get ready and I'll be kissin' you

Oh, oh, 'cause anytime is kissin' time, USA
So treat me right, don't make me fight
And we'll rock and roll tonight

We're kissin' in Dallas
And Philly's goin' wild
So let's Kiss Atlanta, ho
You know we'll make it smile
We love the women
Way down in Tennessee
So baby come on now
and start a-kissin' me

Oh, oh, 'cause anytime is kissin' time, USA
So treat me right, don't make me fight
And we'll rock and roll tonight

Kiss all of Seattle, LA to Baltimore
You know we been kissin' in 'Frisco,
so lets kiss some more
Let's do it in Detroit,
they all know the score
So baby, oh baby, what are we waitin' for!!

("Kissin' Time", gravada pelo Kiss em 1973)

2.8.05


Repetindo o post do Cadafalso I:

Acaba de sair do prelo meu novo livro, escrito junto com Fernando de Oliveira e Aroaldo Veneu. "Linux: Comece Aqui" é o título, e ele é o diário de um usuário que se encontra pela primeira vez com o sistema operacional de código-fonte aberto simbolizado pelo pingüim, e conta sua experiência. O livro é voltado para quem não conhece o Linux e foi baseado na distribuição Fedora Core 2. Em breve, aviso aqui quando e onde será a noite de autógrafos. O prefácio do livro é de Mr. Marcelo Balbio e a quarta capa, de Elis Monteiro.

31.7.05

Crib Tanaka estava no casório também, linda como sempre. Mestre Agusto Sales apareceu por lá e Fernando de Oliveira também.

Estou devendo um conto a Crib. Prometi que não vou enrolar mais.
Aliás, genial tirada do Maloca, irritado com o pessoal da filmagem e das fotos que não deixava ninguém em paz:

-- Hoje em dia as pessoas não querem mais elaborar uma lembrança. Elas querem apenas um registro objetivo do que aconteceu. Quando viajam, as pessoas querem ver tudo através da câmera e se esquecem de fruir o momento, se esqucem de que o que vale mesmo é reconstruir este momento em sua mente.
Ontem foi o casamento do Gustavo e da Marcele, em Botafogo. Uma capela simpática, escondida num jardim, foi o palco. A cerimônia foi bonita. Marcele estava linda e Gustavo, meu guitarman preferido, elegante. Maloca Mendes, baixista do Aerosilva, estava um mafioso perfeito, todo de cinza: só faltava aquele estojo de violino escondendo a metralhadora.

No começo, levei um susto. Estava fumando um cigarro ao pé da escada que levava à capela quando um segurança me abordou:

-- Com licença, o senhor é que é o padre?

Eu sorri.

-- Não, meu filho. Eu vivo eternamente em pecado. Não faz isso comigo, não.

Depois, avisei ao Gus para tomar cuidado, que ele corria o risco de ter o casamento celebrado por seu batera...

A festa foi animada e, como terminou cedo, fomos todos para a casa do Maloca encerrar a noite. Uma turma muito boa, que nem sempre é reunida, o que é uma pena: Maloca, Sérgio Maggi, Rodrigão, Edmundo, Franciney, Raquel, Cristiane... Rimos muito, embalados por Bohemias e Skols.

18.7.05

A eleição de 2006 vai ter um clima de velório terrível. É só o que consigo pensar quando vejo o espetáculo do crescimento das denúncias na TV.

Nem Dias Gomes escreveria novela tão rocambolesca.

22.6.05

Adorei o novo filme do Batman. Gosto do herói, principalmente depois que ele retomou seu clima original com a publicação de "O cavaleiro das trevas", de Frank Miller, nos anos 80.

14.6.05

Há momentos em que as coisas simplesmente dão errado. Não adianta querer tapar o sol com a peneira e continuar falando amenidades quando uma sombra pesada se instala na sua cabeça: melhor calar e ir embora. Nesse ponto eu sou totalmente transparente. Não sei fingir que está tudo bem.

10.6.05

The poetry of earth is never dead:
When all the birds are faint with the hot sun,
And hide in cooling trees, a voice will run
From hedge to hedge about the new-mown mead.
That is the grasshopper’s—he takes the lead
In summer luxury,—he has never done
With his delights, for when tired out with fun,
He rests at ease beneath some pleasant weed.
The poetry of earth is ceasing never:
On a lone winter evening, when the frost
Has wrought a silence, from the stove there shrills
The Cricket’s song, in warmth increasing ever,
And seems to one in drowsiness half-lost,
The Grasshopper’s among some grassy hills.

(Keats, 1816)

9.6.05

Há um ano escrevi uma reportagem sobre usabilidade de celulares, inspirado por um papo com Cora Rónai, que gerou um estudo da responsável pelo Laboratório de Usabilidade da Ibmec Business School, Simone Bacellar Leal Ferreira. Acabei me tornando co-autor do estudo, junto com Marcos Gurgel do Amaral, e ele foi apresentado pela Simone mês passado no congresso da IAMOT (International Association for Management of Technology), em Viena, Áustria. Infelizmente não pude estar lá de novo (já estive na cidade uma vez, ela é inesquecível), mas vocês podem imaginar como fiquei prosa. Simone também vai apresentar o estudo aqui, no Congresso Anual de Tecnologia da Informação da Fundação Getúlio Vargas, no fim do mês.

7.6.05

Minicontos do desconforto -- 79

Quando acordou, sabia que ia morrer. Tivera pesadelos terríveis a noite toda, e a manhã estava fria (embora fosse verão) na borda do campo de batalha. Na colina oposta, tremulava o estandarte do adversário -- um arrivista covarde, filho de rainha viúva com camareiro. Ele, ali, o último dos reis guerreiros de uma longa linhagem, sabia que o trono era seu por direito, mas fora longe demais. Mandara matar gente demais; achara que o povo odiaria, como ele e os seus de York, a esposa de seu irmão, o falecido rei Eduardo, uma pobretona que pôs todos os parentes nos melhores cargos e, no fundo, ajudara a levar à Torre seu irmão George.

Mas o povo era volúvel, como o é em todos os tempos, e ele, o caçula e o mais leal irmão do rei Eduardo -- George, era verdade, vivia conspirando -- passou a ser temido. Ainda mais depois que seus sobrinhos desapareceram misteriosamente da Torre. Disseram que ele os havia assassinado para garantir sua permanência no trono.

Só ele sabia a verdade. Mas não podia revelá-la. Deixaria que a História se encarregasse disso, se seus representantes fossem competentes.

Vestiu-se para a batalha e subiu no cavalo, que estava inquieto.

Quando finalmente as lanças e espadas dos soldados do Duque de Richmond atravessaram seu corpo, Ricardo III da Inglaterra só pôde sentir alívio.

Era o ano de 1485 e o campo de Bosworth se encheu de fantasmas. E fantasmas não têm pesadelos.

29.5.05

Extraído de um email que enviei para uma amiga querida:

"Outro dia vi aquele filme em que a Gwyneth Paltrow vive a Sylvia Plath, aquela poeta americana que se matou em 1963. Me identifiquei muito com os mergulhos da personagem na solidão e com sua insegurança eterna. Quando escrevo minhas coisas, é como se eu voltasse a ser um menino: volta a sensação de estar perdido na voragem do mundo, o pavor da solidão, a certeza de ser sempre incompreendido."

20.5.05

O novo episódio de Star Wars é mesmo o melhor desta nova saga de George Lucas. Se eu voltasse aos meus 15 anos (idade com que vi o primeiro episódio da saga antiga), vibraria mais. O começo do filme é um dos melhores começos de filme de aventura dos últimos tempos. Mas a história, é claro, é totalmente previsível.

Mesmo assim, é um clássico com a marca legítima Star Wars.

É como me disse o Jan Theophilo: por que não teve toda essa ação nos dois primeiros, pô?

18.5.05

Outro dia almocei com a Babs. Foi ótimo e matei a saudade, porque mal tenho tido tempo de sair e espairecer. Ela também anda superatarefada com um monte de coisas, e não nos falamos com calma há meses. No almoço, deu para ensaiar uma atualizada no papo, mas ainda faltam muitos chopes para ficarmos up-to-date.

Ela está linda como sempre e com aquela jovialidade capaz de derreter um coração de granito.
Merece, pois, as palavras imortais que Lord Henry Wotton disse a Dorian Gray num jardim vitoriano em 1890:

"You have only a few years in which to live really, perfectly, and fully. (...) Time is jealous of you, and wars against your lilies and your roses. (...) Live! Live the wonderful life that is in you! Let nothing be lost upon you. Be always searching for new sensations. (...) With your personality there is nothing you could not do. The world belongs to you for a season."
Hoje uma amiga muito querida me enviou um email contando que, numa prova a que se submeteu num curso que está fazendo, havia um trecho de reportagem minha no Info Etc. Ela ficou exultante e rimos muito ao telefone (liguei assim que vi a mensagem). E eu também percebi que estou ficando velho mesmo ;-))

De qualquer maneira, é um luxo ser citado nesse contexto, não?

Mudando de assunto: puxa vida, será que é verdade esse negócio de R$ 250 mil para a Ana Paula Padrão no SBT? Se for, chega a dar depressão...

17.5.05

Mês agitadíssimo. Nova coluna, ao lado de mestres Cat e Piropo. Terminando mais um livro, com quilos de capítulos em produção. E tome matérias, matérias, matérias e mais matérias semanalmente. E ainda tenho projetos de consultoria na parada.

Bom, normal para quem está acostumado com o ritmo. Mas eu sonho todo dia com minhas férias, que só chegam no segundo semestre...

Por isso tenho postado pouco. No feriado de Corpus Christi vou compensar, moçada.

24.4.05

Minicontos do desconforto -- 78

Trinta e três anos depois, ele não a reconheceu de imediato quando entrou no restaurante (e ficou encabulado). Mas, depois de duas horas de papo, quando desceu as escadas, viu-se novamente no Rio de Janeiro de 1972 e riu junto com o Tempo gozador que era agora o porteiro do restaurante que não mais existia (isto é, não existia ainda).

O Tempo, com uma mesura e uma piscadela de olho, fê-lo entender que viajar por suas dimensões fugidias nada tinha a ver com a teoria da relatividade de Einstein, nem com astrofísica.

Tinha a ver com um grande amor. Do tipo que não se realiza.

Então ele se sentou no meio-fio e chorou amargamente a perda do que, no fundo, jamais tivera.

19.4.05

Voltei do evento de segurança. Foi bem programado e deixou um tempinho para relaxar in-between. Wal anda reclamando (não sem razão) que estou viajando demais, mas o que fazer? Navegar, voar, correr é preciso nesse mundão techie ;-)

Eu só queria que meu cérebro tivesse Hyper Threading, aquela tecnologia que faz uma CPU trabalhar por duas, para absorver tanta informação.

13.4.05

Viajando de novo, para mais um evento techie. Desta vez é de segurança, tema de que gosto muito. Na volta conto tudo. E espero ter um tempinho para mais um miniconto.

5.4.05

Semana agitada com a morte do papa e os debates sobre seu sucessor. Mal cheguei de viagem (veja o Cadafalso I) e precisei dar uma forcinha ao pessoal da Inter no caderno especial. Cheguei ontem em casa pelas onze e meia da noite e cinco da matina estava pronto para voar para Sampa, de onde estou postando isto, num evento da Sun com o pai do Java, James Gosling. O keynote dele foi bem interessante, mostrando as muitas facetas da xicrinha, que completa dez anos de vida em maio.

23.3.05

É isso aí!

"AUMENTO ZERO NÃO
Jornalistas lotam o Sindicato e decidem lutar contra tese xiita


Um evento como há muito não se via no Rio de Janeiro. Auditório lotado, os jornalistas profissionais deram um show de solidariedade e mobilização na assembléia da noite de ontem. Por praticamente unanimidade, foram rejeitadas as propostas patronais de rádio e TV e jornais e revistas de aumento real zero em 2005. A tentativa dos patrões de dividir os jornalistas, propondo abonos diferenciados, foi reprovada. A assembléia autorizou o Sindicato a fechar um acordo somente se os patrões deixarem o radicalismo de lado e entenderem que temos direito a aumento real para compensar um sacrifício que dura quatro anos, com reajustes inferiores à inflação.
A assembléia autorizou o Sindicato carioca a iniciar um movimento com o Sindicato de São Paulo para alertar a opinião pública a respeito do desinvestimento nas redações e na qualidade do jornalismo. Em São Paulo, os jornalistas de jornais e revistas conseguiram um aumento real além dos abonos, mas o acordo com rádio e TV não foi fechado, apesar de a data-base ser em dezembro, porque lá também eles insistem no mesmo radicalismo: zero de aumento real. No caso do Rio o radicalismo é ainda mais incompreensível porque os veículos tiveram um desempenho em 2004 superior à média nacional. Em um ano o aumento do faturamento bruto com publicidade foi de 33,15% nas TVs, 20,61% nos jornais e 37,91% nas rádios.
Os patrões insistem no princípio xiita do aumento zero em vez de se abrirem ao diálogo (como sempre fizemos) e aproveitarem o momento favorável da economia para começar a pagar sua dívida conosco. Por aceitarmos reajustes inferiores à inflação nós acumulamos, em quatro anos, perdas que somam 11,99% na mídia impressa e 14,5% nas emissoras. Sem contar a inflação de 5,8% do último ano. A assembléia considerou a proposta de aumento real zero um radicalismo sem sentido e rejeitou um acordo só com esmolas, ou melhor, abonos. Por mais interessante que pareça em um primeiro momento, todos sabemos que abono vira pó rapidamente. Precisamos começar a repor as perdas que aceitamos em nome de uma recessão que não existe mais.
O momento é de mobilização e o sucesso do nosso movimento depende de você. A assembléia de ontem mostrou que os jornalistas querem lutar por qualidade de vida. Se você acha que chegou a hora de parar de perder salário, aceite o desafio de convencer seu colega, seu chefe, seu editor e a direção de sua empresa de que nossa reivindicação é simplesmente justa. Os representantes patronais têm argumentado que o momento brasileiro é bom, o desempenho do setor foi sensacional, mas não podem dar aumento porque não sabem como será o futuro. Mas não é assim mesmo que as coisas funcionam? Por acaso só teremos direito a aumento quando eles tiverem uma lâmpada de Aladim ou uma bola de cristal para adivinhar um futuro eternamente grandioso?
É importante você saber que não estamos falando de futuro, mas de um ano de grande desempenho positivo das empresas, de fevereiro de 2004 a janeiro de 2005. E de quatro anos de perdas passadas. Quando aceitamos as perdas, não usamos o argumento ridículo de que o futuro seria melhor. Se a economia brasileira piorar no futuro, saberemos, como sempre, agir com flexibilidade e dividir o prejuízo. Mas agora temos direito à divisão de um bolo que cresceu muito. A maioria das categorias profissionais no Brasil tem conseguido aumentos reais em função disso. Não há motivo para discriminação contra os jornalistas. Não somos categoria de segunda.
Mobilize sua redação, chame o colega para a discussão, fortaleça sua categoria e prestigie seu sindicato. Faça reuniões, debata, pressione. Use os adesivos que vamos distribuir contra o radicalismo do aumento real zero. Prepare-se para a próxima assembléia, que vamos convocar provavelmente na próxima semana. Vamos dizer que os jornalistas do Rio decidiram não trocar seus direitos e sua dignidade por abonos passageiros. E que não concordamos com um radicalismo absurdo que prega o aumento zero em tempo de vacas magras ou gordas. Não ao aumento zero!

Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro"

22.3.05

"To be an adult is to be alone."

(Jean Rostand)

"The worst loneliness is not to be comfortable with yourself."

(Mark Twain)

19.3.05

Eu odeio ficar sem grana. Você não odeia também? Vida de assalariado nesse país é o mesmo que purgatório.
Recebi ontem este email do Maloca Mendes, e é exatamente assim que nós, músicos que abandonaram a música e vivem hoje só flertando com ela de vez em quando, nos sentimos:

"Barba,

Cá estou às tantas da madrugada, bêbado, arranhando, para desespero
dos vizinhos, meu desafinado violão, quando lembro de uma canção
perdida no tempo, uma canção que me faz ter saudade de uma garagem na
Rua Passos da Pátria.
A melodia não é nossa, infelizmente, mas a tua versão para 'Pigs on the
Wing', aquela que tocávamos em sábados perdidos nas brumas do tempo, é
um marco. Pelo menos para mim. Até por que era uma das poucas que eu
conseguia tocar sem titubear.
Não consigo lembrar da letra em inglês sem que me venham os teus versos.
Essa música, na minha memória é uma parceria tua com o Waters.
Por onde andarão Minhoca [guitarrista da velha banda] e Palito [baterista da mesma banda]? Por onde andamos nós?
É incrível como o tempo passa e a vida se esvai sem que nos demos conta...
Até quando buscaremos abrigo contra os porcos a voar?
Saudades de você, camarada.
Desculpe o sentimentalismo etílico.
Maloca"


Meu caro, eu também tenho saudades. E, como lhe respondi, temos que pegar os violões e fugir para a casa do velho Carlos Octavius lá em Itaipuaçu para soltar todo esse blues na praia, à noite. E o Gustones e a Marcele têm de vir junto.

É mesmo uma merda ficar sem tocar e só relembrar tempos mais loucos que ficaram para trás.

E também preciso beber mais. Estou sóbrio há decênios.
Meu domicílio eleitoral não é no Rio (voto em Niterói). Mas trabalho e tenho boa parte de minha vida na cidade que ainda considero maravilhosa e única em seu estilo, e se dependesse de mim Cesar Maia sofreria um impeachment. A maneira leviana como trata questões de saúde e segurança, deixando os cidadãos à míngua por divergências com autoridades estaduais e federais, e o acinte à população carioca com o anúncio de sua candidatura à Presidência logo após lhe ser dado um novo mandato são suficientes, a meu ver, para defenestrá-lo de uma vez por todas. O Rio de Janeiro precisa de lideranças decentes já! Estou com a Cora e o Jabor: o Partido do Rio de Janeiro tem que nascer imediatamente.

Aliás, os governantes do estado também deveriam voltar para o interior e apodrecer lá para todo o sempre.

A intervenção federal na saúde tem de continuar e precisa ser seguida por uma fortíssima na segurança. Já. Já estamos, na prática, acéfalos de autoridade há muito tempo, por isso o governo federal precisa agir. Pára de pensar em reforma ministerial, Lula, e olhe para nós, os desassistidos.

4.3.05

O calor oniprescente no Rio acaba sempre nos levando de volta ao chope. Mas estive recentemente na serra de SP e, com o friozinho de 17 graus que fazia, comprovei uma vez mais que vinho e boa companhia consistem num dos melhores casamentos que existem. Saúde!

18.2.05

Venha e sussurre no meu ouvido novamente, onde você estiver.
Por que o momento passa?

4.2.05

Fevereiro trará interessantes novidades... Quando puder, noticiarei aqui.

28.1.05

"I think a change would do you good."

(Sheryl Crow)


25.1.05

Minicontos do desconforto -- 77
(para Crib Tanaka)

Acendeu a vela e olhou para o rosto marcado no espelho do banheiro. Mais uma vez a luz se fora, mas ela até preferia a casa assim, às escuras. Desse jeito não dava para ver as paredes desbotadas, as infiltrações, o chão de ardósia sem graça e os móveis doados pelos parentes ao longo dos anos. Que decoração.

Voltou para a sala, a fumaça esguia da vela evolando-se devagar e silenciosamente por sobre o ombro. Então percebeu que a luz tênue mostrava um outro ambiente: cortinas pesadas, cadeiras do século XIX, um pedaço de tapete persa no chão, um aparador rebuscado... Onde estava o televisor? E o celular que estava sendo carregado em cima da mesa... ah, a mesa era outra, redonda, com uma toalha de renda e louça Limoges. Taças cheias de vinho.

E ele ali, observando-a. Só que com roupas dos anos 1890.

Sentou-se. Percebeu que estava falando em francês. Bebeu do vinho, vermelho e cheio de vida, acordando seu sangue há muito estacionário.

E então, de repente, estava rindo. A fumaça da vela parecia rir com ela, dançando no meio dos dois, agora num castiçal que aparecera do nada.

A noite caminhou célere. Os risos aumentaram. Ela jurou ter ouvido violinos e um piano. Até que, vencida pelo vinho e pela alegria, desmaiou suavemente sobre a mesa.

Acordou com a cara em cima do celular, as luzes acesas como uma explosão diante de seus olhos. A vela se consumira. Um montinho de cera marcava seu lugar.

Achou que havia sonhado. Só entendeu que havia acontecido um milagre quando foi à cozinha beber água e achou a caixa de velas em cima da pia. Com todas as velas dentro.

16.1.05

Minicontos do desconforto -- 76
(para Elis)

Ela desconfiou quando ele começou a se vestir melhor, a botar um perfuminho antes de sair: já fora ferida além da conta para suportar mais uma traição. Sua mente começou a rodar spywares tentadores e, numa quarta-feira em que ele avisou que chegaria mais tarde, não resistiu e seguiu-o.

Viu-o sair do trabalho e entrar num táxi. Entrou noutro e mandou não perder o da frente de vista, como nos filmes.

O táxi dele parou num bar na Lapa. Ele saltou e entrou. Ela fez o mesmo, abrindo a porta do bar a tempo de vê-lo subir para o segundo andar, envolto em sombras. "Cachorro", pensou.

Subiu a escada já despida da preocupação de que ele a visse. Os saltos bateram forte nos degraus; ele ia ver só, ela ia fazer um escândalo.

Foi quando ficou momentaneamente cega pelo acender de luzes fortíssimas.

-- Feliz aniversááááario!!!! -- gritou a multidão, já no embalo de uma de suas músicas preferidas da trilha de um filme romântico.

Ele, rindo muito, estava com um buquê de rosas vermelhas na mão. Devagar, abraçou-a, beijou-a na orelha e sussurrou:

-- Você precisa ter mais fé, dear.

Ela ficou tão sem graça que no dia seguinte comprou-lhe um terno novo e um perfume caríssimo.


10.1.05

"Quando a raiva subir, pense nas conseqüências."

(Confúcio)

29.12.04

Well I'm staring down from Venus in the dead of night
My mind is thinking back to when the world was right
Your guns and bombs keep rolling off the assembly line
And people keep on starving and you think that's just fine

With my head in the clouds
its easy to see
You better live together peacefully
You know the world is still your family tree
So keep it straight - remember me
It's not too late - remember me

Well I'm floating and spinning and flying above the Earth's atmosphere
And I've got a few things to say
That you may not wanna hear
Now there's just enough time to repair it
As long as you don't let it get you down
But there's not a whole lot you can do for yourself
when you're buried underground

With my head in the clouds
its easy to see
You better live together peacefully
You know the world is still your family tree
So keep it straight - remember me
It's not too late - remember me

There's so much yelling an screamingand lying and cheatingand robbing and preaching
That we've heard it all
We need some loving and caring
And kissing and hugging
And helping each other
Or we're gonna fall
And that'll be all
So remember me

(Ace Frehley, in "Trouble Walking")

Feliz 2005, moçada!



28.12.04

Minicontos do desconforto -- 75
(para Carolina)

Viu a neta sofrendo. Dias sem comer. Luzes apagadas e Carpenters na vitrola. Decidiu escrever-lhe uma pequena carta e enfiou-a sob a porta.

"Não tenha vergonha de carpir a morte do seu amor", foi o que leu a neta, com os olhos remelentos de lágrimas. "Quando eu tinha a sua idade, já lera muitos tratados de filosofia e decidi que amar não era uma opção. Principalmente para a mulher, que acaba sempre subjugada por esse sentimento que, então, eu achava maldito. Até que conheci Juan numa festa, que me abordou com as costumeiras palavras elegantes dos malandros. Mal esperava ele receber um jato de argumentos cínicos da boca de tão bela donzela. Titubeou, mas não esmoreceu. Até que, cansada de ficar sentada ouvindo as conversas frívolas de minha primas, resolvi dançar, lá pela meia-noite. E, naquela dança, alguma coisa aconteceu que eu não soube precisar. Mas me deixou cismando por dias.

Perguntei por Juan a uma amiga; ela me disse que ele trabalhava no jornal do Lacerda. Decidida, fui à redação e, vendo-o ali, escrevendo em meio àquele burburinho irresistível dos repórteres no fim de tarde. Estava tão sério e compenetrado -- parecia um jovem filósofo do cotidiano. E tão jovem! Ali, minha mente virou de cabeça para baixo, eu esqueci todo o meu discurso e beijei-o depois de um café despretensioso.

Seguiu-se uma paixão tórrida, que exauriu todas as minhas forças. Logo eu, que me considerava a mais preparada adversária do sentimento, capitulei com uma vontade que não havia percebido em mim.

Até que um dia vi Juan na Colombo com uma vedete. Então foi minha vez de me trancar no quarto e afogar de lágrimas o Zaratustra de Nietszche, querendo que minha vontade férrea fosse a mesma do super-homem.

Mas foi na dor que descobri, afinal, que era humana, e que o amor incendiário é finito, como nossos anos, contados do minuto em que nascemos. E, como escreveu Wilde, da dor que dura para sempre consegui extrair o prazer que dura um instante -- o suficiente para rir de minha arrogância e amar de novo, e ser mais sábia, e compreender a fluidez da paixão.

Fui lá, tirei Juan da vedete e namoramos até cansar. Eu me diverti horrores e acho até que o escandalizei um pouco. No fim, cansei e deixei-o (foi quando ele escreveu suas melhores crônicas).

Nessa época, comecei a arrastar a asa para seu avô, que Deus o tenha. Mas só nos casamos depois que eu namorei vários outros.

Portanto, acredite. Vai passar. E você também vai rir depois."

A neta foi tomar café no dia seguinte. E comeu tudinho.

Havia um novo brilho em seus olhos negros.

27.12.04

"Ondas gigantes matam 12 mil em países da Ásia" -- esta manchete me pareceu ficção científica ao acordar hoje. Pelo meio-dia, os mortos já haviam chegado a 23 mil. É como se diz: para morrer basta estar vivo. Que as almas levadas tão subitamente por mais este capricho do Destino encontrem paz onde quer que estejam.

17.12.04

Por falar em levinho, inacreditavelmente estou uns 15 quilos mais magro. Deve ter sido o e$tre$$e de outubro/novembro, em que precisei fazer uma economia de guerra para me livrar de pendências. Preocupação emagrece, pelo visto...
Estive estes dias com uma de minhas maiores amigas, tomando um daqueles chopes em que a boa prosa não pára. Fomos até as duas da madruga numa Cobal da vida; foi bom porque eu estava precisando desabafar sobre algumas agruras domésticas. Saí de lá repleto de chope, mas com a mente levinha, levinha.




O litoral de Ilhabela, SP, clicado a bordo do Paratii 2, barco do Amyr Klink. O dia estava uma beleza (foi no fim de novembro).

15.12.04

Fui ontem ao show da Norah Jones. Esperava algo meio morno, mas a apresentação foi gostosa demais. Em meio às baladas, ela espetou músicas country, climões de jazz e até alguns rocks (tocaram até The Band). A banda, afiadíssima, contou com o veterano Robbie McIntosh e Adam Levy nas guitarras, ambos excelentes e protagonistas de solos melodiosos. O baterista Andrew Borger deu um show à parte nas músicas mais climáticas, e a própria Norah canta horrores sem fazer a menor força.

13.12.04

True happiness is of a retired nature, and an enemy to pomp and noise; it arises, in the first place, from the enjoyment of one's self, and in the next from the friendship and conversation of a few select companions.

Joseph Addison

4.12.04

Em breve, os minicontos prometidos. Dia 30 passou e o blog fez três aninhos.
E também fotos do meu niver (é hoje, mas a bagunça foi ontem -- está narrada no Cadafalso I). Aguardem.

25.11.04

Estou chegando perto da versão 42.0 -- e meio ressabiado. A estrada dos "enta" se estende à minha frente, e ela parece longa e varrida pelo vento...

24.11.04

No próximo dia 30, este blog completa três aninhos de vida. Como fiz no ano passado, escreverei os próximos três minicontos com temas sugeridos por vocês. É só sugerir nos comentários. Quem se habilita?

16.11.04

No more tomorrow, baby; time is today.

6.11.04

Dia de citações sobre a paixão:

"Só as paixões, as grandes paixões, podem elevar a alma para as grandes coisas." (Diderot)

"Permanece quieto quando não tiveres nada a dizer; quando a genuína paixão mover-te, diz o que tem a dizer, e faze-o com calor." (D. H. Lawrence)