26.1.10

Poemas não podem ser construídos
nem medidos.
Não tem lugar neles o altar da Razão;
Banhe suas mãos no fogo das palavras
e queime sem medo enquanto arranca breves faíscas
-- serão elas os versos
como os que jogo para minha musa durante a Tempestade.

Ó musa adorada, não temais meu delírio
pois é ele apenas o motim da Vida enclausurada
contra o capitão do HMS Watch
e sua tripulação de obedientes ponteiros.

Naquela nau amaldiçoada é sempre tarde
mas basta-me ver-vos para imobilizar a corrente atrevida
e desfrutar um instante imortal.

18.1.10

Para uma imperatriz sem diadema (mas uma verdadeira imperatriz)

No salão cheio de ninguéns
seus olhos eram os faróis negros
do conhecimento;
e saber (saber de verdade)
é sempre um risco,
quanto mais saber que se ama.

Olhar seus olhos tão negros
e poder beijá-la de leve no pescoço, no fim da festa,
transtornou o quebra-cabeça engordurado e mal resolvido
que venho me tornando há muitos anos.

E lembro quando você me abraçou com suavidade
e, a Diplomacia personificada,
disse que não poderia vir ao chope.
Mas seu cuidado, seu carinho aveludado
ao expor as minúcias de sua ausência
foi mais caro ao meu coração
que a boêmia em si.

Espero um dia deitá-la em meu colo
e cantar até que mergulhe em sonhos
onde flores amarelas envolvam seu corpo
nos bosques do esquecimento.

7.1.10

Dizem que o Homem foi criado por último para não se sentir orgulhoso. Mas o entendimento corrente é que, sendo o último, ele tudo coroava. Daí a passagem de vítima a algoz do ambiente. Não se pode mais imaginar, como ocorreu no início da era industrial, que os recursos naturais são ilimitados. Modernizado e lendo a si mesmo como um indivíduo-cidadão, o macaco nu amalucado por ideologia, ciência, mercado, álcool, arte, literatura ou religião criou um modo de produção aniquilador da "natureza". Hoje, um planeta enfermo dá sinais daquilo que os "selvagens" conhecem: que não somos senhores privilegiados deste mundo, mas um mero ator entre outros. Se o nosso individualismo coletivo — pomposamente chamado de nacionalismo e de patriotismo — nos faz recalcar o limite; o retorno das diferenças nos diz que temos que aprender a falar uma mesma língua. Não por ideologia ou religião — esses grandes motivadores de tenebrosas transformações sociais — mas porque estamos suicidando o planeta.

(Roberto DaMatta, 23/12/2009)


Perguntam-me: tens viajado? Ou seja: tens ainda o antigo prestígio de ser um brasileiro que mora fora? E eu: não! Agora, viajo pra dentro!

Faça o exercício. Excursione para dentro de si mesmo. Visite os Estados Unidos dos Recalques, o país daqueles seres e experiências que você tentou expulsar de dentro de si mesmo. Passeie pelas Europas da Paris dos amores frustrados. Visite a Terra de Ninguém das Grandes Broxadas, lugar onde o nosso querido Ziraldo jamais pisou. Não perca o Louvre e o British Museum dos tesouros e inocências perdidos. Aproveite o carrossel, a roda gigante, o show e o picolé que rapidamente derrete de Sexolândia. Compre na maravilhosa Bloomingdale que está dentro de você um último modelo de ressentimento — a chegar em breve ao Brasil. Nestas grandes lojas, aliás, as ingratidões, os ódios e as invejas sempre estão em liquidação e são baratíssimos. Siga, depois, até o país mais aberto do mundo, o do Sofrimento — uma terra igualitária e sem fronteiras. Lá, você pode conferir o volume da sua cachoeira de egoísmo, cretinice e inveja que alimenta o lago do sucesso que você com frequência atribui aos outros. Agora, lembre-se que você precisa de um passaporte devidamente visado para penetrar nos Territórios Tabus e para percorrer o fedorento Pântano da Traição, habitado por jacarés com suas numerosas (15, diz o jogo do bicho) máscaras. Só ouse subir até o último andar do edifício das Fantasias Eróticas com a cabeça aberta ou fresca. E só entre na Roma e na Brasília das Promessas Populistas Triunfais de um Brasil Grande, onde cada palavra vale tanto quanto um confete, devidamente vacinado contra a demagogia, o culto de personalidade e a mentira. Mas não se esqueça, querido leitor, de escalar o Monte da Compreensão. No seu topo e num dia claro, você — quem sabe — poderá contemplar sua própria trajetória vendo com clareza os grandes e os pequenos obstáculos. Dali, é possível ver o grande e profundo Oceano do Amor que recebe e devolve todos os nossos impulsos de gratidão, de reconhecimento, e de coragem. Essas coisas que transformam o frágil e o transitório nas únicas coisas que interessam a quem se tornou realmente humano.


(Roberto DaMatta, ontem)

19.12.09

Moçada, um excelente Natal para todos é o que desejo.

26.11.09

Esta madrugada o Kiss fez seu primeiro show transmitido ao vivo pela internet, em Los Angeles, Califórnia. Acompanhei o evento desde o pré-show, que teve entrevistas com os caras responsáveis pela turnê da banda, o empresário (Doc McGhee), o co-produtor do novo disco ("Sonic Boom") e familiares do baixista Gene Simmons, que fazem com ele o reality show "Family Jewels". De vez em quando os membros do grupo passavam pelos repórteres; o baterista Eric Singer conversou um tempo com eles. A parte dos bastidores foi esquentando o clima, enquanto mais e mais gente se conectava ao site de streaming (o show também podia ser visto no Facebook, e tinha links com o Twitter do Kiss).

Quando a banda começou com "Deuce", clássico do primeiro disco, já havia mais de 210 mil espectadores no site, de todo o mundo, mas esse número deve ser maior, pois não era preciso se conectar ao serviço para ver o show (só se você quisesse ficar comentando em tempo real, junto com os outros fãs).

A qualidade do streaming foi impecável e não falhou em nenhum momento; e quem estava acompanhando pela web provavelmente viu muito melhor do que quem estava lá (com a diferença do som e das explosões ao vivo, que não pode ser comparado com o de qualquer transmissão). O show começou às duas e meia da manhã e terminou às cinco (horário do Brasil). Como de costume, foi uma chuva de clássicos ("Hotter than hell", "Shock me", "Strutter", "Let me go rock and roll", "Shout it out loud", "Black diamond", "Parasite", "Cold gin", "Love gun", "Detroit rock city"... ) Eles só tocaram duas músicas do disco novo, "Modern day Delilah" e "Say yeah", ambas cantadas por Paul Stanley. Espero que incluam nos shows vindouros algumas das faixas cantadas por Simmons, como "Russian Roulette" e "(Yes I Know) Nobody´s Perfect".

Eric Singer e Tommy Thayer completam a banda muito bem e não deixam nada a dever aos membros originais que substituíram (Peter Criss e Ace Frehley, cujo disco solo novo, "Anomaly", depois de 20 anos, é um sopro de ar fresco no rock pesado americano).

Para mim, foi uma madrugada inesquecível. Que venham outros shows ao vivo pela rede. (A foto é de Mônica Imbuzeiro).

25.11.09

Isto é que é uma abertura de peça teatral.

"Now is the winter of our discontent
Made glorious summer by this sun of York;
And all the clouds that lowered upon our house
In the deep bosom of the ocean buried.
Now are our brows bound with victorious wreaths,
Our bruised arms hung up for monuments,
Our stern alarums changed to merry meetings,
Our dreadful marches to delightful measures.
Grim-visaged war hath smoothed his wrinkled front,
And now, instead of mounting barbed steeds
To fright the souls of fearful adversaries,
He capers nimbly in a lady's chamber
To the lascivious pleasing of a lute.
But I, that am not shaped for sportive tricks
Nor made to court an amorous looking-glass;
I, that am rudely stamped, and want love's majesty
To strut before a wanton ambling nymph;
I, that am curtailed of this fair proportion,
Cheated of feature by dissembling nature,
Deformed, unfinished, sent before my time
Into this breathing world scarce half made up,
And that so lamely and unfashionable
That dogs bark at me as I halt by them -
Why I, in this weak piping time of peace,
Have no delight to pass away the time,
Unless to spy my shadow in the sun
And descant on mine own deformity.
And therefore, since I cannot prove a lover
To entertain these fair well-spoken days,
I am determined to prove a villain
And hate the idle pleasures of these days."

(Shakespeare, Richard III)

5.11.09

De volta das férias, por isso a longa ausência. De casa nova aqui no jornal, com a mudança da redação da Digital de lugar. Estou achando o novo ambiente muito interessante; além disso, estou mais perto de algumas pessoas muito especiais para mim. Vejam a foto.

Passei parte das férias em Penedo, onde fiz com Wal um tour gastronômico e experimentei algumas cervejas alemãs muito antigas. Uma delas é da mais antiga cervejaria do mundo em atividade, que era uma abadia dedicada a Santo Estêvão no século VIII e virou cervejaria por volta de 1040. Uma viagem etílica no tempo...


19.9.09

Minicontos do desconforto - 100

O amor pode estar num SMS de bom dia, ou num email no cerne do fechamento desgovernado; o amor sobrevive ao trânsito e às distâncias chuvosas e à dificuldade de achar as torres; porque no fundo ele nunca está muito longe (somos nós que não sabemos procurar, com as gavetas de nossa memória sempre desorganizadas e nosssos cofres de emoções cheios de estranhas senhas com símbolos ininteligíveis, cuja chave criptográfica vamos perdendo pelo caminho.)

Minha amiga adorada, não se pode pertencer a alguém nessa vida, ainda que tentemos - amar é bem mais forte do que isso. Ainda assim, esta noite, meu colo é seu. Venha e ocupe-o, deite a cabeça no meu peito e deixe-me sussurrar os velhos feitiços das sacerdotisas de Afrodite; tire suas tristezas do catre, libere-as do cativeiro e graciosamente permita que morram de insolação diante da luz de nós dois.

25.8.09

Há quem ache que o Twitter substitui os blogs. Eu discordo. Aqui posso me alongar e me espreguiçar - o tweet é outra coisa.

16.7.09

De volta de viagem a trabalho na Califórnia, na semana passada. No último dia, que era livre, tive a oportunidade de visitar algumas vinícolas na região de Sonoma. Por isso hoje mesmo twittei que "in vino veritas" - a verdade está no vinho. Além do natural prazer da degustação, fiquei vivamente impressionado com a paixão sobre o tema demonstrada por nossa anfitriã num dos vinhedos, que contou a história do lugar com um jeito todo especial, com uma simpatia a toda prova. Ela já tinha uma certa idade, mas o amor pelo vinho e pelas delicadas facetas do bebê-lo conferiu-lhe uma jovialidade inimitável; conheço muitos jovens com almas bem mais idosas do que essa senhora. E eu mesmo, que me sinto envelhecer e não gosto nada do processo, me senti jovem e entusiasmado de novo perto dela. Fiz questão de cumprimentá-la efusivamente e dizer-lhe que era a anfitriã perfeita. Não esquecerei a experiência (que ela - seu nome é June - definiu assim para um colega enquanto lhe servia vinho, rindo: "oh, you want to have your June experience in July...") e, se puder, um dia lá voltarei.

Enquanto isso não acontece, este post fica como uma pequena homenagem e uma lembrança, para mim e para vocês, de que ter ou observar a verdadeira paixão pelas boas coisas (e pessoas, e ações, e situações) faz florescer a primavera dentro de nossos peitos seja qual for a estação do ano. Obrigado, June. E saúde!

5.7.09

Ontem assisti pela milésima vez a "Shakespeare apaixonado". "Romeu e Julieta", ao lado de "Ricardo III", é minha peça favorita do Bardo, e a beleza de Gwyneth Paltrow é arrebatadora na tela. Sabem aquelas cenas em que, não importa quantas vezes você veja, uma lágrima furtiva é derramada? Acontece comigo todas as vezes quando termina a apresentação de estreia de "Romeu e Julieta" no filme: fica um silêncio enorme do teatro e depois a plateia irrompe num aplauso estrondoso diante da verdadeira expressão da Beleza que todos acabaram de fruir. Não dá para não se emocionar.

Outra cena em que é impossível não ficar arrasado é quando, em "Coração Valente", o William Wallace ainda menino está no enterro de seu pai, morto de forma terrível, e a menina Murron se apieda dele e lhe dá uma flor.

17.6.09

Recentemente recebi um texto do Alexandre Oliva, da Fundação Software Livre da América Latina, falando de mais uma visita do Richard Stallman (conhecido como RMS), pai do Movimento Software Livre, ao Brasil nesta semana e na próxima, para o FISL em Porto Alegre. Eu posso, fácil, fácil, botar o release de Oliva entre os mais interessantes que já chegaram a minha caixa postal nesses 25 anos de profissão. Ele faz uma defesa apaixonada do software livre e da missão sagrada de Stallman ao criar o sistema GNU e o movimento, em 1983. Vale a lida:

"Embora o nome possa fazer parecer que se trate de um movimento tecnológico, o Movimento Software Livre tem suas fundações em questões sociais, políticas, éticas e morais. RMS pode muito bem ser descrito como o primeiro abolicionista da escravidão digital.

Há mais de 25 anos ele notou que artifícios técnicos e jurídicos aplicados a programas de computador começavam a ser utilizados para manter usuários impotentes e divididos.

Para evitar a impotência e alcançar a independência, é necessário que um usuário possa deter o controle sobre o funcionamento do software, podendo utilizá-lo para qualquer finalidade, mesmo que sejam necessárias adaptações e verificações. Não deve o usuário depender do fornecedor original do software para efetuá-las, caso contrário o fornecedor poderia limitar artificialmente o funcionamento do computador, ou mesmo induzir o computador a trabalhar contra os interesses do usuário, como fazem os sistemas operacionais não-Livres mais comumente utilizados hoje.

Desde sítios na Internet até controladores de dispositivos, fornecidos de maneira que funcionem exclusivamente em determinadas plataformas, negam aos usuários a possibilidade de adaptá-los para suas preferências de comportamento e plataforma. O armazenamento de arquivos dos usuários em formatos secretos faz com que, para acessar seus próprios dados, o usuário dependa do uso de um programa específico que carrega as chaves para decodificá-los. São algemas digitais, um desrespeito aos usuários, que os torna prisioneiros indefesos e impotentes.

Para o exercício da solidariedade, a vida em comunidade, e para acelerar o aprendizado e a evolução científica e tecnológica, é essencial que usuários possam compartilhar entre si as soluções para problemas ou dificuldades que encontrem. Ao melhorar um programa para resolver um determinado problema, ou ao descobrir que ele já serve a esse propósito, é fundamental que cada usuário possa compartilhar essa solução com outros membros da comunidade.

A proibição ao compartilhamento, ao contrário, exige que cada um decida ou ser um bom membro da comunidade ou atender a demandas mesquinhas e anti-sociais. Quem aceita o desrespeito cria um problema para si, mas também divide e enfraquece a comunidade.

Para combater a impotência, a dependência, e a divisão da comunidade de usuários, Richard começou a desenvolver em 1984 o sistema GNU, para permitir a qualquer usuário utilizar computadores sem sacrificar suas liberdades ou seus direitos humanos. O resultado dos esforços que ali se iniciaram é o sistema operacional Livre GNU/Linux, ícone do Software Livre, utilizado em computadores dos mais potentes do mundo a minúsculos telefones e roteadores, que inspirou o desenvolvimento de milhares de programas Livres, dentre eles suítes de oficina, navegadores e servidores web utilizados por milhões de usuários."

15.6.09

Um texto muito instigante de Luiz Felipe Pondé, hoje, na "Folha de S. Paulo":

No fundo, desconfio muito dessa coisa de ética. Antes de tudo porque a palavra "ética" é como "energia", cabe em qualquer lugar. Ética profissional, ética no amor, ética com a natureza, ética na cama. Falando especificamente de cama, quanto mais suja, melhor. Quando ouço alguém falar em nome da ética, fujo.

Prefiro mentirosos inseguros. Os hábitos civilizados dependem mais da mentira do que da verdade.

Claro que não se trata de desprezar a sólida tradição da ética na filosofia: Aristóteles e sua ética das virtudes e do caráter; Kant e sua busca insaciável por regras universais de comportamento; ou os utilitaristas ingleses e os céticos escoceses, e a sensibilidade de ambos para com os limites psicológicos da moral presente no reconhecimento do horror ao sofrimento e da preponderância do hábito e dos afetos sobre ideais abstratos de "bem" ou de "justiça" como verdadeiros critérios da vida moral.

Por exemplo, o que vem a ser "ética no amor"? Dizer pra ela que está gorda? Ou dizer pra ele que seu desempenho está abaixo de seus outros amantes? Ou seja: é dizer sempre a verdade?

Outro tipo que me põe correndo é gente bem resolvida com seus afetos. Só confio em quem enlouquece de ciúme, em quem perde a cabeça quando sua mulher ou seu marido está conversando com alguém do sexo oposto com cara de quem achou um espécime interessante na festa. Aceitar que sua mulher ou seu marido está a fim de outra pessoa e ficar de bem com isso é papo de gente imatura. Ou de quem, na verdade, não ama. Amar é ficar fora de si ou ficar bem consigo mesmo porque não ama mais. Não existe gente bem resolvida, só gente indiferente.


Todavia, com o tempo e as frustrações, a maioria de nós chega à triste conclusão de que é mais feliz quem é mais indiferente.


Aliás, a partir de determinada idade, achar alguém interessante é tarefa para deuses. Com o tempo, temos a impressão que só existem três tipos de pessoas com três tipos de problemas básicos. Suas vidas são comuns; seus anseios, banais; seus desejos, mesquinhos.

Cheias de amores malsucedidos, quanto mais experiência amorosa, mais previsível.

Bobagem essa coisa de dizer sempre a verdade. Coisa de gente que não conhece gente e pior, gente que não gosta de gente. Nesse assunto, não existem imperativos categóricos (leis morais universais à la Kant). Aliás, o grande filósofo alemão Kant era muito bom de filosofia, mas não entendia nada de como as pessoas cheiram ou suspiram.


Por exemplo, tirem o pudor do amor e do sexo, e eles desaparecem. A simples suspeita de que o inferno te espera por culpa de tua fraqueza torna o amor e o sexo dádivas das deusas. Como se com elas deitássemos às escondidas. Por isso minha desconfiança visceral com as bobagens juradas contra o sexo e o amor atormentados pelo pecado.

Já disse antes que confio mais no fígado do que no cérebro, hoje diria que confio mais na alma afogada nas secreções do desejo do que na higiene das santas e honestas. Não há nenhum dos dois (sexo e amor) se não existir a ameaça da condenação. O medo aqui é como uma saia curta que esconde, entre as pernas, uma alma ansiosa. A banalidade da nudez contemporânea é a prova cabal contra o discurso dos afetos bem resolvidos. Neste sentido, os medievais, aliás, como numa série de outras coisas (o leitor dirá "sempre desconfiei que este colunista fosse um medieval"), sabiam mais do que nós, bobos da razão.

Qualquer boa literatura romântica medieval sabe que amor e sexo estão intimamente ligados ao inferno nas paixões. Ninguém ama no paraíso, argumento final contra a salvação. Mesmo na Bíblia, no Cântico dos Cânticos, aquele livro considerado pela tradição judaica como o mais sagrado dos livros sagrados, encontramos a advertência da amada, a heroína da narrativa: "filhas de Jerusalém não despertem o amor de seu sono... a paixão é um inferno".

Mulheres sempre foram vistas como especialistas no amor, talvez pela imagem ancestral de que nunca foram seres iludidos pela razão, mas sempre torturadas pelo desejo. Para mim está é a maior das provas de que cegos são os homens que as veem como inferiores.

Divago, dirá meu caro leitor. Sim, divago, mas não deliro. Como se num voo, do alto, contemplasse homens e mulheres vagando por um continente abandonado, fugindo da própria sombra. Pessoalmente vejo a ética como o combate supremo do homem com o animal que o devora.

7.6.09

Minicontos do desconforto - 99

Encontrou-a caída ao lado da cama, balbuciando coisas sem sentido, os olhos revirados, a alma na lista de missing persons. Levou-a correndo ao hospital: o diagnóstico foi brando.

Ele suspirou, aliviado. E se deu conta de que, naquele prédio asséptico e depressivo, ser um paciente era ruim, mas velar por ele e esperar o veredicto dos homens de jaleco branco era a essência do Desespero.

Ela se recuperou, mas o medo de perdê-la deixou nele uma profunda cicatriz. Daquelas que o tempo não cura, só infecciona.

16.5.09

É sempre triste quando as velhas parcerias se quebram. Às vezes é dramático; em outras, é apenas o efeito da passagem do tempo.

Independentemente do que aconteça, é preciso fazer força para que os laços não se percam, porque a vida é separadora por natureza, e o tempo é ciumento dos momentos felizes.

20.4.09

Na redação, na semana passada, em clique de Cora Rónai.

18.3.09

Era para ter postado isso antes: achei muito interessante o filme "Dúvida", até porque ele realmente deixa a gente... na dúvida. Cada um tira as suas conclusões. E algumas falas do padre Flynn (interpretado por Philip Seymor Hoffman) são muito boas, como o sermão sobre a fofoca no meio do filme. Minha cena favorita, entretanto, é quando o padre diz à inocente irmã James (Amy Adams) que um truque das pessoas más para fazer o amor das boas vacilar é inculcar-lhes o discurso da estrita virtude.

19.2.09

Sofri um pequeno acidente (dois tombos seguidos no meio da Presidente Vargas) e rebentei parte da musculatura da mão direita. Fiquei uma semana de molho e estou voltando devagar à ativa, mas vou dizer: que falta nos faz a mão principal na hora das tarefas corriqueiras do cotidiano: vestir-se, comer, barbear-se... Estou fazendo fisioterapia e, se tudo der certo, a mão estará totalmente operacional em fins de março.

Na hora do tombo, estatelado em meios aos carros parados num sinal, eu só pensava: é agora, vai vir um daqueles motoqueiros pelo canto da faixa e irei pelos ares... Felizmente não aconteceu.

2.1.09

Um feliz ano novo para todos vocês que ainda têm paciência para me aturar aqui. Este ano ainda vai sair o Miniconto número 100 e vamos festejar juntos.

18.12.08

No more false companions
no more love spilt in vain
I wander alone in the woods
and weep in the darkness
but I learned my lesson

you are not the answer.

10.12.08

Minicontos do desconforto -- 98

Abriu a porta e ela não estava mais lá.
Primeiro veio o alívio.
Depois o silêncio obeso preenchendo tudo.
E o desespero.
Tudo tremulou de repente.

Abriu os olhos e ela ainda estava lá.
Sim, os deuses ainda existiam e caminhavam sobre a Terra.

17.11.08

O clima de hoje - chuva e vento - está mais de acordo com meu mau humor de ontem. Acordei achando tudo ruim, mais azedo que sidra velha. Não gosto de começar o dia assim, mas tem vezes que simplesmente não dá para evitar. Nessas horas - e naquelas em que acordo no meio da noite, com o sono perdido sem motivo - sinto o peso de estar envelhecendo, e não gosto nem um pouco disso.

Sim, a fúria passa, mas ela sempre deixa estragos, como um furacão.

31.10.08

Passei parte de minhas férias este mês num lugar no meio do mato, onde nem sinal de celular havia. Só o barulho dos riachos, o farfalhar das árvores e um frio ameno. É engraçado perceber que ainda pode haver vida despida de todos os cacoetes de nossa lida urbana...

3.10.08

Meu novo CD está pronto. Faltam os ajustes finais na masterização. Até o fim do mês devo mexer no meu MySpace. Avisarei quando acontecer.

Estou bem animado com o resultado, confesso. Vamos ver se vocês gostam.

21.9.08

Clico em
"Desligar o amor".
Aparece a famigerada
caixa de diálogo:
o que você deseja fazer?
"Em espera"
"Desativar"
"Reiniciar"

Faltou o botão
"Destruir para todo o sempre".

18.9.08

Can´t stop tossing and turning at night
It gets harder each day
Fighting with this feeling inside

(Ace Frehley, "Words are not enough")

16.9.08

Minicontos do desconforto -- 97

"Excelentíssimo sr. Coração:

Nós, o povo, somos reconhecidos por sua importante função no país, mas decidimos que não queremos mais o seu governo. O sr. não é um bom administrador e tende a reagir exageradamente a todas as instâncias, impondo um ritmo febril que volta e meia deixa a população em pânico e por diversas vezes mantendo-nos em estado de sítio por uma trivialidade qualquer. Solicitamos por meio desta carta aberta que tenha a fineza de entregar os assuntos do governo ao sr. Cérebro, que já demonstrou, na organização do arquivo nacional e na estrutura das telecomunicações, ser muito mais comedido e eficiente, embora sua atuação seja relativamente desconhecida em outras áreas.

Ilustríssimo sr. Coração, não é nosso direito pedir-lhe que deixe a equipe governamental, já que é um importante fundador da nação. Mas sugerimos que aceite o cargo de ministro da cultura, pois seu talento nas artes não encontra paralelo entre os pais da pátria. Esta é uma área em que o sr. Cérebro também atua, mas ela só tem a ganhar com a sua liderança.

Saudações,
O povo"

11.9.08

Minicontos do desconforto -- 96

Do lado de fora, a velha face bonachona e o riso em meio ao vinho e às notas; mas, a cada vez que olhava a cadeira vazia, seu íntimo gritava de dor. E ele se lembrou do que um velho amigo dissera: chorar por dentro é muito pior, porque não há lenços para a alma.

5.9.08


Um clique do show que eu, Antonio e Jessica fizemos ontem no Galeto 183, na rua de Santana. Foi tirado pelo Carlos Alberto Teixeira. No Cadafalso I tem mais.

24.8.08

Minicontos do desconforto -- 95

(Fragmentos copiados do caderno de um poeta enquanto ele dormia após uma noite insone repleta de pensamentos contraditórios)

Mário de Andrade acertou quando escreveu que amar é um verbo intransitivo. Antes de dizer que ama alguém ou alguma coisa, diga: eu amo.

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Acredito em Deus. Sempre achei que não acreditar em Deus é falta de imaginação. Não acredito nas instituições que os homens criaram em nome dele. Mas que há um Mistério divino no universo, isso há. Tenho tanta certeza disso quanto certeza de que tenho uma alma.

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Meu amor por você é tão grande e tão diferente que eu não sei o que fazer com ele. É claro que quero beijar sua boca e o resto de seu corpo e fazer amor contigo. Mas ao mesmo tempo não seria maravilhoso não deixar as partículas insidiosas do cotidiano de cada um de nós ingressarem na vida do outro? Você é linda, brilhante, um ser de luz diante de mim, principalmente quando sorri e me olha com seus olhos sempre interrogativos, como os de uma criança. E eu fico pensando: se a rotina nos contaminar, será que verei esses olhos e esse sorriso assim para o resto de meus dias? Perdurará a magia que agora nos rodeia, enquanto tentamos descobrir direito quem é o outro? Não existe roedor mais nocivo que a rotina. E eu quero você sempre assim, nos nossos encontros fugazes, sem muitos planos, quero sempre fazer você rir e emocioná-la, instigar sua inteligência e imaginação... Oxalá você seja sempre a minha princesa pessoal, na melhor acepção do termo: a principal, a primeira neste envelhecido coração, que fez acordar minha inspiração depois de um longo e insípido sono. Eu só posso me ajoelhar e dizer: obrigado.

13.8.08


Meus partners Antônio, Jessica e eu num intervalo das gravações do novo CD, ontem. Já são seis as músicas prontas e elas estão bem animadas.

6.8.08

Minicontos do desconforto -- 94

O reencontro foi uma bobagem; nada sairia dali. Mas que engano! As palavras cresceram e se contorceram como hera faminta -- e o sentimento veio junto, sinuoso, disfarçado, ambíguo, até que explodiu ao ultrapassar o muro pontiagudo e dar com o Sol. E foi justamente o Sol que revelou todas as falhas e descascados da pintura, sem misericórdia.

Mas assim mesmo eles se beijaram. Porque um beijo é o melhor restaurador que existe.
É bem verdade que na fase roqueira em que me encontro (sem falar no trabalho jornalístico) deixei meus Cadafalsos solitários em frias madrugadas; vou me esforçar para vir aqui mais vezes. É que meus poemas e contos são resultado de um estado de reflexão que é quase o inverso do processo musical.

Mas não posso perder a oportunidade musical, compreendam: neste momento, para mim, a música é como a amante que eu julgava perdida e retornou depois de mais de duas décadas de paradeiro ignorado. Eu estou fazendo tudo para agradar a essa Musa esquiva. Morro de medo de que ela vá embora de novo.

19.7.08

O melhor vilão de todos os tempos

Heath Ledger merece mesmo um Oscar pelo Coringa no novo filme do Batman, que acabo de ver. Nunca o mal foi tão bem personificado. O ator está possuído, o personagem é quase uma entidade (não tem digitais, nem nome) e ele nos deixa arrrepiados, enojados e meio que em estado de choque. Sem perder o humor sombrio - verdadeiramente sombrio - que é parte da personalidade histriônica do Coringa. Quem realmente curte o universo do cavaleiro das trevas não deve perder o filme (cujo único senão é ser barulhento demais). Nem parece filme de herói, de tão triste que é.

Ledger entrou para a história do cinema com este papel. Tudo bem que a gente presta mais atenção no ator porque ele morreu tragicamente, mas mesmo assim Ledger bota o resto do elenco no bolso. E estou falando de gente como Michael Caine e Morgan Freeman (cujos papéis, claro, são mais suaves).

Eu ainda estou sob o efeito da interpretação de Ledger enquanto escrevo este post. É realmente impressionante.

7.7.08

Quem é, já foi ou pretende ser casado algum dia deve dar uma olhada na série "Diz que me ama" (Tell me you love me"), do HBO.

14.6.08

Pura adrenalina roqueira II

Rory Gallagher falando da eterna ressaca em Bullfrog Blues...

6.5.08

It´s not having what you want
It´s wanting what you got.

(Sheryl Crow, Soak up the sun)

30.4.08

Uma aula de rock and roll

Não percam o filme do Scorsese sobre os Rolling Stones, "Shine a light". É uma aula de rock and roll. Aqui, a abertura de um show com uma de minhas músicas favoritas dos Stones, "You got me rocking."

22.4.08

O episódio de "House" da semana passada, que trata de verdades e mentiras, foi um dos mais interessantes da série. É impressionante a quantidade de idéias que jorram, como fogos de artifício, num simples episódio de 40 minutos do mal-humorado médico. O roteiro é simplesmente sensacional.

30.3.08

Darkness will fall on the city
It seems to follow you too
And though you don´t ask for pity
Ain´t nothing that you can do

(Kiss, "Black Diamond")

27.3.08

Status Quo - 4500x

Though it has taken a long time
For you to see
Where we're at is the right place
For us to be...

18.3.08

No fim de semana, duas festas no Bukowski no mesmo dia: Fátima Iocken e Marcele Fernandes. O Aerosilva -- eu, Maloca Mendes e Gustones de Almeida -- se reencontrou em meio à chuva e ao caos e celebrou o rock and roll no fim da noite, na pista, ao som de Rolling Stones, Doors, Beatles, AC/DC, Kiss e Led Zeppelin.

2.3.08

For I am just a troubled soul
Who's weighted...
Weighted to the ground
Give me the strength to carry on
Till I can lay this burden down

(Annie Lennox, "Little bird")

29.2.08

Minicontos do desconforto -- 93

Percebeu que aquele iria ser um ano de erupções quando foi fazer um raio X de rotina e nada foi encontrado: ele não tinha mais corpo, só a alma inconformista e furiosa.

20.2.08

There's nobody on the end of my line
I'm in time but somebody's missing
Maybe I can find a hand for my hand
If I find a well for my wishing
Be my friend
Be my friend

It gets lonely on a table for two
Laughing on your own can be no fun
Even people that are talking to you
Remind you that you're really with no-one
Be my friend
Be my friend

(Status Quo, "Forty-Five Hundred Times")

18.2.08

Minicontos do desconforto -- 92

Acordou cedo e achou o mundo muito silencioso. "Deve ser assim quando se decide parar de buscar o amor", pensou.

Então pegou o jornal, abriu na página dos obituários e descobriu o seu próprio, num canto.

15.1.08


Moçada, eis o MySpace do meu CD "Andremachadorock". Ele tem seis das 10 faixas do disco disponíveis para quem ainda não ouviu. O endereço:
http://www.myspace.com/andremachadorock

21.12.07






Mais imagens do show. Eu e Antonio ensaiamos dois dias antes, mas na hora improvisei um bocado e toquei várias músicas que não estavam no roteiro, para esquentar mais o clima.

11.12.07


Depois do show, com Nelson Vasconcelos, a figuraça que fez a maioria das fotos com o celular da Elis Monteiro.


23.10.07

Provérbio capitalista:

Bastam 15 minutos de trabalho para despir de você todo o bem-estar de 20 dias de férias.

17.9.07



Duas imagens imperdíveis, com Chewbacca e Lord Darth Vader, na frente da LucasFilms, de George Lucas, em San Francisco, Califórnia, no último dia 10 de setembro. Recuei no tempo até 1977, em plena galáxia de "Guerra nas Estrelas"...

23.8.07


Nasceu meu CD de rock and roll. Olha eu aí com o disco master! Agora é fazer as cópias e marcar a festa de lançamento, site e tudo o mais. Preparem-se. Long live rock!!!!!

O clique é do Nelson Vasconcelos.

13.8.07

Peço desculpas pela ausência aqui -- é o excesso de trabalho. Não tenho escrito ficção ultimamente, mal tenho conseguido tempo para filosofar.

Outro dia, revi o filme "Rede de intrigas", de Sidney Lumet. Mesmo 32 anos depois de filmado, permanece atual em sua feroz análise da TV e é profético quanto à globalização, de maneira impressionante, inclusive. Quando o dono da rede televisiva conversa com o apresentador semi-enlouquecido vivido por Peter Finch, explica-lhe que a política não comporta mais nações, não se baseia mais na geografia, mas nas grandes corporações e no dinheiro, que não conhece fronteiras. Isso em 1975. De lá para cá, a globalização cresceu a olhos vistos e, com a ajuda da internet, estamos trabalhando cada vez mais freneticamente. Algum dia botaremos a cabeça para fora da janela, cansados e estressados com nossas vidas multiplicadas por mil, e repetiremos o brado de Howard Beale, o apresentador do filme: "I am as mad as hell and I won´t take this anymore!"

19.7.07

Como eu disse no Cadafalso I, me solidarizo com as famílias das vítimas da terrível tragédia de Congonhas. Mas também é preciso não esquecer toda a lama dos escândalos no Senado. Os corruptos aproveitam a mudança de foco (com o Pan, o acidente e o próprio recesso parlamentar) para ficarem bem quietinhos, em segundo plano, como gostam de atuar. Nada de dar trégua a eles.

2.7.07

Vivemos a putrefação parlamentar. Nem todos os moribundos de Allan Poe, nem todos os monstros do pântano das HQs, nem todos os psico-losers de Stephen King exalam um miasma tão terrível quanto o que sai do Congresso.

13.6.07

Minicontos do desconforto -- 91

Debruçou-se sobre a sacada da barca e ficou olhando o mar escuro, imperscrutável. Lembrou-se de "Sobre heróis e tumbas", de Sábato. De como Martín cogita matar-se olhando para a água certa noite, mas desiste pensando naqueles poucos segundos que se passariam entre o salto e seu fim. Aqueles segundos terríveis, imponderáveis.

Então deixou que apenas suas lágrimas caíssem nas ondas e as salgassem mais um pouco. E pronunciou o nome dela, numa súplica sussurrada.

1.6.07

E a gravação do CD continua. Esta semana completei as trilhas de um rock rasgado com muitas guitarras, chamado "Nossa senhora que Fátima". Agora são nove as faixas. Falta uma para fechar. Será um blues bem aguerrido.

24.5.07

Cowards die many times before their deaths;
The valiant never taste of death but once.
Of all the wonders that I yet have heard,
It seems to me most strange that men should fear;
Seeing that death, a necessary end,
Will come when it will come.

(Júlio César, o personagem, na peça homônima de Shakespeare)

5.5.07

Faltam apenas duas músicas para terminar meu CD. A última que gravei contou com os backing vocals de minha filha Jessica. Foi um momento emocionante. Depois que tudo ficar pronto, vou criar um site para as faixas e avisar todo mundo, é claro.

10.4.07

Minicontos do desconforto -- 90

Acordou uma noite e compreendeu que sua musa o tinha deixado quando começou a pensar em escrever um livro de receitas. Saiu correndo e a alcançou ainda na escada da portaria. Prostrou-se a seus pés, mas ela o esbofeteou e jogou em sua cara as páginas mofadas do romance de realismo fantástico que jamais conseguira terminar. Desesperado, implorou por mais uma chance. Ela sorriu como só as musas são capazes de sorrir. Ele sentiu voltar a inspiração repentinamente diante daquele rosto angelical. Mas ela voltou-se e, sem uma palavra, deu dois passos e desapareceu na névoa. Musas são seres cruéis, pensou ele, lembrando-se de Allan Poe.

Depois daquela noite, nunca mais escreveu, exceto palavras cruzadas.

2.4.07

Minicontos do desconforto --89

Ela prestava tão pouca atenção a ele que, um dia, o pobre homem percebeu que podia ver através de sua própria mão. Aos poucos, a fria realidade chefiada pela rejeição atravessou seus braços, suas pernas, seu abdome e finalmente ninguém mais (nem ele mesmo, diante de um espelho) podia vê-lo. Então, um dia ele desistiu e se deixou navegar com as folhas, as cinzas e as borboletas: pelo menos a brisa o beijava.

31.3.07

Eu e Orkut Buyukkokten, o inventor do Orkut, após entrevista no Sofitel, em Copa. O papo vai sair segunda-feira no Info Etc e no Globo Online.

23.3.07

Minicontos do desconforto -- 88 (versão sintética)

-- Obrigada... mas nós mal nos conhecemos... Por que você me deu esta rosa?

-- Não lhe dei esta rosa; dei você a esta rosa. Para que ela possa olhar seu rosto e compreender o significado da verdadeira Beleza.

20.3.07

Minicontos do desconforto -- 88

-- Oh, obrigada... Mas a gente mal se conhece... por que você me deu esta rosa?

-- Julianne, eu não lhe dei esta rosa. Na verdade, dei você a esta rosa.

-- Como assim?

-- Eu já bebi o suficiente e posso explicar: eu dei você a esta rosa para que você possa lhe ensinar o verdadeiro significado da Beleza; porque você é a mulher mais bonita que já vi na vida. A pobre rosa está condenada a morrer, agora que foi tirada de suas irmãs, mesmo que a coloquemos num vaso com água da fonte da juventude eterna. Mas, se ela puder olhar para você, perceber a inacreditável beleza de seus olhos, de suas melenas negras, talvez não morra. Talvez se dispa de seus espinhos; talvez ame você como só uma flor pode amar um ser humano, e de um modo que eu jamais poderei amar.

9.3.07

Escrever em jornal não é mais a mesma coisa depois do advento da internet. Mas alguns editores ainda acham que tudo deve ser superficial e os textos, curtos. Se se trata de um jornal popular, mais para ser visto do que lido, creio que faz sentido. Mas um jornal que pretende formar opinião tem que aprofundar mesmo, fazer grandes análises etc. Veja o que o mestre Carlos Alberto Di Franco escreveu outro dia:

"Os jornais, erradamente, pensam que são meio de comunicação de massa. E não são. Daí derivam providências fatais: a absurda imitação da televisão, a incapacidade para dialogar com a geração dos blogs e dos videogames, além do alinhamento acrítico com os modismos politicamente corretos. Esqueceram que os diários de sucesso são aqueles que sabem que o seu público, independentemente da faixa etária, é constituído por uma elite numerosa, mas cada vez mais órfã de produtos de qualidade. Num momento de ênfase no didatismo, na infografia e na prestação de serviços - estratégias convenientes e necessárias--, defendo a urgente necessidade de complicar as pautas. O leitor que devemos conquistar não quer, como é lógico, o que pode conseguir na TV ou na internet. Ele quer informação de qualidade: a matéria aprofundada, a reportagem interessante, a análise que o ajude, de fato, a tomar decisões."

26.2.07

"Cartas de Iwo Jima" é um filme interessante para quem curte filmes de guerra. O Ken Watanabe está contido, excelente, e o soldado raso Saigo é o melhor da fita. Mas os críticos que apontaram "Cartas..." como a segunda obra-prima de Clint Eastwood depois de "Os imperdoáveis" estão redondamente enganados. "Os imperdoáveis" ainda é a obra-prima de Clint. Aliás, para mim, é o melhor de todos os faroestes.

22.2.07

Passei o carnaval bem sossegado, perto do mar e da cerveja, na casa de meu velho amigo Octavius Britus. Jogamos, filosofamos muito e falamos de literatura debaixo daquele céu azul maravilhoso que São Pedro, gentil, enviou nos dias de Momo. Minha filha Jessica também estava presente e curtiu conosco o feriado, regado a muito rock e folk de bandas de todas as partes do planeta, do Japão à Noruega (Britus é fã das antigas de progressivo e gothic metal).

Essas sãos as coisas boas que levamos da vida: boa companhia, boa conversa e paz de espírito, sem pressa e sem destinos, metas ou grandes objetivos. Sim, eles também são necessários, mas o melhor da vida está em não esquecer esse lado espectador da alma.

8.2.07

Ao mesmo tempo que estou no novo blog, mando brasa na gravação de meu CD de rock. É um projeto pessoal que acalento há muitos anos. Estou me divertindo horrores com as gravações. Ontem mesmo finalizei a música que será a abertura do disco. Chama-se "Blues e rock´n´roll" e é totalmente a minha cara.
Ufa! Até que enfim um tempinho para voltar aqui. É que foi inaugurado meu blog de segurança da informação no Globo Online, um projeto que estava em gestação desde novembro.

Apareçam por lá. Fica em http://www.oglobo.com.br/blogs/andremachado

31.1.07

E não é que a Meg não morreu mesmo? Caramba... E eu que dei pêsames no outro blog.

Não só não morreu como mandou um email (não para mim).

Surrealismo é isso aí.

29.1.07

De minha filhota Rebeca, no restaurante:

-- Pai, posso pedir isso? Diz que é para 12 anos.

Olhei o cardápio. Estava lá: " Johnnie Walker 12 anos". Claro, tinha também a versão 8 anos...

Essas crianças...

26.1.07

Quatro frases lapidadres do matemático e filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970):

"O segredo da felicidade é o seguinte: deixar que os nossos interesses sejam tão amplos quanto possível, e deixar que as nossas reações em relação às coisas e às pessoas sejam tão amistosas quanto possam ser."

"Inestimável é o valor do sentimento que faz um homem e uma mulher se amarem com paixão, imaginação e ternura; desconhecê-lo é uma grande desventura."

"Se nos fosse dado o poder mágico de ler as mentes uns dos outros, o primeiro efeito seria sem dúvida o fim de todas as amizades."

"Se você acha que sua crença é baseada na razão, você a defenderá com argumentos e não pela força, e renunciará a ela se seus argumentos se mostrarem inválidos. Mas se sua crença se baseia na fé, você perceberá que a discussão é inútil e, portanto, recorrerá à força, ou na forma de perseguição ou anestesiando e distorcendo as mentes das crianças no que é chamado 'educação'."

24.1.07

Reproduzo aqui o maravilhoso texto de José Castello publicado no último Prosa e Verso. Não deixem de ler. É uma porrada.

"O pai humilhado

José Castello

Sofremos, hoje, de um persistente sentimento de mal-estar. Para além dos eventos do real, alguma coisa, a que não conseguimos dar um nome, dói, sem parar, dentro de nós. Essa agonia não tem causa precisa, não é o efeito direto de um ataque, ou de uma decepção. Eis o problema maior: sofremos, sem saber dizer de que sofremos.

Na literatura, este mal-estar errante, e aflitivo, se expressa no sentimento, cada vez mais comum, de que "tudo já foi escrito". Uma perplexidade diante do papel em branco que se parece com uma vertigem, na qual a palavra - e não a consciência - nos fosse roubada.

O mal-estar está em toda parte. Sua face mais visível, contraditoriamente, é o sentimento de vazio, como se todos carregássemos uma folha em branco dentro de nós. Sofremos não de uma presença, mas de uma ausência. De uma fome que alimento algum sacia.

Os escritores, que partem de cadernos vazios e de páginas em branco, lidam diariamente com isso. Muitas vezes, seu desalento diante do mundo parece ser só uma pose, ou uma afetação. "Arquivos do mal-estar e da resistência", valente ensaio do psicanalista carioca Joel Birman lançado pela Civilização Brasileira, nos faz ver que não é. O mal-estar, hoje, pertence a todos.

Até pouco tempo, diz Birman, os psicanalistas eram procurados por pacientes nervosos, com o coração em guerra, feridos por uma luta interior que não podiam resolver. Eles se deitavam no divã em busca de um pouco de paz. Hoje, em vez disso, os psicanalistas recebem em seus consultórios pessoas que se declaram vazias. Seu grande problema é não ter um problema. Sua dor maior é a incapacidade de sentir dor. O mal-estar, agora, é isso: um rombo.

Desamparados, buscam artifícios que preencham o buraco que trazem no coração. Drogas pesadas, álcool ou comida em excesso, sexo compulsivo, a obsessão pelo trabalho, a mania de comprar e comprar, tranqüilizantes, antidepressivos - a esses substitutos se apegam, na esperança vã de tampar o rombo pelo qual sua vida escorre.

Ainda assim, o vazio se dissemina. Nos dias de hoje, dominados pela agitação, pela brutalidade, pela dispersão, já não controlamos nossas vidas. Somos todos, um pouco, como os personagens do gaúcho João Gilberto Noll: vagamos, tateamos, afundamos em nosso próprio fosso.

Borges dizia que a literatura se faz no caos, mas que o escritor só pode lidar com o caos porque se apóia na suposição de um cosmos. Na idéia de que no interior do caos existe uma ordem secreta, inacessível, quase inútil, mas que ainda assim está ali. Só porque se consolam com isso, escritores conseguem escrever.

Sem essa suposição, perdemos a força. Pais inquietos e fracos, incapazes de lidar com os filhos. Professores nervosos, já sem nenhuma autoridade. Instituições que desmoronam, governos instáveis, populações à deriva. O mundo - eis o que sentimos de pior - se torna um trem desgovernado. No fundo desse vazio, Birman diz, está a figura lastimável de um pai humilhado.

O pior: diante da fraqueza do pai, nos apegamos, muitas vezes, à utopia de um pai onipotente. Ele pode ser insensível, pode ser cruel, pode ser tirano - mas funciona. Na penúria e no desamparo, sentimos uma nostalgia louca das algemas, como se a única forma possível de viver fosse a submissão.

Os escritores, que partem de uma folha em branco e têm o vazio como matéria, sabem que a coação e a onipotência de nada servem. Escrever é dialogar com a imperfeição. Atitude que, transposta para a vida, sugere Birman, conduz direto à fraternidade.

A literatura trafega na contramão do mundo prático, de medições e de resultados, que hoje habitamos. Escrever é avançar em direção a um destino a que nunca chegaremos. Esta viagem sem rumo, no entanto, não provoca agonia. Traz, isso sim, uma pequena, efêmera, mas preciosa, felicidade.

Não é estranho que psicanalistas e escritores se entendam. Ambos lidam, no fim, com a mesma matéria: o desassossego que, na aflição, chamamos de agonia, mas que, se desistimos de esperar uma salvação, chamamos de vida."

22.1.07

Está no site do Globo Online uma música minha, que gravei para uma matéria no Info Etc mostrando como o computador facilita a vida das gravações em estúdio. A música se chama "É você", e nela toquei os violões e as guitarras, inclusive a solo (trata-se de um hard rock estilo anos 70), além de cantar. O baixo ficou a cargo do veterano Carlos Castanheira, e a batera foi toda arranjada dentro do próprio computador. Se ficarem curiosos e quiserem conferir, estará em http://oglobo.globo.com/tecnologia/audio/2007/991/default.asp

A matéria é a capa do caderno desta segunda.

17.1.07

Estava lendo este fim de semana uma reportagem sobre os anos finais da vida de Rimbaud como mercador na África. Que triste fim para um poeta. Consta que os textos da fase final da vida de Rimbaud tratavam apenas de contas e negócios...

Parafraseando Guevara, é preciso endurecer contra o mundo real, para não perder a poesia. Quando a realidade entra pela janela, cabe ao poeta defenestrá-la novamente.

12.1.07

Estou lendo uma biografia do Ricardo III, o célebre vilão da peça de Shakespeare. Só que, na vida real, a história é outra, e os historiadores se digladiam sobre a verdadeira personalidade do controverso rei inglês. Esta biografia procura reparar sua reputação, manchada por seus inimigos Tudor, para quem Shakespeare escreveu. Até hoje Ricardo é acusado por seus detratores de matar seus jovens sobrinhos para ocupar o trono em 1483. Um crime nunca resolvido e que continua envolto em brumas há cinco séculos. Uns historiadores garantem que foi ele; outros dizem que não, que isso não combina com sua lealdade de ferro ao irmão Eduardo IV, pai dos sobrinhos em questão.

O livro, escrito pelo historiador americano Paul Murray Kendall, narra as batalhas e reviravoltas da Inglaterra do século XV com um estilo de romance de aventura (embora muito bem documentado). Simplesmente não dá para largar. Como é bom ler um livro assim. A gente até lê mais devagar porque fica com pena quando vai acabando...

6.1.07

Just need a little bit of rock and roll.

28.12.06

Caros, um feliz 2007 com muita sorte e boas novas!

26.12.06

O artigo abaixo, publicado no Globo do dia de Natal, é uma das mais belas coisas que já li em jornal.

"Uma ceia mágica

Frei Betto

A Missa do Galo se encerrou aos primeiros minutos de 25 de dezembro. Padre Afonso se deixara contaminar pela aflição dos fiéis, ansiosos por retornarem às suas casas e desfrutarem a ceia antes de as crianças murcharem de sono. Abreviou a homilia, pulou orações, desejou a todos Feliz Natal e lhes deu a bênção final. Uma dezena de paroquianos se ombreou na sacristia para lhe manifestar votos de boas festas. Presentes se sobrepunham a um canto: camisas, meias, livros, essas coisas adequadas a um homem de Deus.

Dependurados os paramentos, padre Afonso se viu sozinho. Miseravelmente só, em plena noite de Natal. O celibato é um dom e ele sabia tê-lo merecido. Ao longo de vinte anos de sacerdócio, acometeram-lhe muitas tentações. Não era o fascínio das mulheres que o levava a duvidar de sua consagração. Admirava-as, sentia-se gratificado por achá-las belas e atraentes. Sinal de que havia nele um macho, o que no íntimo o envaidecia. Perturbava-o a consciência do pai que nunca fora. Muitas vezes, sentia saudades dos filhos que não tinha.

Atormentava-o se ver sozinho à mesa de refeições. Comer é comunhão, partilha, entremear ao cardápio o diálogo ameno e alegre. O alimento lhe caía insosso e, com freqüência, surpreendia-se sonhando de olhos abertos, a mesa cercada por sua família imaginária.

Naquela noite, a solidão lhe bateu forte. Uma solidão com a ponta de amargura advinda de uma expectativa frustrada. Sentia-a na boca da alma. Nenhum dos paroquianos tivera a generosidade de o convidar à ceia.

Padre Afonso revirou os embrulhos de cores brilhantes e encontrou o que bastava: um panetone e uma garrafa de vinho. Enfiou-os na pasta usada para levar sacramentos aos enfermos e se dirigiu à zona boêmia.

Shirley trazia os olhos inchados, o peito sufocado, o coração miúdo. Desde o fim da tarde chorara copiosamente ao recordar os natais de sua infância no norte de Minas. Lembrou da família que a repudiara, do marido que a abandonara, do filho que dela se envergonhava. Sentiu ódio da vida, da desfortuna a que fora condenada. Confusa, teve vontade e medo de sentir ódio também de Deus.

Pudesse, não trabalharia naquela noite. Todavia, não lhe restava alternativa. O acúmulo de dívidas a obrigava a ir à rua e aguardar o dinheiro ambulante que chegava escondido atrás da fantasiosa excitação de sua fortuita freguesia.

Mirou o homem de pasta na mão, camisa sem gola, sapatos escuros. Talvez viesse do trabalho. Enquadrou-o na tipologia adquirida em tantos anos de calçada: tinha o jeito ingênuo dos que buscam apenas se aliviar e, na hora da cobrança, preferem ser generosos no pagamento a enfrentar uma prostituta irada disposta ao escândalo.

Trocaram olhares e ela se esforçou para estampar um sorriso sedutor. Ele parou e indagou; ela apontou o hotel na esquina. Caminharam lado a lado em silêncio, ela sobrepondo seu profissionalismo aos sentimentos esgarçados, ele apreensivo frente ao receio de ser flagrado ali por algum conhecido. Subiram as escadas opacamente iluminadas, em cujos degraus as baratas se desviavam ariscas.

Ao abrir o primeiro botão da roupa, ela ameaçou dizer qualquer coisa, mas ele se adiantou. Explicou que não estava ali em busca de sexo, e sim de companhia. Haveria, contudo, de pagar-lhe o devido. Contou-lhe de seu sacerdócio e de sua solidão, e indagou se ela se dispunha a orar com ele e compartir a ceia.

Shirley sentou na cama, enfiou o rosto entre as mãos e desabou em prantos. Agora era um choro de alívio, de gratidão por algo que ela não sabia definir, quase de alegria. Logo, falou de seus natais na roça, o presépio em tamanho natural que o pai armava no quintal do casebre, o peru engordado durante meses para a ocasião, o bendito puxado por uma vizinha na falta de igreja e padre naquelas lonjuras.

Padre Afonso propôs fazerem uma oração. Ela se ajoelhou e ele a tomou pela mão e fez com que se sentasse de novo. Ele ocupou a única cadeira do quarto. Abriu o Evangelho de Lucas e leu, pausadamente, o relato do nascimento de Jesus. Em seguida, perguntou se ela gostaria de receber a eucaristia. Shirley pareceu levar um choque. Como ela, uma prostituta, poderia receber a hóstia sem sequer ter se confessado? O sacerdote leu o texto de Mateus (21,28): "As prostitutas vos precederão no Reino de Deus." E acrescentou que era ele, e essa sociedade cínica, injusta, desigual, que deveriam se confessar a ela e pedir perdão por a terem obrigado a uma vida tão degradante.

Após a comunhão, padre Afonso tirou dois copos da pasta, encheu-os de vinho e partiu o panetone. Os dois ainda conversavam sobre suas vidas enquanto clareava o dia."
A primeira vez que ouvi "Sex machine", do James Brown, não gostei. Achei rascante demais, crua demais. Mas, anos mais tarde, "I got you (I feel good)" me tirou a implicância. É uma pena que o "hardest working man in soul" se tenha ido. Bom, pelo menos o céu vai ficar bem mais animado.
Minhas duas colunas mais recentes no Info Etc.

11-12-2006

A PRAGA DOS "MOJOS"

André Machado

Recebi um recorte digital do "Washington Post" muito preocupante. O recorte conta as novidades inventadas por uma cadeia americana de jornais para fazer face ao crescimento avassalador da internet. A mídia impressa, de fato, está tendo de se adaptar aos novos tempos em que o ciberespaço elevou à enésima potência as conseqüências da "aldeia global" prevista por Marshall McLuhan. Entretanto, as mudanças promovidas por um jornal da mencionada cadeia, no estado da Flórida, merecem reflexão.

O site do jornal passou a ser o principal receptáculo das notícias apuradas. E os repórteres que as escrevem não têm mais mesa, cadeira, terminal - em suma, não têm redação para onde voltar após as tarefas de apuração. Eles não vão a campo; eles vivem em campo. São, por isso mesmo, chamados de "mobile journalists", ou "mojos" (a palavra "mojo" em inglês também é gíria para "feitiço"). Os "mojos" praticamente ficam na rua o dia inteiro, em seus carros, como aqueles tiras que vemos nos seriados policiais, correndo atrás das notícias. Carregam consigo uma parafernália tecnológica: notebook com acesso wireless à internet, mais gravador, câmera fotográfica e filmadora (tudo digital). Apuram várias histórias por dia, tiram fotos (ou filmam) e, ato contínuo, publicam tudo no site do jornal. O recorte do "Post" acompanha um desses repórteres móveis numa de suas tarefas típicas: o lançamento de uma agenda comemorativa beneficente com fotos de atletas de uma cidadezinha.

O leitor há de perguntar: mas isso é notícia? Na era da globalização, o mote, por incrível que pareça, é ser online, mas cada vez mais local. Pelo menos é nisso que acreditam os editores da tal cadeia de jornais.

Apurada a "reportagem", o "mojo" mostrado pelo recorte entra no seu carro, abre o notebook e escreve a matéria ali mesmo, enquanto fala ao celular e toma uns goles da Coca-Cola instalada no vão entre a caixa de marcha e o painel de controle. A única luz é a do notebook. As costas devem doer...

Os diretores do jornal planejam ter pelo menos 14 repórteres móveis free-lance em breve, e a equipe permanente (de 30 repórteres) também vai começar a se deslocar para o novo esquema de trabalho. Além disso, aproveitando o esquema "faça-você-mesmo" que blogs, fotologs, videologs e a facilidade de acesso instantâneo da web permitem, a publicação investirá em matérias investigativas... investigadas pelos próprios internautas, acreditando que na prática seriam gerados "milhares de repórteres investigativos em vez de só três", como disse um executivo ouvido pelo "Post".

E também haverá um editor especializado em "construir audiências", para garantir que as histórias de maior apelo fiquem sempre no alto da página. Os comentários dos leitores serão estimulados em "message boards" (alguém aí se lembra do BBS?). E, claro, o ritmo da publicação online não pode parar. A pergunta é: deve-se publicar qualquer coisa, notícia genuína ou não? A turma da redação já está chiando: os textos dos "mojos" não passam pelos editores e acabam enfocando coisas desinteressantes (cadê a pauta?, dizem eles), e a pressão por alimentação ininterrupta do site já gerou pelo menos um constrangimento, quando um editor passou pela redação reclamando que o site não era atualizado há algum tempo e que era preciso publicar alguma coisa, fosse o que fosse.

Não é assim que se faz jornalismo, tenham certeza. Mas isso não é o pior - entre as mudanças previstas pelos "gênios" da cadeia de jornais, está a idéia de fazer repórteres acompanharem contatos de publicidade a clientes, para explicar melhor como seriam determinadas matérias de interesse... O que viola a condição básica e sagrada de qualquer imprensa livre: a redação aqui, o comercial lá longe.

Ler o recorte me causou calafrios. Alguém precisa dizer a esses caras que eles estão completamente malucos. De qualquer modo, acho que seria meio impossível ver um "mojo" aqui no Rio. Imagine. Carregar notebook, celular, filmadora e câmera digital para a rua. O título da primeira matéria do sujeito ia ser "Perdeu, tio!". E ela seria escrita à mão...

* * *

13-11-2006

EM DEFESA DA LIBERDADE

André Machado

Os criadores do projeto de lei que quase foi à votação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado semana passada, e que exigia a identificação prévia dos usuários de internet para fazer qualquer coisa no ciberespaço, desde trocar emails até ir às compras, estão naturalmente convencidos de sua justeza e legitimidade. O relator do projeto disse ao GLOBO inclusive que não era verdade que a navegação dos internautas seria rastreada. Ora bolas, se não iria haver rastreamento, por que então a identificação obrigatória?

Eu escrevo muitas matérias sobre segurança da informação, e a preocupação com ela é legítima na era em que literalmente tudo é informação. Entretanto, é possível notar quando a legítima preocupação toma um desvio e se transforma em desculpa esfarrapada para iniciativas autoritárias. Aliás, até faz sentido o assunto vir agora à baila (antes da eleição, nenhum político se atreveria a falar nisso), num momento em que certos setores oficiais voltam ao velho vício (tão velho quanto a História) de tentar desacreditar o trabalho dos jornalistas.

Os autores do projeto bem poderiam dizer que ele n’est autre chose que la justice prompte, sévère, inflexible, isto é, que não passa da justiça imediata, severa, inflexível contra os malfeitores da web que tanto nos incomodam com phishing, spam, vírus e ciberfraudes. Esquecem-se de que foi exatamente com estas palavras que Maximilien de Robespierre - um político que passou à História com a aura de incorruptível - definiu a necessidade do Terror na Revolução Francesa. E o terror, em qualquer época, sempre transforma primeiro os cidadãos em reféns.

Consta que o projeto será apreciado por mais duas semanas. Mas deveria sê-lo por no mínimo mais dois anos, ou corremos o risco de termos nosso direito de ir e vir no ciberespaço confiscado para sempre, algo inadmissível. Nunca é demais lembrar o que escreveu John Perry Barlow na Declaração de Independência do Ciberespaço: "Governos do Mundo Industrial, (...) vocês dizem que há problemas entre nós [do ciberespaço] que precisam resolver. Usam essa alegação como desculpa para invadir nosso recinto. (...) Seus conceitos legais de propriedade, expressão, identidade, movimento e contexto não se aplicam a nós. Eles são todos baseados em matéria, e não há matéria aqui."

Vá lá, o próprio Barlow hoje admite que deve haver alguma governança na internet. Mas ela requer doses cavalares de prudência e bom senso. Não bastam boas intenções. Veja-se onde Robespierre terminou: ele queria a pronta justiça, mas acabou justiçado na guilhotina.

Esse tipo de projeto só poderia surgir numa era em que a informação ganha "valor agregado", embora de fato imaterial. Mas ainda há quem recorde os tempos em que os bits eram simplesmente passados de mão em mão: a turma do software livre e do código fonte-aberto. Semana passada, um artigo na Zdnet dizia que o mundo ainda não está preparado para o GNU/Linux, porque faltam jogos, suporte e há "sabores" demais do sistema operacional do pingüim. Mas há que existir uma alternativa a um mundo com apenas um sistema. As pessoas precisam ter a chance de escolher, experimentar e enveredar por bits diferentes. Viva a diferença.

Se o mundo open-source não fosse importante, a Microsoft não teria fechado o recente acordo com a Novell, para melhorar a interoperabilidade do Windows com o Suse Linux. Nem a Oracle teria entrado no jogo, oferecendo suporte ao Red Hat Linux. Os gigantes estão muito atentos à comunidade aberta. Que, no entanto, deve permanecer aberta a todo custo. Ela pode ser o último bastião contra o "valor agregado".

21.12.06

Este Guardião deseja um feliz Natal a todos. Que lembremos o significado real desta celebração, que é o amor em todas as suas formas, e não o consumo em todas as suas formas...

20.12.06

Sobre este aumento INDECENTE dos nossos parlamentares: o subsídio que eles hoje ganham (de R$ 12 mil) já é um abuso. Na verdade, deveriam ganhar metade disso. Talvez assim se candidatassem somente as pessoas com real interesse em contribuir para melhorar o país.

E os caras deveriam passar pelo menos um mês por ano vivendo com salário mínimo, tendo que pegar ônibus para ir ao trabalho e comendo mal.

Esse papo de que "temos que ganhar bem para ter independência" é de uma abjeção quase indescritível. Ética é um valor pessoal, não se pode medir por bens materiais. E ponto!

16.12.06

Ain't it funny how the time slips away
'Cause now I'm leavin' and I wish I could stay
People wonder why they don't get a chance
They wait for music but they don't get to dance
Mmm, well now I know when my work is through
I'm gonna be with you

(Paul Stanley, "Goodbye")
Oração da crise de meia-idade

(Escrita por Robert Wilde para sua jovem musa em 1886)

Ó Ponce de Léon, ensina-me o caminho até tua fonte: porque tudo que desejo é ter vinte e dois anos e um mundo a conquistar. Mas do mundo não precisarei -- troco-o de bom grado por um beijo, um só beijo, da linda Circe que enfeitiçou todas as artérias pulsantes de meu corpo para que pulsem só por ela.
Mais uma sessão de violão e cantoria ontem com o grande instrumentista Manoel e a turma no Baixo Globo. Desta vez aproveitei para tocar "Light my fire" e "Roadhouse blues", dos Doors.

13.12.06

"An idea is a greater monument than a cathedral."

(Henry Drummond, no filme "O vento será tua herança")

8.12.06

Eu já tinha recebido de presente de aniversário de minhas amigas meu musical favorito, "My fair lady", baseado na peça "Pigmalião", de Bernard Shaw. Mas hoje, ao chegar ao trabalho, minha musa Bárbara Veloso me presenteou com o DVD de "Em algum lugar do passado", meu filme favorito de todos os tempos (o livro é igualmente primoroso). Estou transtornado de emoção até agora.

5.12.06

Em tempo: este blog fez cinco anos de vida no dia 30. Um brinde à longevidade ;-)
E por falar em levar um som (veja o Cadafalso I), na última sexta fomos ao tradicional Galeto, aqui perto do jornal, e nosso coleguinha Manoel estava tocando um violão por lá. Acabei dando uma canja, entre vários outros violeiros que estavam na área, e foi muito divertido. Até sacudi a poeira do violão lá em casa no fim de semana e treinei um pouco. Yes!

27.11.06

Estou lendo o sétimo volume da série "Operação Cavalo de Tróia", do J. J. Benítez, que conta a viagem no tempo até a época de Jesus empreendida por dois cientistas americanos. A história é fascinante, até pela pesquisa científica, geográfica, médica e histórica feita pelo autor sobre o mundo do Oriente Médio nos anos 25 e 30 d.C.. Só me preocupa o fato de a trama nunca chegar ao fim. Benítez não é novinho, e espero que ele não demore a pôr um ponto final na história. A cada volume publicado, há um hiato de vários anos. É de arrancar os cabelos.
Como eu previa, minha tia-avó passou desta para a melhor, há alguns dias. Que descanse, pois você merece, querida.

21.11.06

Este ano está sendo um duro teste para mim. Perdi meu pai e mais dois tios num espaço de seis meses. Agora, minha tia-avó (a coisa mais parecida com uma avó que tive) está num CTI. Estou preocupado com minha mãe, cujos nervos estão em pandarecos.

Nessas horas, bem que poderia haver alguma coisa capaz de revestir nossos próprios nervos -- algo como um titânio psicológico. Se bem que é nos meus escritos que minha dor costuma se depositar.

14.11.06

Don't want your body
Don't want your expertise
Don't want your reasons
Don't want to believe

Just want your kiss
your honey-coloured
breathtaking
larger-than-life
kiss

in order to be alive.
She turns and looks a moment in the glass,
Hardly aware of her departed lover;
Her brain allows one half-formed thought to pass:
“Well now that’s done: and I’m glad it’s over.”

(T. S. Eliot)

13.11.06

Minicontos do desconforto -- 87

Émile -- Eu estou definitivamente velho: não sei mais expressar o meu amor.

François -- Talvez você seja mais feliz agora. O amor é uma doença que nenhum antibiótico cura.

Émile -- Não seja cínico.

François -- Não estou sendo. O amor é como uma síndrome imunológica: destrói todas as suas resistências. Aliás, é pior: no caso do amor, um simples olhar de desprezo pode matar.

Émile -- Então já estou morto. Ela disse que me odeia, e tudo o que eu fiz foi cair a seus pés e me declarar.

François -- Grande burrice. É assim mesmo que a gente fica comendo na mão do outro. O desprezo vem quase imediatamente. Tripudiar é irresistível. Você nunca aprendeu isso?

Émile -- Quem ama esquece tudo o que aprendeu. Repete os erros, porque quando se ama é sempre a primeira vez.

François -- Tolice. Jogar é preciso.

Émile -- Jogar leva apenas ao sexo. Jogar é um ato racional. O amor prescinde de jogos...

François -- Quá quá quá. Coitado... Além disso, você não continua namorando Cosette? Com que então declarou amor a outra?

Émile -- Eu gostaria de um pouco mais de romance em minha vida.

François -- Mas para isso é preciso se mexer, rapaz. Não dá para ter as duas ao mesmo tempo.

Émile -- Quem disse? Por que não posso amar as duas diferentemente? E elas a mim? Cosette e eu não estamos em crise, é algo consolidado, daí a previsibilidade. Já no caso de minha amiga, o amor é fresco, perigoso, cheio de acidentes geográficos. Acho até que um poderia alimentar o outro.

François -- E depois sou eu o cínico...

Émile -- De qualquer modo, tudo emperra na expressão. Como expressar isso nessa sociedade provinciana e careta? Vai tudo levar a um inferno permanente, é o que vai acontecer. E ela já me odeia, não adianta mais nada...

François -- Lamento, meu amigo. Lamento mesmo.

Émile -- É. Só tem um jeito. Pede aí.

François -- É. Garçom, mais dois uísques. Duplos.

6.11.06

"Com que então eu amava Capitu, e Capitu a mim? Realmente, andava cosido às saias dela, mas não me ocorria nada entre nós que fosse deveras secreto. Antes dela ir para o colégio, eram tudo travessuras de criança; depois que saiu do colégio, é certo que não estabelecemos logo a antiga intimidade, mas esta voltou pouco a pouco, e no último ano era completa. Entretanto, a matéria das nossas conversações era a de sempre. Capitu chamava-me às vezes bonito, mocetão, uma flor - outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ela me passava a mão pelos cabelos, dizendo que os achava lindíssimos. Eu, sem fazer o mesmo aos dela, dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus. Então Capitu abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos realmente admiráveis - mas eu retorquia chamando-lhe maluca. Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que não, ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordinárias, que subíamos ao Corcovado pelo ar, que dançávamos na lua, ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos andávamos unidinhos. Os que eu tinha com ela não eram assim, apenas reproduziam a nossa familiaridade, e muita vez não passavam da simples repetição do dia. alguma frase, algum gesto. Também eu os contava. Capitu um dia notou a diferença, dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus, eu, depois de certa hesitação, disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava... Fez-se cor de pitanga."

(Machado de Assis, "Dom Casmurro")

1.11.06

Minicontos do desconforto -- 86

Aproveitou a noite para curtir o especial de velhos filmes de terror do canal a cabo. Estavam lá todos os seus monstros queridos da infância: Drácula, a criatura de Frankenstein, a múmia, o lobisomem.

No dia seguinte, o despertador tocou às 5h45min, ele se vestiu às 6h e chegou ao trabalho às 7h. Fez contas até as 12h, almoçou até as 13h, fez mais contas até as 18h. Chegou em casa, jantou em silêncio olhando para a parede às 20h e viu o jornal da televisão. Dormiu às 22h.

Em outra dimensão, alguém assistia a tudo numa tela flutuante no ar.

-- Que filme chato -- comentou um anjo.

-- Não. Este é o verdadeiro filme de terror -- murmurou outro.