18.12.08
10.12.08
17.11.08
Sim, a fúria passa, mas ela sempre deixa estragos, como um furacão.
31.10.08
3.10.08
21.9.08
18.9.08
16.9.08
"Excelentíssimo sr. Coração:
Nós, o povo, somos reconhecidos por sua importante função no país, mas decidimos que não queremos mais o seu governo. O sr. não é um bom administrador e tende a reagir exageradamente a todas as instâncias, impondo um ritmo febril que volta e meia deixa a população em pânico e por diversas vezes mantendo-nos em estado de sítio por uma trivialidade qualquer. Solicitamos por meio desta carta aberta que tenha a fineza de entregar os assuntos do governo ao sr. Cérebro, que já demonstrou, na organização do arquivo nacional e na estrutura das telecomunicações, ser muito mais comedido e eficiente, embora sua atuação seja relativamente desconhecida em outras áreas.
Ilustríssimo sr. Coração, não é nosso direito pedir-lhe que deixe a equipe governamental, já que é um importante fundador da nação. Mas sugerimos que aceite o cargo de ministro da cultura, pois seu talento nas artes não encontra paralelo entre os pais da pátria. Esta é uma área em que o sr. Cérebro também atua, mas ela só tem a ganhar com a sua liderança.
Saudações,
O povo"
11.9.08
5.9.08

Um clique do show que eu, Antonio e Jessica fizemos ontem no Galeto 183, na rua de Santana. Foi tirado pelo Carlos Alberto Teixeira. No Cadafalso I tem mais.
24.8.08
(Fragmentos copiados do caderno de um poeta enquanto ele dormia após uma noite insone repleta de pensamentos contraditórios)
Mário de Andrade acertou quando escreveu que amar é um verbo intransitivo. Antes de dizer que ama alguém ou alguma coisa, diga: eu amo.
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Acredito em Deus. Sempre achei que não acreditar em Deus é falta de imaginação. Não acredito nas instituições que os homens criaram em nome dele. Mas que há um Mistério divino no universo, isso há. Tenho tanta certeza disso quanto certeza de que tenho uma alma.
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Meu amor por você é tão grande e tão diferente que eu não sei o que fazer com ele. É claro que quero beijar sua boca e o resto de seu corpo e fazer amor contigo. Mas ao mesmo tempo não seria maravilhoso não deixar as partículas insidiosas do cotidiano de cada um de nós ingressarem na vida do outro? Você é linda, brilhante, um ser de luz diante de mim, principalmente quando sorri e me olha com seus olhos sempre interrogativos, como os de uma criança. E eu fico pensando: se a rotina nos contaminar, será que verei esses olhos e esse sorriso assim para o resto de meus dias? Perdurará a magia que agora nos rodeia, enquanto tentamos descobrir direito quem é o outro? Não existe roedor mais nocivo que a rotina. E eu quero você sempre assim, nos nossos encontros fugazes, sem muitos planos, quero sempre fazer você rir e emocioná-la, instigar sua inteligência e imaginação... Oxalá você seja sempre a minha princesa pessoal, na melhor acepção do termo: a principal, a primeira neste envelhecido coração, que fez acordar minha inspiração depois de um longo e insípido sono. Eu só posso me ajoelhar e dizer: obrigado.
13.8.08
6.8.08
O reencontro foi uma bobagem; nada sairia dali. Mas que engano! As palavras cresceram e se contorceram como hera faminta -- e o sentimento veio junto, sinuoso, disfarçado, ambíguo, até que explodiu ao ultrapassar o muro pontiagudo e dar com o Sol. E foi justamente o Sol que revelou todas as falhas e descascados da pintura, sem misericórdia.
Mas assim mesmo eles se beijaram. Porque um beijo é o melhor restaurador que existe.
Mas não posso perder a oportunidade musical, compreendam: neste momento, para mim, a música é como a amante que eu julgava perdida e retornou depois de mais de duas décadas de paradeiro ignorado. Eu estou fazendo tudo para agradar a essa Musa esquiva. Morro de medo de que ela vá embora de novo.
19.7.08
O melhor vilão de todos os tempos
Heath Ledger merece mesmo um Oscar pelo Coringa no novo filme do Batman, que acabo de ver. Nunca o mal foi tão bem personificado. O ator está possuído, o personagem é quase uma entidade (não tem digitais, nem nome) e ele nos deixa arrrepiados, enojados e meio que em estado de choque. Sem perder o humor sombrio - verdadeiramente sombrio - que é parte da personalidade histriônica do Coringa. Quem realmente curte o universo do cavaleiro das trevas não deve perder o filme (cujo único senão é ser barulhento demais). Nem parece filme de herói, de tão triste que é.
Ledger entrou para a história do cinema com este papel. Tudo bem que a gente presta mais atenção no ator porque ele morreu tragicamente, mas mesmo assim Ledger bota o resto do elenco no bolso. E estou falando de gente como Michael Caine e Morgan Freeman (cujos papéis, claro, são mais suaves).
Eu ainda estou sob o efeito da interpretação de Ledger enquanto escrevo este post. É realmente impressionante.
7.7.08
14.6.08
30.5.08
29.5.08
30.4.08
Uma aula de rock and roll
Não percam o filme do Scorsese sobre os Rolling Stones, "Shine a light". É uma aula de rock and roll. Aqui, a abertura de um show com uma de minhas músicas favoritas dos Stones, "You got me rocking."
22.4.08
30.3.08
27.3.08
Status Quo - 4500x
Though it has taken a long time
For you to see
Where we're at is the right place
For us to be...
18.3.08
2.3.08
29.2.08
20.2.08
I'm in time but somebody's missing
Maybe I can find a hand for my hand
If I find a well for my wishing
Be my friend
Be my friend
It gets lonely on a table for two
Laughing on your own can be no fun
Even people that are talking to you
Remind you that you're really with no-one
Be my friend
Be my friend
(Status Quo, "Forty-Five Hundred Times")
18.2.08
15.1.08

Moçada, eis o MySpace do meu CD "Andremachadorock". Ele tem seis das 10 faixas do disco disponíveis para quem ainda não ouviu. O endereço:
http://www.myspace.com/andremachadorock
11.12.07
23.10.07
23.8.07
13.8.07
Outro dia, revi o filme "Rede de intrigas", de Sidney Lumet. Mesmo 32 anos depois de filmado, permanece atual em sua feroz análise da TV e é profético quanto à globalização, de maneira impressionante, inclusive. Quando o dono da rede televisiva conversa com o apresentador semi-enlouquecido vivido por Peter Finch, explica-lhe que a política não comporta mais nações, não se baseia mais na geografia, mas nas grandes corporações e no dinheiro, que não conhece fronteiras. Isso em 1975. De lá para cá, a globalização cresceu a olhos vistos e, com a ajuda da internet, estamos trabalhando cada vez mais freneticamente. Algum dia botaremos a cabeça para fora da janela, cansados e estressados com nossas vidas multiplicadas por mil, e repetiremos o brado de Howard Beale, o apresentador do filme: "I am as mad as hell and I won´t take this anymore!"
19.7.07
2.7.07
13.6.07
Debruçou-se sobre a sacada da barca e ficou olhando o mar escuro, imperscrutável. Lembrou-se de "Sobre heróis e tumbas", de Sábato. De como Martín cogita matar-se olhando para a água certa noite, mas desiste pensando naqueles poucos segundos que se passariam entre o salto e seu fim. Aqueles segundos terríveis, imponderáveis.
Então deixou que apenas suas lágrimas caíssem nas ondas e as salgassem mais um pouco. E pronunciou o nome dela, numa súplica sussurrada.
1.6.07
24.5.07
5.5.07
10.4.07
Acordou uma noite e compreendeu que sua musa o tinha deixado quando começou a pensar em escrever um livro de receitas. Saiu correndo e a alcançou ainda na escada da portaria. Prostrou-se a seus pés, mas ela o esbofeteou e jogou em sua cara as páginas mofadas do romance de realismo fantástico que jamais conseguira terminar. Desesperado, implorou por mais uma chance. Ela sorriu como só as musas são capazes de sorrir. Ele sentiu voltar a inspiração repentinamente diante daquele rosto angelical. Mas ela voltou-se e, sem uma palavra, deu dois passos e desapareceu na névoa. Musas são seres cruéis, pensou ele, lembrando-se de Allan Poe.
Depois daquela noite, nunca mais escreveu, exceto palavras cruzadas.
2.4.07
Ela prestava tão pouca atenção a ele que, um dia, o pobre homem percebeu que podia ver através de sua própria mão. Aos poucos, a fria realidade chefiada pela rejeição atravessou seus braços, suas pernas, seu abdome e finalmente ninguém mais (nem ele mesmo, diante de um espelho) podia vê-lo. Então, um dia ele desistiu e se deixou navegar com as folhas, as cinzas e as borboletas: pelo menos a brisa o beijava.
31.3.07
23.3.07
20.3.07
-- Oh, obrigada... Mas a gente mal se conhece... por que você me deu esta rosa?
-- Julianne, eu não lhe dei esta rosa. Na verdade, dei você a esta rosa.
-- Como assim?
-- Eu já bebi o suficiente e posso explicar: eu dei você a esta rosa para que você possa lhe ensinar o verdadeiro significado da Beleza; porque você é a mulher mais bonita que já vi na vida. A pobre rosa está condenada a morrer, agora que foi tirada de suas irmãs, mesmo que a coloquemos num vaso com água da fonte da juventude eterna. Mas, se ela puder olhar para você, perceber a inacreditável beleza de seus olhos, de suas melenas negras, talvez não morra. Talvez se dispa de seus espinhos; talvez ame você como só uma flor pode amar um ser humano, e de um modo que eu jamais poderei amar.
9.3.07
"Os jornais, erradamente, pensam que são meio de comunicação de massa. E não são. Daí derivam providências fatais: a absurda imitação da televisão, a incapacidade para dialogar com a geração dos blogs e dos videogames, além do alinhamento acrítico com os modismos politicamente corretos. Esqueceram que os diários de sucesso são aqueles que sabem que o seu público, independentemente da faixa etária, é constituído por uma elite numerosa, mas cada vez mais órfã de produtos de qualidade. Num momento de ênfase no didatismo, na infografia e na prestação de serviços - estratégias convenientes e necessárias--, defendo a urgente necessidade de complicar as pautas. O leitor que devemos conquistar não quer, como é lógico, o que pode conseguir na TV ou na internet. Ele quer informação de qualidade: a matéria aprofundada, a reportagem interessante, a análise que o ajude, de fato, a tomar decisões."
26.2.07
22.2.07
Essas sãos as coisas boas que levamos da vida: boa companhia, boa conversa e paz de espírito, sem pressa e sem destinos, metas ou grandes objetivos. Sim, eles também são necessários, mas o melhor da vida está em não esquecer esse lado espectador da alma.
8.2.07
Apareçam por lá. Fica em http://www.oglobo.com.br/blogs/andremachado
31.1.07
Não só não morreu como mandou um email (não para mim).
Surrealismo é isso aí.
29.1.07
26.1.07
"O segredo da felicidade é o seguinte: deixar que os nossos interesses sejam tão amplos quanto possível, e deixar que as nossas reações em relação às coisas e às pessoas sejam tão amistosas quanto possam ser."
"Inestimável é o valor do sentimento que faz um homem e uma mulher se amarem com paixão, imaginação e ternura; desconhecê-lo é uma grande desventura."
"Se nos fosse dado o poder mágico de ler as mentes uns dos outros, o primeiro efeito seria sem dúvida o fim de todas as amizades."
"Se você acha que sua crença é baseada na razão, você a defenderá com argumentos e não pela força, e renunciará a ela se seus argumentos se mostrarem inválidos. Mas se sua crença se baseia na fé, você perceberá que a discussão é inútil e, portanto, recorrerá à força, ou na forma de perseguição ou anestesiando e distorcendo as mentes das crianças no que é chamado 'educação'."
24.1.07
"O pai humilhado
José Castello
Sofremos, hoje, de um persistente sentimento de mal-estar. Para além dos eventos do real, alguma coisa, a que não conseguimos dar um nome, dói, sem parar, dentro de nós. Essa agonia não tem causa precisa, não é o efeito direto de um ataque, ou de uma decepção. Eis o problema maior: sofremos, sem saber dizer de que sofremos.
Na literatura, este mal-estar errante, e aflitivo, se expressa no sentimento, cada vez mais comum, de que "tudo já foi escrito". Uma perplexidade diante do papel em branco que se parece com uma vertigem, na qual a palavra - e não a consciência - nos fosse roubada.
O mal-estar está em toda parte. Sua face mais visível, contraditoriamente, é o sentimento de vazio, como se todos carregássemos uma folha em branco dentro de nós. Sofremos não de uma presença, mas de uma ausência. De uma fome que alimento algum sacia.
Os escritores, que partem de cadernos vazios e de páginas em branco, lidam diariamente com isso. Muitas vezes, seu desalento diante do mundo parece ser só uma pose, ou uma afetação. "Arquivos do mal-estar e da resistência", valente ensaio do psicanalista carioca Joel Birman lançado pela Civilização Brasileira, nos faz ver que não é. O mal-estar, hoje, pertence a todos.
Até pouco tempo, diz Birman, os psicanalistas eram procurados por pacientes nervosos, com o coração em guerra, feridos por uma luta interior que não podiam resolver. Eles se deitavam no divã em busca de um pouco de paz. Hoje, em vez disso, os psicanalistas recebem em seus consultórios pessoas que se declaram vazias. Seu grande problema é não ter um problema. Sua dor maior é a incapacidade de sentir dor. O mal-estar, agora, é isso: um rombo.
Desamparados, buscam artifícios que preencham o buraco que trazem no coração. Drogas pesadas, álcool ou comida em excesso, sexo compulsivo, a obsessão pelo trabalho, a mania de comprar e comprar, tranqüilizantes, antidepressivos - a esses substitutos se apegam, na esperança vã de tampar o rombo pelo qual sua vida escorre.
Ainda assim, o vazio se dissemina. Nos dias de hoje, dominados pela agitação, pela brutalidade, pela dispersão, já não controlamos nossas vidas. Somos todos, um pouco, como os personagens do gaúcho João Gilberto Noll: vagamos, tateamos, afundamos em nosso próprio fosso.
Borges dizia que a literatura se faz no caos, mas que o escritor só pode lidar com o caos porque se apóia na suposição de um cosmos. Na idéia de que no interior do caos existe uma ordem secreta, inacessível, quase inútil, mas que ainda assim está ali. Só porque se consolam com isso, escritores conseguem escrever.
Sem essa suposição, perdemos a força. Pais inquietos e fracos, incapazes de lidar com os filhos. Professores nervosos, já sem nenhuma autoridade. Instituições que desmoronam, governos instáveis, populações à deriva. O mundo - eis o que sentimos de pior - se torna um trem desgovernado. No fundo desse vazio, Birman diz, está a figura lastimável de um pai humilhado.
O pior: diante da fraqueza do pai, nos apegamos, muitas vezes, à utopia de um pai onipotente. Ele pode ser insensível, pode ser cruel, pode ser tirano - mas funciona. Na penúria e no desamparo, sentimos uma nostalgia louca das algemas, como se a única forma possível de viver fosse a submissão.
Os escritores, que partem de uma folha em branco e têm o vazio como matéria, sabem que a coação e a onipotência de nada servem. Escrever é dialogar com a imperfeição. Atitude que, transposta para a vida, sugere Birman, conduz direto à fraternidade.
A literatura trafega na contramão do mundo prático, de medições e de resultados, que hoje habitamos. Escrever é avançar em direção a um destino a que nunca chegaremos. Esta viagem sem rumo, no entanto, não provoca agonia. Traz, isso sim, uma pequena, efêmera, mas preciosa, felicidade.
Não é estranho que psicanalistas e escritores se entendam. Ambos lidam, no fim, com a mesma matéria: o desassossego que, na aflição, chamamos de agonia, mas que, se desistimos de esperar uma salvação, chamamos de vida."
22.1.07
Está no site do Globo Online uma música minha, que gravei para uma matéria no Info Etc mostrando como o computador facilita a vida das gravações em estúdio. A música se chama "É você", e nela toquei os violões e as guitarras, inclusive a solo (trata-se de um hard rock estilo anos 70), além de cantar. O baixo ficou a cargo do veterano Carlos Castanheira, e a batera foi toda arranjada dentro do próprio computador. Se ficarem curiosos e quiserem conferir, estará em http://oglobo.globo.com/tecnologia/audio/2007/991/default.aspA matéria é a capa do caderno desta segunda.
17.1.07
Parafraseando Guevara, é preciso endurecer contra o mundo real, para não perder a poesia. Quando a realidade entra pela janela, cabe ao poeta defenestrá-la novamente.
12.1.07
O livro, escrito pelo historiador americano Paul Murray Kendall, narra as batalhas e reviravoltas da Inglaterra do século XV com um estilo de romance de aventura (embora muito bem documentado). Simplesmente não dá para largar. Como é bom ler um livro assim. A gente até lê mais devagar porque fica com pena quando vai acabando...
6.1.07
26.12.06
"Uma ceia mágica
Frei Betto
A Missa do Galo se encerrou aos primeiros minutos de 25 de dezembro. Padre Afonso se deixara contaminar pela aflição dos fiéis, ansiosos por retornarem às suas casas e desfrutarem a ceia antes de as crianças murcharem de sono. Abreviou a homilia, pulou orações, desejou a todos Feliz Natal e lhes deu a bênção final. Uma dezena de paroquianos se ombreou na sacristia para lhe manifestar votos de boas festas. Presentes se sobrepunham a um canto: camisas, meias, livros, essas coisas adequadas a um homem de Deus.
Dependurados os paramentos, padre Afonso se viu sozinho. Miseravelmente só, em plena noite de Natal. O celibato é um dom e ele sabia tê-lo merecido. Ao longo de vinte anos de sacerdócio, acometeram-lhe muitas tentações. Não era o fascínio das mulheres que o levava a duvidar de sua consagração. Admirava-as, sentia-se gratificado por achá-las belas e atraentes. Sinal de que havia nele um macho, o que no íntimo o envaidecia. Perturbava-o a consciência do pai que nunca fora. Muitas vezes, sentia saudades dos filhos que não tinha.
Atormentava-o se ver sozinho à mesa de refeições. Comer é comunhão, partilha, entremear ao cardápio o diálogo ameno e alegre. O alimento lhe caía insosso e, com freqüência, surpreendia-se sonhando de olhos abertos, a mesa cercada por sua família imaginária.
Naquela noite, a solidão lhe bateu forte. Uma solidão com a ponta de amargura advinda de uma expectativa frustrada. Sentia-a na boca da alma. Nenhum dos paroquianos tivera a generosidade de o convidar à ceia.
Padre Afonso revirou os embrulhos de cores brilhantes e encontrou o que bastava: um panetone e uma garrafa de vinho. Enfiou-os na pasta usada para levar sacramentos aos enfermos e se dirigiu à zona boêmia.
Shirley trazia os olhos inchados, o peito sufocado, o coração miúdo. Desde o fim da tarde chorara copiosamente ao recordar os natais de sua infância no norte de Minas. Lembrou da família que a repudiara, do marido que a abandonara, do filho que dela se envergonhava. Sentiu ódio da vida, da desfortuna a que fora condenada. Confusa, teve vontade e medo de sentir ódio também de Deus.
Pudesse, não trabalharia naquela noite. Todavia, não lhe restava alternativa. O acúmulo de dívidas a obrigava a ir à rua e aguardar o dinheiro ambulante que chegava escondido atrás da fantasiosa excitação de sua fortuita freguesia.
Mirou o homem de pasta na mão, camisa sem gola, sapatos escuros. Talvez viesse do trabalho. Enquadrou-o na tipologia adquirida em tantos anos de calçada: tinha o jeito ingênuo dos que buscam apenas se aliviar e, na hora da cobrança, preferem ser generosos no pagamento a enfrentar uma prostituta irada disposta ao escândalo.
Trocaram olhares e ela se esforçou para estampar um sorriso sedutor. Ele parou e indagou; ela apontou o hotel na esquina. Caminharam lado a lado em silêncio, ela sobrepondo seu profissionalismo aos sentimentos esgarçados, ele apreensivo frente ao receio de ser flagrado ali por algum conhecido. Subiram as escadas opacamente iluminadas, em cujos degraus as baratas se desviavam ariscas.
Ao abrir o primeiro botão da roupa, ela ameaçou dizer qualquer coisa, mas ele se adiantou. Explicou que não estava ali em busca de sexo, e sim de companhia. Haveria, contudo, de pagar-lhe o devido. Contou-lhe de seu sacerdócio e de sua solidão, e indagou se ela se dispunha a orar com ele e compartir a ceia.
Shirley sentou na cama, enfiou o rosto entre as mãos e desabou em prantos. Agora era um choro de alívio, de gratidão por algo que ela não sabia definir, quase de alegria. Logo, falou de seus natais na roça, o presépio em tamanho natural que o pai armava no quintal do casebre, o peru engordado durante meses para a ocasião, o bendito puxado por uma vizinha na falta de igreja e padre naquelas lonjuras.
Padre Afonso propôs fazerem uma oração. Ela se ajoelhou e ele a tomou pela mão e fez com que se sentasse de novo. Ele ocupou a única cadeira do quarto. Abriu o Evangelho de Lucas e leu, pausadamente, o relato do nascimento de Jesus. Em seguida, perguntou se ela gostaria de receber a eucaristia. Shirley pareceu levar um choque. Como ela, uma prostituta, poderia receber a hóstia sem sequer ter se confessado? O sacerdote leu o texto de Mateus (21,28): "As prostitutas vos precederão no Reino de Deus." E acrescentou que era ele, e essa sociedade cínica, injusta, desigual, que deveriam se confessar a ela e pedir perdão por a terem obrigado a uma vida tão degradante.
Após a comunhão, padre Afonso tirou dois copos da pasta, encheu-os de vinho e partiu o panetone. Os dois ainda conversavam sobre suas vidas enquanto clareava o dia."
11-12-2006
A PRAGA DOS "MOJOS"
André Machado
Recebi um recorte digital do "Washington Post" muito preocupante. O recorte conta as novidades inventadas por uma cadeia americana de jornais para fazer face ao crescimento avassalador da internet. A mídia impressa, de fato, está tendo de se adaptar aos novos tempos em que o ciberespaço elevou à enésima potência as conseqüências da "aldeia global" prevista por Marshall McLuhan. Entretanto, as mudanças promovidas por um jornal da mencionada cadeia, no estado da Flórida, merecem reflexão.
O site do jornal passou a ser o principal receptáculo das notícias apuradas. E os repórteres que as escrevem não têm mais mesa, cadeira, terminal - em suma, não têm redação para onde voltar após as tarefas de apuração. Eles não vão a campo; eles vivem em campo. São, por isso mesmo, chamados de "mobile journalists", ou "mojos" (a palavra "mojo" em inglês também é gíria para "feitiço"). Os "mojos" praticamente ficam na rua o dia inteiro, em seus carros, como aqueles tiras que vemos nos seriados policiais, correndo atrás das notícias. Carregam consigo uma parafernália tecnológica: notebook com acesso wireless à internet, mais gravador, câmera fotográfica e filmadora (tudo digital). Apuram várias histórias por dia, tiram fotos (ou filmam) e, ato contínuo, publicam tudo no site do jornal. O recorte do "Post" acompanha um desses repórteres móveis numa de suas tarefas típicas: o lançamento de uma agenda comemorativa beneficente com fotos de atletas de uma cidadezinha.
O leitor há de perguntar: mas isso é notícia? Na era da globalização, o mote, por incrível que pareça, é ser online, mas cada vez mais local. Pelo menos é nisso que acreditam os editores da tal cadeia de jornais.
Apurada a "reportagem", o "mojo" mostrado pelo recorte entra no seu carro, abre o notebook e escreve a matéria ali mesmo, enquanto fala ao celular e toma uns goles da Coca-Cola instalada no vão entre a caixa de marcha e o painel de controle. A única luz é a do notebook. As costas devem doer...
Os diretores do jornal planejam ter pelo menos 14 repórteres móveis free-lance em breve, e a equipe permanente (de 30 repórteres) também vai começar a se deslocar para o novo esquema de trabalho. Além disso, aproveitando o esquema "faça-você-mesmo" que blogs, fotologs, videologs e a facilidade de acesso instantâneo da web permitem, a publicação investirá em matérias investigativas... investigadas pelos próprios internautas, acreditando que na prática seriam gerados "milhares de repórteres investigativos em vez de só três", como disse um executivo ouvido pelo "Post".
E também haverá um editor especializado em "construir audiências", para garantir que as histórias de maior apelo fiquem sempre no alto da página. Os comentários dos leitores serão estimulados em "message boards" (alguém aí se lembra do BBS?). E, claro, o ritmo da publicação online não pode parar. A pergunta é: deve-se publicar qualquer coisa, notícia genuína ou não? A turma da redação já está chiando: os textos dos "mojos" não passam pelos editores e acabam enfocando coisas desinteressantes (cadê a pauta?, dizem eles), e a pressão por alimentação ininterrupta do site já gerou pelo menos um constrangimento, quando um editor passou pela redação reclamando que o site não era atualizado há algum tempo e que era preciso publicar alguma coisa, fosse o que fosse.
Não é assim que se faz jornalismo, tenham certeza. Mas isso não é o pior - entre as mudanças previstas pelos "gênios" da cadeia de jornais, está a idéia de fazer repórteres acompanharem contatos de publicidade a clientes, para explicar melhor como seriam determinadas matérias de interesse... O que viola a condição básica e sagrada de qualquer imprensa livre: a redação aqui, o comercial lá longe.
Ler o recorte me causou calafrios. Alguém precisa dizer a esses caras que eles estão completamente malucos. De qualquer modo, acho que seria meio impossível ver um "mojo" aqui no Rio. Imagine. Carregar notebook, celular, filmadora e câmera digital para a rua. O título da primeira matéria do sujeito ia ser "Perdeu, tio!". E ela seria escrita à mão...
* * *
13-11-2006
EM DEFESA DA LIBERDADE
André Machado
Os criadores do projeto de lei que quase foi à votação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado semana passada, e que exigia a identificação prévia dos usuários de internet para fazer qualquer coisa no ciberespaço, desde trocar emails até ir às compras, estão naturalmente convencidos de sua justeza e legitimidade. O relator do projeto disse ao GLOBO inclusive que não era verdade que a navegação dos internautas seria rastreada. Ora bolas, se não iria haver rastreamento, por que então a identificação obrigatória?
Eu escrevo muitas matérias sobre segurança da informação, e a preocupação com ela é legítima na era em que literalmente tudo é informação. Entretanto, é possível notar quando a legítima preocupação toma um desvio e se transforma em desculpa esfarrapada para iniciativas autoritárias. Aliás, até faz sentido o assunto vir agora à baila (antes da eleição, nenhum político se atreveria a falar nisso), num momento em que certos setores oficiais voltam ao velho vício (tão velho quanto a História) de tentar desacreditar o trabalho dos jornalistas.
Os autores do projeto bem poderiam dizer que ele n’est autre chose que la justice prompte, sévère, inflexible, isto é, que não passa da justiça imediata, severa, inflexível contra os malfeitores da web que tanto nos incomodam com phishing, spam, vírus e ciberfraudes. Esquecem-se de que foi exatamente com estas palavras que Maximilien de Robespierre - um político que passou à História com a aura de incorruptível - definiu a necessidade do Terror na Revolução Francesa. E o terror, em qualquer época, sempre transforma primeiro os cidadãos em reféns.
Consta que o projeto será apreciado por mais duas semanas. Mas deveria sê-lo por no mínimo mais dois anos, ou corremos o risco de termos nosso direito de ir e vir no ciberespaço confiscado para sempre, algo inadmissível. Nunca é demais lembrar o que escreveu John Perry Barlow na Declaração de Independência do Ciberespaço: "Governos do Mundo Industrial, (...) vocês dizem que há problemas entre nós [do ciberespaço] que precisam resolver. Usam essa alegação como desculpa para invadir nosso recinto. (...) Seus conceitos legais de propriedade, expressão, identidade, movimento e contexto não se aplicam a nós. Eles são todos baseados em matéria, e não há matéria aqui."
Vá lá, o próprio Barlow hoje admite que deve haver alguma governança na internet. Mas ela requer doses cavalares de prudência e bom senso. Não bastam boas intenções. Veja-se onde Robespierre terminou: ele queria a pronta justiça, mas acabou justiçado na guilhotina.
Esse tipo de projeto só poderia surgir numa era em que a informação ganha "valor agregado", embora de fato imaterial. Mas ainda há quem recorde os tempos em que os bits eram simplesmente passados de mão em mão: a turma do software livre e do código fonte-aberto. Semana passada, um artigo na Zdnet dizia que o mundo ainda não está preparado para o GNU/Linux, porque faltam jogos, suporte e há "sabores" demais do sistema operacional do pingüim. Mas há que existir uma alternativa a um mundo com apenas um sistema. As pessoas precisam ter a chance de escolher, experimentar e enveredar por bits diferentes. Viva a diferença.
Se o mundo open-source não fosse importante, a Microsoft não teria fechado o recente acordo com a Novell, para melhorar a interoperabilidade do Windows com o Suse Linux. Nem a Oracle teria entrado no jogo, oferecendo suporte ao Red Hat Linux. Os gigantes estão muito atentos à comunidade aberta. Que, no entanto, deve permanecer aberta a todo custo. Ela pode ser o último bastião contra o "valor agregado".
21.12.06
20.12.06
E os caras deveriam passar pelo menos um mês por ano vivendo com salário mínimo, tendo que pegar ônibus para ir ao trabalho e comendo mal.
Esse papo de que "temos que ganhar bem para ter independência" é de uma abjeção quase indescritível. Ética é um valor pessoal, não se pode medir por bens materiais. E ponto!
16.12.06
(Escrita por Robert Wilde para sua jovem musa em 1886)
Ó Ponce de Léon, ensina-me o caminho até tua fonte: porque tudo que desejo é ter vinte e dois anos e um mundo a conquistar. Mas do mundo não precisarei -- troco-o de bom grado por um beijo, um só beijo, da linda Circe que enfeitiçou todas as artérias pulsantes de meu corpo para que pulsem só por ela.
13.12.06
8.12.06
5.12.06
27.11.06
21.11.06
Nessas horas, bem que poderia haver alguma coisa capaz de revestir nossos próprios nervos -- algo como um titânio psicológico. Se bem que é nos meus escritos que minha dor costuma se depositar.
14.11.06
13.11.06
Émile -- Eu estou definitivamente velho: não sei mais expressar o meu amor.
François -- Talvez você seja mais feliz agora. O amor é uma doença que nenhum antibiótico cura.
Émile -- Não seja cínico.
François -- Não estou sendo. O amor é como uma síndrome imunológica: destrói todas as suas resistências. Aliás, é pior: no caso do amor, um simples olhar de desprezo pode matar.
Émile -- Então já estou morto. Ela disse que me odeia, e tudo o que eu fiz foi cair a seus pés e me declarar.
François -- Grande burrice. É assim mesmo que a gente fica comendo na mão do outro. O desprezo vem quase imediatamente. Tripudiar é irresistível. Você nunca aprendeu isso?
Émile -- Quem ama esquece tudo o que aprendeu. Repete os erros, porque quando se ama é sempre a primeira vez.
François -- Tolice. Jogar é preciso.
Émile -- Jogar leva apenas ao sexo. Jogar é um ato racional. O amor prescinde de jogos...
François -- Quá quá quá. Coitado... Além disso, você não continua namorando Cosette? Com que então declarou amor a outra?
Émile -- Eu gostaria de um pouco mais de romance em minha vida.
François -- Mas para isso é preciso se mexer, rapaz. Não dá para ter as duas ao mesmo tempo.
Émile -- Quem disse? Por que não posso amar as duas diferentemente? E elas a mim? Cosette e eu não estamos em crise, é algo consolidado, daí a previsibilidade. Já no caso de minha amiga, o amor é fresco, perigoso, cheio de acidentes geográficos. Acho até que um poderia alimentar o outro.
François -- E depois sou eu o cínico...
Émile -- De qualquer modo, tudo emperra na expressão. Como expressar isso nessa sociedade provinciana e careta? Vai tudo levar a um inferno permanente, é o que vai acontecer. E ela já me odeia, não adianta mais nada...
François -- Lamento, meu amigo. Lamento mesmo.
Émile -- É. Só tem um jeito. Pede aí.
François -- É. Garçom, mais dois uísques. Duplos.
6.11.06
(Machado de Assis, "Dom Casmurro")
1.11.06
Aproveitou a noite para curtir o especial de velhos filmes de terror do canal a cabo. Estavam lá todos os seus monstros queridos da infância: Drácula, a criatura de Frankenstein, a múmia, o lobisomem.
No dia seguinte, o despertador tocou às 5h45min, ele se vestiu às 6h e chegou ao trabalho às 7h. Fez contas até as 12h, almoçou até as 13h, fez mais contas até as 18h. Chegou em casa, jantou em silêncio olhando para a parede às 20h e viu o jornal da televisão. Dormiu às 22h.
Em outra dimensão, alguém assistia a tudo numa tela flutuante no ar.
-- Que filme chato -- comentou um anjo.
-- Não. Este é o verdadeiro filme de terror -- murmurou outro.
25.10.06
10.10.06
18-9-2006
DE CEM ANOS A UM SEGUNDO
André Machado
A computação do futuro será a do invisível. A lei de Moore - que diz que o processamento dobra a cada ano e meio - será definitivamente derrubada por ela. Estamos falando da computação quântica, para onde nossos bits de cada dia caminham a passos largos. Hoje, em grande parte, essa computação é teórica, resolvida em equações complicadíssimas, mas seus processos já estão sendo usados em áreas como cálculo, busca e criptografia.
Mas como é esse tipo de computação? Haverá algum dia um computador quântico semelhante aos nossos PCs de mesa ou notebooks? Existem complicações para chegarmos a isso, porque um computador realmente quântico só funcionaria a contento seguindo as leis da física de partículas, e não sendo jamais perturbado pela natureza. Esse tipo de isolamento total é praticamente impossível, por isso não espere ver um computador quântico na próxima promoção das Casas Bahia.
Por outro lado, a passagem da computação para o mundo sub-sub-submicroscópico é uma questão de tempo. Segundo o físico Jean Faber, especialista no assunto, doutor pelo LNCC (Laboratório Nacional de Computação Científica) e pós-doutorando da COPPE/UFRJ, a lei de Moore também pode ser entendida como o número de átomos necessários para representar um bit.
- Na década de 20 você tinha um monte de átomos para representar um único bit - diz Jean. - Mas com o passar do tempo são necessários cada vez menos átomos para representar um bit. Um dia, um só átomo representará um bit. É o que se espera. E aí teremos que usar a mecânica quântica para manipular esses átomos-bits. Que nada mais serão do que bits quânticos.
A computação quântica desafia a física clássica, em que já estamos acostumados a compreender quase inconscientemente conceitos como gravidade, inércia e etc. Se você balança uma árvore, algo vai cair lá de cima; se bate num carro, ele será empurrado e assim por diante. No mundo quântico, onde estamos falando de elétrons ou pedacinhos deles, tudo é diferente.
No nosso computador de casa ou do trabalho, tudo funciona exatamente como Alan Turing, o inventor do computador clássico, imaginou 70 anos atrás. Todas as tarefas são traduzidas em bits, que obedecem ao velho código binário: ou representam zero, ou representam 1. Tudo o que fazemos no computador pode ser representado por sucessões intermináveis de zeros e uns misturados. Outra coisa: a lógica do PC clássico é chamada de irreversível, porque ela produz um desgaste físico, dissipando calor no processamento - ou seja, a cada operação, perde-se alguma informação na natureza. Por isso nossos PCs precisam de ventiladores em cima do processador.
Segundo Jean, o que diferencia os bits quânticos dos bits clássicos são duas características especiais:
1) Eles podem representar zero, um ou zero e um ao mesmo tempo .
2) Eles podem criar uma ligação entre si de modo que, se um bit for mexido, seu "irmão gêmeo" seja mexido também, mesmo que esteja no Japão ou em outro planeta. É uma espécie de sintonia (chamada emaranhamento quântico). Como se os dois bits fossem um.
Essas loucas propriedades têm um efeito a-b-sur-do na velocidade do computador. Existem contas matemáticas complexas que os PCs clássicos demoram muito a fazer. (Elas, inclusive, são a base da criptografia clássica: você cria uma chave ou senha secreta tão longa que o computador levaria anos para decifrar.) Processos matemáticos como a fatoração de números primos podem levar cem anos para serem concluídos num PC clássico. Com os bits quânticos turbinados e seus estados extras, contas assim podem ser feitas em segundos. A criptografia fica praticamente inviolável. E a busca enxerga mais dados a um só tempo.
* * * * *
21-08-06
NÃO É SÓ PARA OS TÉCNICOS
André Machado
Distribuições de Linux, existem muitas. Algumas formaram comunidades tão fortemente unidas no Brasil que quando seus mantenedores lá fora têm algum problema, passam a responsabilidade para a turma daqui. É o caso do Slackware, cujos valorosos membros no Brasil, entre eles o analista Bruno Collovini, fazem um trabalho de desenvolvimento tão certeiro que chamam a atenção de seus pares internacionais.
As comunidades open-source de modo geral se destacam pelas características técnicas de seus integrantes, embora isso não seja uma regra. As Linuxchix brasileiras, em geral representadas pela bela e bem-articulada Sulamita Garcia, têm por meta afirmar a participação da mulher no movimento open-source, seja atuando no desenvolvimento ou simplesmente contribuindo como usuárias.
A prova de que não é preciso ser um técnico nem escovar bits para participar de uma comunidade de software aberto talvez esteja na trajetória de David Barzilay, embaixador brasileiro com assento no comitê internacional da distribuição Fedora Core. Curiosamente, a relação de David, publicitário de formação, com o Fedora - coração open-source do código que alimenta o Red Hat Enterprise Linux - começou na longínqua Brisbane, na Austrália. Foi lá que ele começou a trabalhar no projeto de tradução da distribuição para o português do Brasil.
- Dessa maneira, intensifiquei relações com a comunidade Fedora, e as pessoas descobriram que nem só a turma mais técnica pode colaborar com o software aberto - me disse David.
A história toda levou à fundação de uma lista (hoje com quase 300 membros) ligada à tradução de softwares e manuais do Fedora e acabou por transformar David num dos nove embaixadores do comitê global da distribuição - o único brasileiro do grupo. Esses embaixadores ajudam a difundir o uso do Fedora ao redor do mundo e fomentam a criação de comunidades dedicadas a trabalhos variados, desde o desenvolvimento de programas e funções até desenho e tradução de interfaces, por exemplo.
- O comitê se reúne online semanal ou quinzenalmente, sempre via IRC - conta David.
Depois de cinco anos na Austrália, ele está de volta ao Brasil, onde assumiu na Red Hat a gerência de marketing e relacionamento com a comunidade. E se prepara para o lançamento do Fedora 6, marcado para o mês que vem. O destaque do novo Fedora deverão ser suas tecnologias de virtualização, que permitem simular mais de uma CPU no computador e rodar outros sistemas junto com o Linux. Elas terão um gerenciador com interface gráfica. A versão 6 virá com os novíssimos ambientes gráficos para a área de trabalho Gnome 2.16 e KDE 3.5.3, atualizador de pacotes com ícones para informar sobre updates disponíveis e mais recursos para rodar programas em Java. O novo Fedora também poderá rodar nos Macs com processadores Intel.
Para David, o diferencial do Fedora é que boa parte do que é criado para ele entra no seu core, não ficando apenas como um anexo. E o fato de que o sistema é a base do Red Hat Enterprise Linux faz com que ele seja continuamente testado no mundo corporativo, contribuindo para futuras melhorias, num círculo que se realimenta ad aeternum.
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Uma coisa a notar nas séries de ação da TV hoje é o uso cada vez maior da tecnologia nos episódios. Em "24 Horas", seriado da Fox cuja quinta temporada chegou ao fim semana passada, a tendência chega ao ápice. As redes de segurança e monitoramento da unidade contra-terrorismo da série são poderosíssimas e o celular do agente Jack Bauer (vivido por Kiefer Sutherland) só falta baixar santo - recebe até plantas arquitetônicas com uma facilidade estonteante. Haja banda larga sem fio. E a bateria nunca acaba. Por outro lado, os computadores da série "Lost" (do AXN), cuja segunda temporada termina hoje, parecem híbridos de mainframes jurássicos e dos primeiros PCs, com telas pretas, letras verdes e impressões com jeito de matricial. Aliás, as folhas de impressão têm... papel importante no episódio de hoje.
1.10.06

Minha querida Cora Rónai, eu e Alexandre Freire no lançamento do "Como blindar seu PC", na Letras e Expressões do Leblon.
25.9.06
Espero todos no lançamento, que será sexta-feira na Letras e Expressões do Leblon, a partir das 19h. O convite pode ser visto aqui.
6.9.06

Atenção, moçada!
Vem aí meu novo livro, escrito em parceria com o super-expert em segurança da informação Alexandre Freire. Olha a capa aí em cima. Está quase saindo do prelo. Mas já tem site, inclusive com links para compras antecipadas. Fica aqui, e e está quase pronto, faltando alguns detalhes. O Alexandre construiu todo o site, com muito capricho.
O lançamento será dia 29 de setembro, na Letras e Expressões do Leblon. Boto o convite aqui quando chegar mais perto.




Mais fotos de Berlim: na escadaria do Reichstag (hoje Bundestag); a catedral da cidade, a Berliner Dom, e sua cúpula vista de dentro (acima); e o monumento aos escritores do país.
Outras fotos, no Cadafalso I.
20.8.06
Sonhou viajar no tempo para pedi-la em namoro de novo, para espantar o mofo do casamento. Aí um dia acordou vinte anos antes, na velha cama no apartamento dos pais. Olhou o relógio: estava quase na hora. Vestiu-se correndo, pegou suas coisas e tomou o ônibus para o bar onde a conheceria.
E ela estava lá, num vestido amarelo, as pernas lindas e longilíneas, exatamente como a vira pela primeira vez. Lembrou-se que estava com um amigo e tinha bebido um bocado de chopes antes de ela passar por sua mesa e pedir-lhe fósforos. Ligou para o amigo. Ele estava em casa, e não demorou a chegar.
Estava tudo pronto.
Então, quando ela passou, de pilequinho, pedindo os fósforos, percebeu que os esquecera junto com o maço de cigarros em cima da escrivaninha. Tentou responder qualquer outra coisa, mas era tarde -- ela se fora.
Passou os vintes anos seguintes sozinho e virou um rabugento já na meia-idade.
19.8.06
8.8.06
3.8.06
26.7.06
De 24 de julho:
TECNOLOGIA É SÓ UM MEIO
André Machado
Proferi este mês uma conferência sobre tecnologia e comportamento no Business Club One, no Centro do Rio. Aproveitei para relembrar a época em que escrevia estas mal traçadas nas chamadas máquinas "de tração animal", ou máquinas de escrever. Como o computador mudou nossas vidas desde então! Entre o momento em que a notícia surge e o momento em que chega ao leitor, hoje o intervalo de tempo é quase inexistente. A vertiginosidade em que vivemos envolvidos nesta era de pouca reflexão me fez pensar no papel da tecnologia e o que ela representa para nós, personagens e testemunhas da Revolução da Informação.
Na conferência, eu disse que uma coisa a lembrar quando falamos de tecnologia é que ela não pode ser transformada em vida. O que quero dizer com isso? Que toda tecnologia é um meio para se chegar a um fim, nunca o fim em si. A internet é a maior ferramenta de comunicação jamais criada pelo homem, mas ainda assim permanece uma ferramenta. Embora haja nela mundos virtuais onde podemos viver vidas diferentes das nossas, como um role playing game (RPG) em tempo real, elas permanecem virtuais; a vida real, por seu lado, é bem outra coisa.
Um fenômeno recente que vejo se abater sobre muitas pessoas é a mania de filmar e fotografar tudo o tempo todo. A facilidade cada vez maior de acesso a câmeras digitais, em máquinas fotográficas propriamente ditas ou em PDAs e telefones celulares, criou uma obsessão com o registro ao vivo de tudo e de todos. Ouso dizer que, se isso continuar assim, dentro de algumas décadas não precisaremos mais de nossa memória inata. Porque as pessoas estão se esquecendo de olhar as coisas com seus próprios olhos e preferem a eles a realidade das lentes digitais. Ninguém mais pára para apreciar um crepúsculo, para observar as emoções dos convidados de uma discreta cerimônia de casamento. Não; todos levantam suas câmeras e telefones celulares e fotografam sem parar, deixando de acompanhar o momento e depois elaborando-o na própria memória, que é, ao menos para este humilde escriba, parte do que faz a História com H maiúsculo ser escrita.
A tecnologia deve ter o lugar que merece em nossas vidas: o de utilidade. Certamente ela ajuda a mudar comportamentos e gerar novas formas de organização, mas ainda assim o faz como uma ferramenta. E, de qualquer forma, encantar-se com uma tecnologia específica e aferrar-se a ela é, na prática, viver no passado, porque as tecnologias mudam o tempo todo, ainda mais agora. André Kischinevsky, diretor do Infnet, tem a teoria de que no futuro todas as coisas serão virtuais, e que não haverá mais objetos, apenas formas impalpáveis 3D e redes neurais conectadas a a elas.
Apesar desse caminho em busca do virtual, a vida real continua a ser bem mais do que zeros e uns, sim ou não, preto ou branco. É por isso que se estuda, no Massachusetts Institute of Technology e em outros lugares, a chamada computação afetiva, que quer ensinar sistemas de informação a entenderem melhor as reações humanas, e a se comportarem de acordo com elas.
A computação afetiva quer criar uma relação mais íntima com o usuário. Porque, em última análise, são as máquinas que realmente têm que nos entender, e não o contrário. A chamada usabilidade de sistemas e programas ainda tem um longo caminho pela frente. Eu sempre digo que, quando tivermos com o computador a intimidade que temos com a televisão e a geladeira, nossos problemas acabarão.
Contudo, depois de refletir sobre esses temas, fui à exposição Interface Cibernética (veja a capa) em São Paulo e percebi que, ao menos no campo da arte, os bits e bytes estão virando mais do que ferramentas; eles podem se transformar nas próprias obras de arte, em certo grau. Os artistas - sempre à frente de seus contemporâneos, em todas as épocas - perceberam que a relação de utilidade com a tecnologia poderia ser subvertida e não hesitaram em criar obras e instalações para celebrar novos relacionamentos entre nós e o software, o hardware e tudo em que podem se transformar. Vai dar uma nova conferência, sem dúvida.
* * *
De 26 de junho:
OS CAPOEIRA COMMONS
André Machado
Em 2003, cobri o evento iLaw, que trouxe ao Rio alguns próceres do meio acadêmico americano e os fundadores do Creative Commons, movimento criado em 2002 pelo professor Lawrence Lessig, da Universidade de Stanford, com vistas a flexibilizar formas de direito autoral com licenças alternativas ao velho copyright. O evento atraiu poucos jornalistas, mas foi um divisor de águas para quem está de olho na evolução da vida digital. Agora, no fim de semana, acabou de acontecer também no Rio o iSummit, evento máximo da turma dos Creative Commons. E dessa vez veio gente do mundo inteiro - 49 países estavam representados no evento, que atraiu 70 jornalistas de diversas procedências. E o mundo Creative Commons não é mais alternativo. Virou mainstream. Na abertura do iSummit, o mesmo Lawrence Lessig contou que de seis meses para cá as licenças Creative Commons (CC) ultrapassaram 140 milhões no planeta (a última estatística dava conta de 53 milhões). A maior parte ainda consiste em textos e blogs com conteúdo compartilhado mais livremente, e em segundo lugar estão as imagens - são mais de 50 milhões com licenças CC só no Flicker.
A coisa está fervendo tanto que a própria Microsoft já criou uma opção no Office para apor uma licença Creative Commons num documento (do Word, por exemplo). E existem várias ramificações do movimento na internet, cada vez mais fazendo de quem consome conteúdo seu próprio autor.
- Na verdade, as pessoas não querem mais só consumir; querem interagir, compartilhar, improvisar coisas - disse Joi Ito, presidente do iCommons, entidade que e fomenta comunidades CC colaborativas.
Uma das ramificações é a Revver, onde se pode criar vídeos em licenças CC e garantir que o autor receba um "dindim" toda vez que o vídeo é assistido (de graça) na web. Isso é feito através de uma tag que monitora o vídeo na rede, e o dinheiro vem via acordos com anunciantes, dividido meio a meio entre site e autor. As Dixie Chicks, nos EUA, já fizeram um vídeo "revverizado".
Outro projeto é o Dotsub.com, que permite legendar filmes compartilháveis em qualquer idioma, com ferramentas adaptadas a browser fornecidas pelo próprio site. E tem ainda o Eyespot, com uma trilha de vídeo online que se pode misturar os frames à vontade, criando um filme com licença alternativa no fim do processo.
O Brasil não está de fora desse processo. Aqui, o Creative Commons é capitaneado pelo advogado Ronaldo Lemos, do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV. E o ministro da Cultura, Gilberto Gil, é o artista brasileiro mais antenado com a nova realidade dos direitos autorais. No evento, ele reafirmou a intenção do governo de atualizar e modernizar as leis sobre propriedade intelectual no país, que segundo Ronaldo vão muito além do que a OMC pede e protegem os interesses privados.
- A Índia usou a flexibilidade dos acordos que a OMC prevê sobre o tema para atrasar a criação de patentes nocivas para o país e hoje tem a maior indústria de remédios genéricos do mundo. Aqui, a lei é muito mais conservadora - disse.
Gil, que mesmo político fala como artista e intelectual que é, evocou Fernando Pessoa e seus heterônimos para fazer uma metáfora da multiplicidade do ciberespaço e comparou a nova era que vivemos ao jogo de capoeira, cujos movimentos mudam o tempo todo e onde de repente um perdedor pode conquistar vitórias.
- Talvez porque eu seja de Salvador, um porto, onde os mundos e as culturas se encontram, quero conectar as diferentes idéias e fazer o mundo vibrar como um berimbau - disse, lembrando que o tropicalismo tem tudo a ver com essa onda.
É certo que ainda veremos muita água rolar debaixo da ponte, até porque somos um país em desenvolvimento, e temos de vencer primeiro a barreira da inclusão digital e levar tecnologia a todos antes de poder converter a mentalidade do establishment. Mas é um consolo perceber que cabeças pensantes do Brasil saem na frente e apreendem a necessidade de jogo de cintura quando se trata do universo da internet. Talvez seja lícito chamá-las de "capoeira commons".
* * *
De 29 de maio:
LINUXWORLD: NA CASA DOS PINGÜINS
André Machado
Aconteceu semana passada em Sampa a primeira LinuxWorld brasileira. Este é o grande evento do mundo open source, enquanto o FISL (Fórum Internacional Software Livre) de Porto Alegre é o grande evento do software livre. Explico: embora os dois conceitos tenham interseções, o mundo open source é mais centrado na tecnologia em si, em criar sistemas e programas melhores (e de código aberto), enquanto os paladinos do software livre pensam em mudar o mundo, idealizando uma sociedade mais justa em que um dos primeiros passos seria o compartilhamento da informação.
O que um Richard Stallman, da Fundação Software Livre, tem de inflexível, o mentor do mundo open source, John "Maddog" Hall, presidente da Linux International, tem de político. Maddog pode ser considerado o grande embaixador do Linux (ou GNU/Linux) no planeta, já que o criador do sistema, Linus Torvalds, é um tanto tímido, especialmente em sua relação com a mídia.
Maddog fez um dos melhores keynotes do evento - que estava repleto de executivos e pesos-pesados de Intel, IBM, Red Hat, HP, Itautec, Novell, além de vários projetos Linux: Debian, Mandriva, BrOffice, 4Linux e muitos outros. Com mais de dois mil visitantes, a LinuxWorld provou que o sistema representado pelo pingüim Tux está crescidinho e chama a atenção do mercado.
Mas voltemos ao Maddog. Ele comentou que vai transformar a Linux International numa associação mais voltada para usuários finais e programadores do que para empresas.
- As empresas certamente ajudam a impulsionar o open source, mas também se preocupam com seus negócios - me disse Maddog. - Os usuários entram nessa porque realmente têm interesse, gostam da coisa. E é isso o que o software livre e aberto é, em última análise.
Do alto de suas barbas brancas, o veterano programador lembrou o quanto estamos viciados em nomes de soluções e esquecemos para o que elas servem. É o equivalente a chamar "fotocópia" de "xerox".
- Não diga que você precisa do produto de uma empresa X - sentenciou ele. - Diga que precisa de um software para editar texto ou fazer um banco de dados.
Ele não pregou a troca de sistema pela troca de sistema. Disse que "se você tem um sistema trabalhando bem, não o converta". E lembrou que se pode começar comendo pelas beiradas (no caso das empresas, em novos projetos), com programas abertos. Estão aí Evolution, OpenOffice e Gimp, só para citar alguns.
Outro destaque do evento foi a Red Hat, que anunciou oficialmente o início de suas operações no país e contratou o mantenedor do kernel do Linux, Marcelo Tosatti. Tosatti será responsável por adaptar o Linux para o laptop de US$100 do Nicholas Negroponte, em que a Red Hat investe.
- Minha tarefa será tornar a interface mais simples e mais fácil que a dos desktops - contou ele.
Uma interface mais fácil para os usuários é realmente o grande desafio do Linux para o desktop. Esse desktop deve chegar primeiro nas estações de trabalho. Por exemplo, pelas mãos da Novell, que lançou a versão 10 de seu Suse Linux Enterprise. Poderoso, o sistema comporta vídeo e gerenciamento avançado de arquivos e janelas - em dado momento da demo, Guy Lunardi, gerente de produto da Novell, abriu seis janelas e arrumou-as numa espécie de cubo mágico, que podia ser manipulado à vontade. Bom, à vontade no notebook de Guy, com 1Gb de memória...
Para o usuário final, mesmo, a grande aposta presente no evento era a nacional Insigne, que tem um Linux montado para facilitar a vida de quem nunca viu um pingüim. É o Linux que mais anda por aí nos computadores do varejo, inclusive os usados no projeto de computador popular no governo. A Insigne rearrumou a janela Comece Aqui, presente no Linux, e levou os ícones dos programas básicos para dentro dela. A empresa criou agora uma versão "live"do Insigne, que vou testar.
Por fim, a porção mulher do Tux está crescendo. As meninas do movimento LinuxChix.Br, que mexem com o sistema, já são mais de 300 e têm encontro marcado em Florianópolis, em setembro.
21.7.06
Também aproveitei para curtir o acervo do museu. A tela de Corot que retrata uma cigana com bandolim me hipnotizou.
É impossível parar de ler o livro. O personagem é muito fascinante. Mas dá para perceber que os verdadeiros estadistas ao lado dele eram José Bonifácio e D. Leopoldina. Se tivessem assegurado maior influência sobre D. Pedro, nossa história seria diferente. E talvez o Primeiro Reinado não tivesse acabado tão rápido.








