Don't want your body
Don't want your expertise
Don't want your reasons
Don't want to believe
Just want your kiss
your honey-coloured
breathtaking
larger-than-life
kiss
in order to be alive.
14.11.06
13.11.06
Minicontos do desconforto -- 87
Émile -- Eu estou definitivamente velho: não sei mais expressar o meu amor.
François -- Talvez você seja mais feliz agora. O amor é uma doença que nenhum antibiótico cura.
Émile -- Não seja cínico.
François -- Não estou sendo. O amor é como uma síndrome imunológica: destrói todas as suas resistências. Aliás, é pior: no caso do amor, um simples olhar de desprezo pode matar.
Émile -- Então já estou morto. Ela disse que me odeia, e tudo o que eu fiz foi cair a seus pés e me declarar.
François -- Grande burrice. É assim mesmo que a gente fica comendo na mão do outro. O desprezo vem quase imediatamente. Tripudiar é irresistível. Você nunca aprendeu isso?
Émile -- Quem ama esquece tudo o que aprendeu. Repete os erros, porque quando se ama é sempre a primeira vez.
François -- Tolice. Jogar é preciso.
Émile -- Jogar leva apenas ao sexo. Jogar é um ato racional. O amor prescinde de jogos...
François -- Quá quá quá. Coitado... Além disso, você não continua namorando Cosette? Com que então declarou amor a outra?
Émile -- Eu gostaria de um pouco mais de romance em minha vida.
François -- Mas para isso é preciso se mexer, rapaz. Não dá para ter as duas ao mesmo tempo.
Émile -- Quem disse? Por que não posso amar as duas diferentemente? E elas a mim? Cosette e eu não estamos em crise, é algo consolidado, daí a previsibilidade. Já no caso de minha amiga, o amor é fresco, perigoso, cheio de acidentes geográficos. Acho até que um poderia alimentar o outro.
François -- E depois sou eu o cínico...
Émile -- De qualquer modo, tudo emperra na expressão. Como expressar isso nessa sociedade provinciana e careta? Vai tudo levar a um inferno permanente, é o que vai acontecer. E ela já me odeia, não adianta mais nada...
François -- Lamento, meu amigo. Lamento mesmo.
Émile -- É. Só tem um jeito. Pede aí.
François -- É. Garçom, mais dois uísques. Duplos.
Émile -- Eu estou definitivamente velho: não sei mais expressar o meu amor.
François -- Talvez você seja mais feliz agora. O amor é uma doença que nenhum antibiótico cura.
Émile -- Não seja cínico.
François -- Não estou sendo. O amor é como uma síndrome imunológica: destrói todas as suas resistências. Aliás, é pior: no caso do amor, um simples olhar de desprezo pode matar.
Émile -- Então já estou morto. Ela disse que me odeia, e tudo o que eu fiz foi cair a seus pés e me declarar.
François -- Grande burrice. É assim mesmo que a gente fica comendo na mão do outro. O desprezo vem quase imediatamente. Tripudiar é irresistível. Você nunca aprendeu isso?
Émile -- Quem ama esquece tudo o que aprendeu. Repete os erros, porque quando se ama é sempre a primeira vez.
François -- Tolice. Jogar é preciso.
Émile -- Jogar leva apenas ao sexo. Jogar é um ato racional. O amor prescinde de jogos...
François -- Quá quá quá. Coitado... Além disso, você não continua namorando Cosette? Com que então declarou amor a outra?
Émile -- Eu gostaria de um pouco mais de romance em minha vida.
François -- Mas para isso é preciso se mexer, rapaz. Não dá para ter as duas ao mesmo tempo.
Émile -- Quem disse? Por que não posso amar as duas diferentemente? E elas a mim? Cosette e eu não estamos em crise, é algo consolidado, daí a previsibilidade. Já no caso de minha amiga, o amor é fresco, perigoso, cheio de acidentes geográficos. Acho até que um poderia alimentar o outro.
François -- E depois sou eu o cínico...
Émile -- De qualquer modo, tudo emperra na expressão. Como expressar isso nessa sociedade provinciana e careta? Vai tudo levar a um inferno permanente, é o que vai acontecer. E ela já me odeia, não adianta mais nada...
François -- Lamento, meu amigo. Lamento mesmo.
Émile -- É. Só tem um jeito. Pede aí.
François -- É. Garçom, mais dois uísques. Duplos.
6.11.06
"Com que então eu amava Capitu, e Capitu a mim? Realmente, andava cosido às saias dela, mas não me ocorria nada entre nós que fosse deveras secreto. Antes dela ir para o colégio, eram tudo travessuras de criança; depois que saiu do colégio, é certo que não estabelecemos logo a antiga intimidade, mas esta voltou pouco a pouco, e no último ano era completa. Entretanto, a matéria das nossas conversações era a de sempre. Capitu chamava-me às vezes bonito, mocetão, uma flor - outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ela me passava a mão pelos cabelos, dizendo que os achava lindíssimos. Eu, sem fazer o mesmo aos dela, dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus. Então Capitu abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos realmente admiráveis - mas eu retorquia chamando-lhe maluca. Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que não, ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordinárias, que subíamos ao Corcovado pelo ar, que dançávamos na lua, ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos andávamos unidinhos. Os que eu tinha com ela não eram assim, apenas reproduziam a nossa familiaridade, e muita vez não passavam da simples repetição do dia. alguma frase, algum gesto. Também eu os contava. Capitu um dia notou a diferença, dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus, eu, depois de certa hesitação, disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava... Fez-se cor de pitanga."
(Machado de Assis, "Dom Casmurro")
(Machado de Assis, "Dom Casmurro")
1.11.06
Minicontos do desconforto -- 86
Aproveitou a noite para curtir o especial de velhos filmes de terror do canal a cabo. Estavam lá todos os seus monstros queridos da infância: Drácula, a criatura de Frankenstein, a múmia, o lobisomem.
No dia seguinte, o despertador tocou às 5h45min, ele se vestiu às 6h e chegou ao trabalho às 7h. Fez contas até as 12h, almoçou até as 13h, fez mais contas até as 18h. Chegou em casa, jantou em silêncio olhando para a parede às 20h e viu o jornal da televisão. Dormiu às 22h.
Em outra dimensão, alguém assistia a tudo numa tela flutuante no ar.
-- Que filme chato -- comentou um anjo.
-- Não. Este é o verdadeiro filme de terror -- murmurou outro.
Aproveitou a noite para curtir o especial de velhos filmes de terror do canal a cabo. Estavam lá todos os seus monstros queridos da infância: Drácula, a criatura de Frankenstein, a múmia, o lobisomem.
No dia seguinte, o despertador tocou às 5h45min, ele se vestiu às 6h e chegou ao trabalho às 7h. Fez contas até as 12h, almoçou até as 13h, fez mais contas até as 18h. Chegou em casa, jantou em silêncio olhando para a parede às 20h e viu o jornal da televisão. Dormiu às 22h.
Em outra dimensão, alguém assistia a tudo numa tela flutuante no ar.
-- Que filme chato -- comentou um anjo.
-- Não. Este é o verdadeiro filme de terror -- murmurou outro.
25.10.06
10.10.06
Minhas colunas mais recentes no Info etc:
18-9-2006
DE CEM ANOS A UM SEGUNDO
André Machado
A computação do futuro será a do invisível. A lei de Moore - que diz que o processamento dobra a cada ano e meio - será definitivamente derrubada por ela. Estamos falando da computação quântica, para onde nossos bits de cada dia caminham a passos largos. Hoje, em grande parte, essa computação é teórica, resolvida em equações complicadíssimas, mas seus processos já estão sendo usados em áreas como cálculo, busca e criptografia.
Mas como é esse tipo de computação? Haverá algum dia um computador quântico semelhante aos nossos PCs de mesa ou notebooks? Existem complicações para chegarmos a isso, porque um computador realmente quântico só funcionaria a contento seguindo as leis da física de partículas, e não sendo jamais perturbado pela natureza. Esse tipo de isolamento total é praticamente impossível, por isso não espere ver um computador quântico na próxima promoção das Casas Bahia.
Por outro lado, a passagem da computação para o mundo sub-sub-submicroscópico é uma questão de tempo. Segundo o físico Jean Faber, especialista no assunto, doutor pelo LNCC (Laboratório Nacional de Computação Científica) e pós-doutorando da COPPE/UFRJ, a lei de Moore também pode ser entendida como o número de átomos necessários para representar um bit.
- Na década de 20 você tinha um monte de átomos para representar um único bit - diz Jean. - Mas com o passar do tempo são necessários cada vez menos átomos para representar um bit. Um dia, um só átomo representará um bit. É o que se espera. E aí teremos que usar a mecânica quântica para manipular esses átomos-bits. Que nada mais serão do que bits quânticos.
A computação quântica desafia a física clássica, em que já estamos acostumados a compreender quase inconscientemente conceitos como gravidade, inércia e etc. Se você balança uma árvore, algo vai cair lá de cima; se bate num carro, ele será empurrado e assim por diante. No mundo quântico, onde estamos falando de elétrons ou pedacinhos deles, tudo é diferente.
No nosso computador de casa ou do trabalho, tudo funciona exatamente como Alan Turing, o inventor do computador clássico, imaginou 70 anos atrás. Todas as tarefas são traduzidas em bits, que obedecem ao velho código binário: ou representam zero, ou representam 1. Tudo o que fazemos no computador pode ser representado por sucessões intermináveis de zeros e uns misturados. Outra coisa: a lógica do PC clássico é chamada de irreversível, porque ela produz um desgaste físico, dissipando calor no processamento - ou seja, a cada operação, perde-se alguma informação na natureza. Por isso nossos PCs precisam de ventiladores em cima do processador.
Segundo Jean, o que diferencia os bits quânticos dos bits clássicos são duas características especiais:
1) Eles podem representar zero, um ou zero e um ao mesmo tempo .
2) Eles podem criar uma ligação entre si de modo que, se um bit for mexido, seu "irmão gêmeo" seja mexido também, mesmo que esteja no Japão ou em outro planeta. É uma espécie de sintonia (chamada emaranhamento quântico). Como se os dois bits fossem um.
Essas loucas propriedades têm um efeito a-b-sur-do na velocidade do computador. Existem contas matemáticas complexas que os PCs clássicos demoram muito a fazer. (Elas, inclusive, são a base da criptografia clássica: você cria uma chave ou senha secreta tão longa que o computador levaria anos para decifrar.) Processos matemáticos como a fatoração de números primos podem levar cem anos para serem concluídos num PC clássico. Com os bits quânticos turbinados e seus estados extras, contas assim podem ser feitas em segundos. A criptografia fica praticamente inviolável. E a busca enxerga mais dados a um só tempo.
* * * * *
21-08-06
NÃO É SÓ PARA OS TÉCNICOS
André Machado
Distribuições de Linux, existem muitas. Algumas formaram comunidades tão fortemente unidas no Brasil que quando seus mantenedores lá fora têm algum problema, passam a responsabilidade para a turma daqui. É o caso do Slackware, cujos valorosos membros no Brasil, entre eles o analista Bruno Collovini, fazem um trabalho de desenvolvimento tão certeiro que chamam a atenção de seus pares internacionais.
As comunidades open-source de modo geral se destacam pelas características técnicas de seus integrantes, embora isso não seja uma regra. As Linuxchix brasileiras, em geral representadas pela bela e bem-articulada Sulamita Garcia, têm por meta afirmar a participação da mulher no movimento open-source, seja atuando no desenvolvimento ou simplesmente contribuindo como usuárias.
A prova de que não é preciso ser um técnico nem escovar bits para participar de uma comunidade de software aberto talvez esteja na trajetória de David Barzilay, embaixador brasileiro com assento no comitê internacional da distribuição Fedora Core. Curiosamente, a relação de David, publicitário de formação, com o Fedora - coração open-source do código que alimenta o Red Hat Enterprise Linux - começou na longínqua Brisbane, na Austrália. Foi lá que ele começou a trabalhar no projeto de tradução da distribuição para o português do Brasil.
- Dessa maneira, intensifiquei relações com a comunidade Fedora, e as pessoas descobriram que nem só a turma mais técnica pode colaborar com o software aberto - me disse David.
A história toda levou à fundação de uma lista (hoje com quase 300 membros) ligada à tradução de softwares e manuais do Fedora e acabou por transformar David num dos nove embaixadores do comitê global da distribuição - o único brasileiro do grupo. Esses embaixadores ajudam a difundir o uso do Fedora ao redor do mundo e fomentam a criação de comunidades dedicadas a trabalhos variados, desde o desenvolvimento de programas e funções até desenho e tradução de interfaces, por exemplo.
- O comitê se reúne online semanal ou quinzenalmente, sempre via IRC - conta David.
Depois de cinco anos na Austrália, ele está de volta ao Brasil, onde assumiu na Red Hat a gerência de marketing e relacionamento com a comunidade. E se prepara para o lançamento do Fedora 6, marcado para o mês que vem. O destaque do novo Fedora deverão ser suas tecnologias de virtualização, que permitem simular mais de uma CPU no computador e rodar outros sistemas junto com o Linux. Elas terão um gerenciador com interface gráfica. A versão 6 virá com os novíssimos ambientes gráficos para a área de trabalho Gnome 2.16 e KDE 3.5.3, atualizador de pacotes com ícones para informar sobre updates disponíveis e mais recursos para rodar programas em Java. O novo Fedora também poderá rodar nos Macs com processadores Intel.
Para David, o diferencial do Fedora é que boa parte do que é criado para ele entra no seu core, não ficando apenas como um anexo. E o fato de que o sistema é a base do Red Hat Enterprise Linux faz com que ele seja continuamente testado no mundo corporativo, contribuindo para futuras melhorias, num círculo que se realimenta ad aeternum.
&&&
Uma coisa a notar nas séries de ação da TV hoje é o uso cada vez maior da tecnologia nos episódios. Em "24 Horas", seriado da Fox cuja quinta temporada chegou ao fim semana passada, a tendência chega ao ápice. As redes de segurança e monitoramento da unidade contra-terrorismo da série são poderosíssimas e o celular do agente Jack Bauer (vivido por Kiefer Sutherland) só falta baixar santo - recebe até plantas arquitetônicas com uma facilidade estonteante. Haja banda larga sem fio. E a bateria nunca acaba. Por outro lado, os computadores da série "Lost" (do AXN), cuja segunda temporada termina hoje, parecem híbridos de mainframes jurássicos e dos primeiros PCs, com telas pretas, letras verdes e impressões com jeito de matricial. Aliás, as folhas de impressão têm... papel importante no episódio de hoje.
18-9-2006
DE CEM ANOS A UM SEGUNDO
André Machado
A computação do futuro será a do invisível. A lei de Moore - que diz que o processamento dobra a cada ano e meio - será definitivamente derrubada por ela. Estamos falando da computação quântica, para onde nossos bits de cada dia caminham a passos largos. Hoje, em grande parte, essa computação é teórica, resolvida em equações complicadíssimas, mas seus processos já estão sendo usados em áreas como cálculo, busca e criptografia.
Mas como é esse tipo de computação? Haverá algum dia um computador quântico semelhante aos nossos PCs de mesa ou notebooks? Existem complicações para chegarmos a isso, porque um computador realmente quântico só funcionaria a contento seguindo as leis da física de partículas, e não sendo jamais perturbado pela natureza. Esse tipo de isolamento total é praticamente impossível, por isso não espere ver um computador quântico na próxima promoção das Casas Bahia.
Por outro lado, a passagem da computação para o mundo sub-sub-submicroscópico é uma questão de tempo. Segundo o físico Jean Faber, especialista no assunto, doutor pelo LNCC (Laboratório Nacional de Computação Científica) e pós-doutorando da COPPE/UFRJ, a lei de Moore também pode ser entendida como o número de átomos necessários para representar um bit.
- Na década de 20 você tinha um monte de átomos para representar um único bit - diz Jean. - Mas com o passar do tempo são necessários cada vez menos átomos para representar um bit. Um dia, um só átomo representará um bit. É o que se espera. E aí teremos que usar a mecânica quântica para manipular esses átomos-bits. Que nada mais serão do que bits quânticos.
A computação quântica desafia a física clássica, em que já estamos acostumados a compreender quase inconscientemente conceitos como gravidade, inércia e etc. Se você balança uma árvore, algo vai cair lá de cima; se bate num carro, ele será empurrado e assim por diante. No mundo quântico, onde estamos falando de elétrons ou pedacinhos deles, tudo é diferente.
No nosso computador de casa ou do trabalho, tudo funciona exatamente como Alan Turing, o inventor do computador clássico, imaginou 70 anos atrás. Todas as tarefas são traduzidas em bits, que obedecem ao velho código binário: ou representam zero, ou representam 1. Tudo o que fazemos no computador pode ser representado por sucessões intermináveis de zeros e uns misturados. Outra coisa: a lógica do PC clássico é chamada de irreversível, porque ela produz um desgaste físico, dissipando calor no processamento - ou seja, a cada operação, perde-se alguma informação na natureza. Por isso nossos PCs precisam de ventiladores em cima do processador.
Segundo Jean, o que diferencia os bits quânticos dos bits clássicos são duas características especiais:
1) Eles podem representar zero, um ou zero e um ao mesmo tempo .
2) Eles podem criar uma ligação entre si de modo que, se um bit for mexido, seu "irmão gêmeo" seja mexido também, mesmo que esteja no Japão ou em outro planeta. É uma espécie de sintonia (chamada emaranhamento quântico). Como se os dois bits fossem um.
Essas loucas propriedades têm um efeito a-b-sur-do na velocidade do computador. Existem contas matemáticas complexas que os PCs clássicos demoram muito a fazer. (Elas, inclusive, são a base da criptografia clássica: você cria uma chave ou senha secreta tão longa que o computador levaria anos para decifrar.) Processos matemáticos como a fatoração de números primos podem levar cem anos para serem concluídos num PC clássico. Com os bits quânticos turbinados e seus estados extras, contas assim podem ser feitas em segundos. A criptografia fica praticamente inviolável. E a busca enxerga mais dados a um só tempo.
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21-08-06
NÃO É SÓ PARA OS TÉCNICOS
André Machado
Distribuições de Linux, existem muitas. Algumas formaram comunidades tão fortemente unidas no Brasil que quando seus mantenedores lá fora têm algum problema, passam a responsabilidade para a turma daqui. É o caso do Slackware, cujos valorosos membros no Brasil, entre eles o analista Bruno Collovini, fazem um trabalho de desenvolvimento tão certeiro que chamam a atenção de seus pares internacionais.
As comunidades open-source de modo geral se destacam pelas características técnicas de seus integrantes, embora isso não seja uma regra. As Linuxchix brasileiras, em geral representadas pela bela e bem-articulada Sulamita Garcia, têm por meta afirmar a participação da mulher no movimento open-source, seja atuando no desenvolvimento ou simplesmente contribuindo como usuárias.
A prova de que não é preciso ser um técnico nem escovar bits para participar de uma comunidade de software aberto talvez esteja na trajetória de David Barzilay, embaixador brasileiro com assento no comitê internacional da distribuição Fedora Core. Curiosamente, a relação de David, publicitário de formação, com o Fedora - coração open-source do código que alimenta o Red Hat Enterprise Linux - começou na longínqua Brisbane, na Austrália. Foi lá que ele começou a trabalhar no projeto de tradução da distribuição para o português do Brasil.
- Dessa maneira, intensifiquei relações com a comunidade Fedora, e as pessoas descobriram que nem só a turma mais técnica pode colaborar com o software aberto - me disse David.
A história toda levou à fundação de uma lista (hoje com quase 300 membros) ligada à tradução de softwares e manuais do Fedora e acabou por transformar David num dos nove embaixadores do comitê global da distribuição - o único brasileiro do grupo. Esses embaixadores ajudam a difundir o uso do Fedora ao redor do mundo e fomentam a criação de comunidades dedicadas a trabalhos variados, desde o desenvolvimento de programas e funções até desenho e tradução de interfaces, por exemplo.
- O comitê se reúne online semanal ou quinzenalmente, sempre via IRC - conta David.
Depois de cinco anos na Austrália, ele está de volta ao Brasil, onde assumiu na Red Hat a gerência de marketing e relacionamento com a comunidade. E se prepara para o lançamento do Fedora 6, marcado para o mês que vem. O destaque do novo Fedora deverão ser suas tecnologias de virtualização, que permitem simular mais de uma CPU no computador e rodar outros sistemas junto com o Linux. Elas terão um gerenciador com interface gráfica. A versão 6 virá com os novíssimos ambientes gráficos para a área de trabalho Gnome 2.16 e KDE 3.5.3, atualizador de pacotes com ícones para informar sobre updates disponíveis e mais recursos para rodar programas em Java. O novo Fedora também poderá rodar nos Macs com processadores Intel.
Para David, o diferencial do Fedora é que boa parte do que é criado para ele entra no seu core, não ficando apenas como um anexo. E o fato de que o sistema é a base do Red Hat Enterprise Linux faz com que ele seja continuamente testado no mundo corporativo, contribuindo para futuras melhorias, num círculo que se realimenta ad aeternum.
&&&
Uma coisa a notar nas séries de ação da TV hoje é o uso cada vez maior da tecnologia nos episódios. Em "24 Horas", seriado da Fox cuja quinta temporada chegou ao fim semana passada, a tendência chega ao ápice. As redes de segurança e monitoramento da unidade contra-terrorismo da série são poderosíssimas e o celular do agente Jack Bauer (vivido por Kiefer Sutherland) só falta baixar santo - recebe até plantas arquitetônicas com uma facilidade estonteante. Haja banda larga sem fio. E a bateria nunca acaba. Por outro lado, os computadores da série "Lost" (do AXN), cuja segunda temporada termina hoje, parecem híbridos de mainframes jurássicos e dos primeiros PCs, com telas pretas, letras verdes e impressões com jeito de matricial. Aliás, as folhas de impressão têm... papel importante no episódio de hoje.
1.10.06

Minha querida Cora Rónai, eu e Alexandre Freire no lançamento do "Como blindar seu PC", na Letras e Expressões do Leblon.
25.9.06
Correndo atrás da divulgação do livro nas últimas semanas. Hoje saiu reportagem no caderno Info etc, do Globo, e foi postada uma entrevista em vídeo na parte de Tecnologia do Globo Online.
Espero todos no lançamento, que será sexta-feira na Letras e Expressões do Leblon, a partir das 19h. O convite pode ser visto aqui.
Espero todos no lançamento, que será sexta-feira na Letras e Expressões do Leblon, a partir das 19h. O convite pode ser visto aqui.
6.9.06

Atenção, moçada!
Vem aí meu novo livro, escrito em parceria com o super-expert em segurança da informação Alexandre Freire. Olha a capa aí em cima. Está quase saindo do prelo. Mas já tem site, inclusive com links para compras antecipadas. Fica aqui, e e está quase pronto, faltando alguns detalhes. O Alexandre construiu todo o site, com muito capricho.
O lançamento será dia 29 de setembro, na Letras e Expressões do Leblon. Boto o convite aqui quando chegar mais perto.




Mais fotos de Berlim: na escadaria do Reichstag (hoje Bundestag); a catedral da cidade, a Berliner Dom, e sua cúpula vista de dentro (acima); e o monumento aos escritores do país.
Outras fotos, no Cadafalso I.
20.8.06
Minicontos do desconforto -- 85
Sonhou viajar no tempo para pedi-la em namoro de novo, para espantar o mofo do casamento. Aí um dia acordou vinte anos antes, na velha cama no apartamento dos pais. Olhou o relógio: estava quase na hora. Vestiu-se correndo, pegou suas coisas e tomou o ônibus para o bar onde a conheceria.
E ela estava lá, num vestido amarelo, as pernas lindas e longilíneas, exatamente como a vira pela primeira vez. Lembrou-se que estava com um amigo e tinha bebido um bocado de chopes antes de ela passar por sua mesa e pedir-lhe fósforos. Ligou para o amigo. Ele estava em casa, e não demorou a chegar.
Estava tudo pronto.
Então, quando ela passou, de pilequinho, pedindo os fósforos, percebeu que os esquecera junto com o maço de cigarros em cima da escrivaninha. Tentou responder qualquer outra coisa, mas era tarde -- ela se fora.
Passou os vintes anos seguintes sozinho e virou um rabugento já na meia-idade.
Sonhou viajar no tempo para pedi-la em namoro de novo, para espantar o mofo do casamento. Aí um dia acordou vinte anos antes, na velha cama no apartamento dos pais. Olhou o relógio: estava quase na hora. Vestiu-se correndo, pegou suas coisas e tomou o ônibus para o bar onde a conheceria.
E ela estava lá, num vestido amarelo, as pernas lindas e longilíneas, exatamente como a vira pela primeira vez. Lembrou-se que estava com um amigo e tinha bebido um bocado de chopes antes de ela passar por sua mesa e pedir-lhe fósforos. Ligou para o amigo. Ele estava em casa, e não demorou a chegar.
Estava tudo pronto.
Então, quando ela passou, de pilequinho, pedindo os fósforos, percebeu que os esquecera junto com o maço de cigarros em cima da escrivaninha. Tentou responder qualquer outra coisa, mas era tarde -- ela se fora.
Passou os vintes anos seguintes sozinho e virou um rabugento já na meia-idade.
19.8.06
8.8.06
3.8.06
26.7.06
Minhas três colunas mais recentes no Info Etc.
De 24 de julho:
TECNOLOGIA É SÓ UM MEIO
André Machado
Proferi este mês uma conferência sobre tecnologia e comportamento no Business Club One, no Centro do Rio. Aproveitei para relembrar a época em que escrevia estas mal traçadas nas chamadas máquinas "de tração animal", ou máquinas de escrever. Como o computador mudou nossas vidas desde então! Entre o momento em que a notícia surge e o momento em que chega ao leitor, hoje o intervalo de tempo é quase inexistente. A vertiginosidade em que vivemos envolvidos nesta era de pouca reflexão me fez pensar no papel da tecnologia e o que ela representa para nós, personagens e testemunhas da Revolução da Informação.
Na conferência, eu disse que uma coisa a lembrar quando falamos de tecnologia é que ela não pode ser transformada em vida. O que quero dizer com isso? Que toda tecnologia é um meio para se chegar a um fim, nunca o fim em si. A internet é a maior ferramenta de comunicação jamais criada pelo homem, mas ainda assim permanece uma ferramenta. Embora haja nela mundos virtuais onde podemos viver vidas diferentes das nossas, como um role playing game (RPG) em tempo real, elas permanecem virtuais; a vida real, por seu lado, é bem outra coisa.
Um fenômeno recente que vejo se abater sobre muitas pessoas é a mania de filmar e fotografar tudo o tempo todo. A facilidade cada vez maior de acesso a câmeras digitais, em máquinas fotográficas propriamente ditas ou em PDAs e telefones celulares, criou uma obsessão com o registro ao vivo de tudo e de todos. Ouso dizer que, se isso continuar assim, dentro de algumas décadas não precisaremos mais de nossa memória inata. Porque as pessoas estão se esquecendo de olhar as coisas com seus próprios olhos e preferem a eles a realidade das lentes digitais. Ninguém mais pára para apreciar um crepúsculo, para observar as emoções dos convidados de uma discreta cerimônia de casamento. Não; todos levantam suas câmeras e telefones celulares e fotografam sem parar, deixando de acompanhar o momento e depois elaborando-o na própria memória, que é, ao menos para este humilde escriba, parte do que faz a História com H maiúsculo ser escrita.
A tecnologia deve ter o lugar que merece em nossas vidas: o de utilidade. Certamente ela ajuda a mudar comportamentos e gerar novas formas de organização, mas ainda assim o faz como uma ferramenta. E, de qualquer forma, encantar-se com uma tecnologia específica e aferrar-se a ela é, na prática, viver no passado, porque as tecnologias mudam o tempo todo, ainda mais agora. André Kischinevsky, diretor do Infnet, tem a teoria de que no futuro todas as coisas serão virtuais, e que não haverá mais objetos, apenas formas impalpáveis 3D e redes neurais conectadas a a elas.
Apesar desse caminho em busca do virtual, a vida real continua a ser bem mais do que zeros e uns, sim ou não, preto ou branco. É por isso que se estuda, no Massachusetts Institute of Technology e em outros lugares, a chamada computação afetiva, que quer ensinar sistemas de informação a entenderem melhor as reações humanas, e a se comportarem de acordo com elas.
A computação afetiva quer criar uma relação mais íntima com o usuário. Porque, em última análise, são as máquinas que realmente têm que nos entender, e não o contrário. A chamada usabilidade de sistemas e programas ainda tem um longo caminho pela frente. Eu sempre digo que, quando tivermos com o computador a intimidade que temos com a televisão e a geladeira, nossos problemas acabarão.
Contudo, depois de refletir sobre esses temas, fui à exposição Interface Cibernética (veja a capa) em São Paulo e percebi que, ao menos no campo da arte, os bits e bytes estão virando mais do que ferramentas; eles podem se transformar nas próprias obras de arte, em certo grau. Os artistas - sempre à frente de seus contemporâneos, em todas as épocas - perceberam que a relação de utilidade com a tecnologia poderia ser subvertida e não hesitaram em criar obras e instalações para celebrar novos relacionamentos entre nós e o software, o hardware e tudo em que podem se transformar. Vai dar uma nova conferência, sem dúvida.
* * *
De 26 de junho:
OS CAPOEIRA COMMONS
André Machado
Em 2003, cobri o evento iLaw, que trouxe ao Rio alguns próceres do meio acadêmico americano e os fundadores do Creative Commons, movimento criado em 2002 pelo professor Lawrence Lessig, da Universidade de Stanford, com vistas a flexibilizar formas de direito autoral com licenças alternativas ao velho copyright. O evento atraiu poucos jornalistas, mas foi um divisor de águas para quem está de olho na evolução da vida digital. Agora, no fim de semana, acabou de acontecer também no Rio o iSummit, evento máximo da turma dos Creative Commons. E dessa vez veio gente do mundo inteiro - 49 países estavam representados no evento, que atraiu 70 jornalistas de diversas procedências. E o mundo Creative Commons não é mais alternativo. Virou mainstream. Na abertura do iSummit, o mesmo Lawrence Lessig contou que de seis meses para cá as licenças Creative Commons (CC) ultrapassaram 140 milhões no planeta (a última estatística dava conta de 53 milhões). A maior parte ainda consiste em textos e blogs com conteúdo compartilhado mais livremente, e em segundo lugar estão as imagens - são mais de 50 milhões com licenças CC só no Flicker.
A coisa está fervendo tanto que a própria Microsoft já criou uma opção no Office para apor uma licença Creative Commons num documento (do Word, por exemplo). E existem várias ramificações do movimento na internet, cada vez mais fazendo de quem consome conteúdo seu próprio autor.
- Na verdade, as pessoas não querem mais só consumir; querem interagir, compartilhar, improvisar coisas - disse Joi Ito, presidente do iCommons, entidade que e fomenta comunidades CC colaborativas.
Uma das ramificações é a Revver, onde se pode criar vídeos em licenças CC e garantir que o autor receba um "dindim" toda vez que o vídeo é assistido (de graça) na web. Isso é feito através de uma tag que monitora o vídeo na rede, e o dinheiro vem via acordos com anunciantes, dividido meio a meio entre site e autor. As Dixie Chicks, nos EUA, já fizeram um vídeo "revverizado".
Outro projeto é o Dotsub.com, que permite legendar filmes compartilháveis em qualquer idioma, com ferramentas adaptadas a browser fornecidas pelo próprio site. E tem ainda o Eyespot, com uma trilha de vídeo online que se pode misturar os frames à vontade, criando um filme com licença alternativa no fim do processo.
O Brasil não está de fora desse processo. Aqui, o Creative Commons é capitaneado pelo advogado Ronaldo Lemos, do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV. E o ministro da Cultura, Gilberto Gil, é o artista brasileiro mais antenado com a nova realidade dos direitos autorais. No evento, ele reafirmou a intenção do governo de atualizar e modernizar as leis sobre propriedade intelectual no país, que segundo Ronaldo vão muito além do que a OMC pede e protegem os interesses privados.
- A Índia usou a flexibilidade dos acordos que a OMC prevê sobre o tema para atrasar a criação de patentes nocivas para o país e hoje tem a maior indústria de remédios genéricos do mundo. Aqui, a lei é muito mais conservadora - disse.
Gil, que mesmo político fala como artista e intelectual que é, evocou Fernando Pessoa e seus heterônimos para fazer uma metáfora da multiplicidade do ciberespaço e comparou a nova era que vivemos ao jogo de capoeira, cujos movimentos mudam o tempo todo e onde de repente um perdedor pode conquistar vitórias.
- Talvez porque eu seja de Salvador, um porto, onde os mundos e as culturas se encontram, quero conectar as diferentes idéias e fazer o mundo vibrar como um berimbau - disse, lembrando que o tropicalismo tem tudo a ver com essa onda.
É certo que ainda veremos muita água rolar debaixo da ponte, até porque somos um país em desenvolvimento, e temos de vencer primeiro a barreira da inclusão digital e levar tecnologia a todos antes de poder converter a mentalidade do establishment. Mas é um consolo perceber que cabeças pensantes do Brasil saem na frente e apreendem a necessidade de jogo de cintura quando se trata do universo da internet. Talvez seja lícito chamá-las de "capoeira commons".
* * *
De 29 de maio:
LINUXWORLD: NA CASA DOS PINGÜINS
André Machado
Aconteceu semana passada em Sampa a primeira LinuxWorld brasileira. Este é o grande evento do mundo open source, enquanto o FISL (Fórum Internacional Software Livre) de Porto Alegre é o grande evento do software livre. Explico: embora os dois conceitos tenham interseções, o mundo open source é mais centrado na tecnologia em si, em criar sistemas e programas melhores (e de código aberto), enquanto os paladinos do software livre pensam em mudar o mundo, idealizando uma sociedade mais justa em que um dos primeiros passos seria o compartilhamento da informação.
O que um Richard Stallman, da Fundação Software Livre, tem de inflexível, o mentor do mundo open source, John "Maddog" Hall, presidente da Linux International, tem de político. Maddog pode ser considerado o grande embaixador do Linux (ou GNU/Linux) no planeta, já que o criador do sistema, Linus Torvalds, é um tanto tímido, especialmente em sua relação com a mídia.
Maddog fez um dos melhores keynotes do evento - que estava repleto de executivos e pesos-pesados de Intel, IBM, Red Hat, HP, Itautec, Novell, além de vários projetos Linux: Debian, Mandriva, BrOffice, 4Linux e muitos outros. Com mais de dois mil visitantes, a LinuxWorld provou que o sistema representado pelo pingüim Tux está crescidinho e chama a atenção do mercado.
Mas voltemos ao Maddog. Ele comentou que vai transformar a Linux International numa associação mais voltada para usuários finais e programadores do que para empresas.
- As empresas certamente ajudam a impulsionar o open source, mas também se preocupam com seus negócios - me disse Maddog. - Os usuários entram nessa porque realmente têm interesse, gostam da coisa. E é isso o que o software livre e aberto é, em última análise.
Do alto de suas barbas brancas, o veterano programador lembrou o quanto estamos viciados em nomes de soluções e esquecemos para o que elas servem. É o equivalente a chamar "fotocópia" de "xerox".
- Não diga que você precisa do produto de uma empresa X - sentenciou ele. - Diga que precisa de um software para editar texto ou fazer um banco de dados.
Ele não pregou a troca de sistema pela troca de sistema. Disse que "se você tem um sistema trabalhando bem, não o converta". E lembrou que se pode começar comendo pelas beiradas (no caso das empresas, em novos projetos), com programas abertos. Estão aí Evolution, OpenOffice e Gimp, só para citar alguns.
Outro destaque do evento foi a Red Hat, que anunciou oficialmente o início de suas operações no país e contratou o mantenedor do kernel do Linux, Marcelo Tosatti. Tosatti será responsável por adaptar o Linux para o laptop de US$100 do Nicholas Negroponte, em que a Red Hat investe.
- Minha tarefa será tornar a interface mais simples e mais fácil que a dos desktops - contou ele.
Uma interface mais fácil para os usuários é realmente o grande desafio do Linux para o desktop. Esse desktop deve chegar primeiro nas estações de trabalho. Por exemplo, pelas mãos da Novell, que lançou a versão 10 de seu Suse Linux Enterprise. Poderoso, o sistema comporta vídeo e gerenciamento avançado de arquivos e janelas - em dado momento da demo, Guy Lunardi, gerente de produto da Novell, abriu seis janelas e arrumou-as numa espécie de cubo mágico, que podia ser manipulado à vontade. Bom, à vontade no notebook de Guy, com 1Gb de memória...
Para o usuário final, mesmo, a grande aposta presente no evento era a nacional Insigne, que tem um Linux montado para facilitar a vida de quem nunca viu um pingüim. É o Linux que mais anda por aí nos computadores do varejo, inclusive os usados no projeto de computador popular no governo. A Insigne rearrumou a janela Comece Aqui, presente no Linux, e levou os ícones dos programas básicos para dentro dela. A empresa criou agora uma versão "live"do Insigne, que vou testar.
Por fim, a porção mulher do Tux está crescendo. As meninas do movimento LinuxChix.Br, que mexem com o sistema, já são mais de 300 e têm encontro marcado em Florianópolis, em setembro.
De 24 de julho:
TECNOLOGIA É SÓ UM MEIO
André Machado
Proferi este mês uma conferência sobre tecnologia e comportamento no Business Club One, no Centro do Rio. Aproveitei para relembrar a época em que escrevia estas mal traçadas nas chamadas máquinas "de tração animal", ou máquinas de escrever. Como o computador mudou nossas vidas desde então! Entre o momento em que a notícia surge e o momento em que chega ao leitor, hoje o intervalo de tempo é quase inexistente. A vertiginosidade em que vivemos envolvidos nesta era de pouca reflexão me fez pensar no papel da tecnologia e o que ela representa para nós, personagens e testemunhas da Revolução da Informação.
Na conferência, eu disse que uma coisa a lembrar quando falamos de tecnologia é que ela não pode ser transformada em vida. O que quero dizer com isso? Que toda tecnologia é um meio para se chegar a um fim, nunca o fim em si. A internet é a maior ferramenta de comunicação jamais criada pelo homem, mas ainda assim permanece uma ferramenta. Embora haja nela mundos virtuais onde podemos viver vidas diferentes das nossas, como um role playing game (RPG) em tempo real, elas permanecem virtuais; a vida real, por seu lado, é bem outra coisa.
Um fenômeno recente que vejo se abater sobre muitas pessoas é a mania de filmar e fotografar tudo o tempo todo. A facilidade cada vez maior de acesso a câmeras digitais, em máquinas fotográficas propriamente ditas ou em PDAs e telefones celulares, criou uma obsessão com o registro ao vivo de tudo e de todos. Ouso dizer que, se isso continuar assim, dentro de algumas décadas não precisaremos mais de nossa memória inata. Porque as pessoas estão se esquecendo de olhar as coisas com seus próprios olhos e preferem a eles a realidade das lentes digitais. Ninguém mais pára para apreciar um crepúsculo, para observar as emoções dos convidados de uma discreta cerimônia de casamento. Não; todos levantam suas câmeras e telefones celulares e fotografam sem parar, deixando de acompanhar o momento e depois elaborando-o na própria memória, que é, ao menos para este humilde escriba, parte do que faz a História com H maiúsculo ser escrita.
A tecnologia deve ter o lugar que merece em nossas vidas: o de utilidade. Certamente ela ajuda a mudar comportamentos e gerar novas formas de organização, mas ainda assim o faz como uma ferramenta. E, de qualquer forma, encantar-se com uma tecnologia específica e aferrar-se a ela é, na prática, viver no passado, porque as tecnologias mudam o tempo todo, ainda mais agora. André Kischinevsky, diretor do Infnet, tem a teoria de que no futuro todas as coisas serão virtuais, e que não haverá mais objetos, apenas formas impalpáveis 3D e redes neurais conectadas a a elas.
Apesar desse caminho em busca do virtual, a vida real continua a ser bem mais do que zeros e uns, sim ou não, preto ou branco. É por isso que se estuda, no Massachusetts Institute of Technology e em outros lugares, a chamada computação afetiva, que quer ensinar sistemas de informação a entenderem melhor as reações humanas, e a se comportarem de acordo com elas.
A computação afetiva quer criar uma relação mais íntima com o usuário. Porque, em última análise, são as máquinas que realmente têm que nos entender, e não o contrário. A chamada usabilidade de sistemas e programas ainda tem um longo caminho pela frente. Eu sempre digo que, quando tivermos com o computador a intimidade que temos com a televisão e a geladeira, nossos problemas acabarão.
Contudo, depois de refletir sobre esses temas, fui à exposição Interface Cibernética (veja a capa) em São Paulo e percebi que, ao menos no campo da arte, os bits e bytes estão virando mais do que ferramentas; eles podem se transformar nas próprias obras de arte, em certo grau. Os artistas - sempre à frente de seus contemporâneos, em todas as épocas - perceberam que a relação de utilidade com a tecnologia poderia ser subvertida e não hesitaram em criar obras e instalações para celebrar novos relacionamentos entre nós e o software, o hardware e tudo em que podem se transformar. Vai dar uma nova conferência, sem dúvida.
* * *
De 26 de junho:
OS CAPOEIRA COMMONS
André Machado
Em 2003, cobri o evento iLaw, que trouxe ao Rio alguns próceres do meio acadêmico americano e os fundadores do Creative Commons, movimento criado em 2002 pelo professor Lawrence Lessig, da Universidade de Stanford, com vistas a flexibilizar formas de direito autoral com licenças alternativas ao velho copyright. O evento atraiu poucos jornalistas, mas foi um divisor de águas para quem está de olho na evolução da vida digital. Agora, no fim de semana, acabou de acontecer também no Rio o iSummit, evento máximo da turma dos Creative Commons. E dessa vez veio gente do mundo inteiro - 49 países estavam representados no evento, que atraiu 70 jornalistas de diversas procedências. E o mundo Creative Commons não é mais alternativo. Virou mainstream. Na abertura do iSummit, o mesmo Lawrence Lessig contou que de seis meses para cá as licenças Creative Commons (CC) ultrapassaram 140 milhões no planeta (a última estatística dava conta de 53 milhões). A maior parte ainda consiste em textos e blogs com conteúdo compartilhado mais livremente, e em segundo lugar estão as imagens - são mais de 50 milhões com licenças CC só no Flicker.
A coisa está fervendo tanto que a própria Microsoft já criou uma opção no Office para apor uma licença Creative Commons num documento (do Word, por exemplo). E existem várias ramificações do movimento na internet, cada vez mais fazendo de quem consome conteúdo seu próprio autor.
- Na verdade, as pessoas não querem mais só consumir; querem interagir, compartilhar, improvisar coisas - disse Joi Ito, presidente do iCommons, entidade que e fomenta comunidades CC colaborativas.
Uma das ramificações é a Revver, onde se pode criar vídeos em licenças CC e garantir que o autor receba um "dindim" toda vez que o vídeo é assistido (de graça) na web. Isso é feito através de uma tag que monitora o vídeo na rede, e o dinheiro vem via acordos com anunciantes, dividido meio a meio entre site e autor. As Dixie Chicks, nos EUA, já fizeram um vídeo "revverizado".
Outro projeto é o Dotsub.com, que permite legendar filmes compartilháveis em qualquer idioma, com ferramentas adaptadas a browser fornecidas pelo próprio site. E tem ainda o Eyespot, com uma trilha de vídeo online que se pode misturar os frames à vontade, criando um filme com licença alternativa no fim do processo.
O Brasil não está de fora desse processo. Aqui, o Creative Commons é capitaneado pelo advogado Ronaldo Lemos, do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV. E o ministro da Cultura, Gilberto Gil, é o artista brasileiro mais antenado com a nova realidade dos direitos autorais. No evento, ele reafirmou a intenção do governo de atualizar e modernizar as leis sobre propriedade intelectual no país, que segundo Ronaldo vão muito além do que a OMC pede e protegem os interesses privados.
- A Índia usou a flexibilidade dos acordos que a OMC prevê sobre o tema para atrasar a criação de patentes nocivas para o país e hoje tem a maior indústria de remédios genéricos do mundo. Aqui, a lei é muito mais conservadora - disse.
Gil, que mesmo político fala como artista e intelectual que é, evocou Fernando Pessoa e seus heterônimos para fazer uma metáfora da multiplicidade do ciberespaço e comparou a nova era que vivemos ao jogo de capoeira, cujos movimentos mudam o tempo todo e onde de repente um perdedor pode conquistar vitórias.
- Talvez porque eu seja de Salvador, um porto, onde os mundos e as culturas se encontram, quero conectar as diferentes idéias e fazer o mundo vibrar como um berimbau - disse, lembrando que o tropicalismo tem tudo a ver com essa onda.
É certo que ainda veremos muita água rolar debaixo da ponte, até porque somos um país em desenvolvimento, e temos de vencer primeiro a barreira da inclusão digital e levar tecnologia a todos antes de poder converter a mentalidade do establishment. Mas é um consolo perceber que cabeças pensantes do Brasil saem na frente e apreendem a necessidade de jogo de cintura quando se trata do universo da internet. Talvez seja lícito chamá-las de "capoeira commons".
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De 29 de maio:
LINUXWORLD: NA CASA DOS PINGÜINS
André Machado
Aconteceu semana passada em Sampa a primeira LinuxWorld brasileira. Este é o grande evento do mundo open source, enquanto o FISL (Fórum Internacional Software Livre) de Porto Alegre é o grande evento do software livre. Explico: embora os dois conceitos tenham interseções, o mundo open source é mais centrado na tecnologia em si, em criar sistemas e programas melhores (e de código aberto), enquanto os paladinos do software livre pensam em mudar o mundo, idealizando uma sociedade mais justa em que um dos primeiros passos seria o compartilhamento da informação.
O que um Richard Stallman, da Fundação Software Livre, tem de inflexível, o mentor do mundo open source, John "Maddog" Hall, presidente da Linux International, tem de político. Maddog pode ser considerado o grande embaixador do Linux (ou GNU/Linux) no planeta, já que o criador do sistema, Linus Torvalds, é um tanto tímido, especialmente em sua relação com a mídia.
Maddog fez um dos melhores keynotes do evento - que estava repleto de executivos e pesos-pesados de Intel, IBM, Red Hat, HP, Itautec, Novell, além de vários projetos Linux: Debian, Mandriva, BrOffice, 4Linux e muitos outros. Com mais de dois mil visitantes, a LinuxWorld provou que o sistema representado pelo pingüim Tux está crescidinho e chama a atenção do mercado.
Mas voltemos ao Maddog. Ele comentou que vai transformar a Linux International numa associação mais voltada para usuários finais e programadores do que para empresas.
- As empresas certamente ajudam a impulsionar o open source, mas também se preocupam com seus negócios - me disse Maddog. - Os usuários entram nessa porque realmente têm interesse, gostam da coisa. E é isso o que o software livre e aberto é, em última análise.
Do alto de suas barbas brancas, o veterano programador lembrou o quanto estamos viciados em nomes de soluções e esquecemos para o que elas servem. É o equivalente a chamar "fotocópia" de "xerox".
- Não diga que você precisa do produto de uma empresa X - sentenciou ele. - Diga que precisa de um software para editar texto ou fazer um banco de dados.
Ele não pregou a troca de sistema pela troca de sistema. Disse que "se você tem um sistema trabalhando bem, não o converta". E lembrou que se pode começar comendo pelas beiradas (no caso das empresas, em novos projetos), com programas abertos. Estão aí Evolution, OpenOffice e Gimp, só para citar alguns.
Outro destaque do evento foi a Red Hat, que anunciou oficialmente o início de suas operações no país e contratou o mantenedor do kernel do Linux, Marcelo Tosatti. Tosatti será responsável por adaptar o Linux para o laptop de US$100 do Nicholas Negroponte, em que a Red Hat investe.
- Minha tarefa será tornar a interface mais simples e mais fácil que a dos desktops - contou ele.
Uma interface mais fácil para os usuários é realmente o grande desafio do Linux para o desktop. Esse desktop deve chegar primeiro nas estações de trabalho. Por exemplo, pelas mãos da Novell, que lançou a versão 10 de seu Suse Linux Enterprise. Poderoso, o sistema comporta vídeo e gerenciamento avançado de arquivos e janelas - em dado momento da demo, Guy Lunardi, gerente de produto da Novell, abriu seis janelas e arrumou-as numa espécie de cubo mágico, que podia ser manipulado à vontade. Bom, à vontade no notebook de Guy, com 1Gb de memória...
Para o usuário final, mesmo, a grande aposta presente no evento era a nacional Insigne, que tem um Linux montado para facilitar a vida de quem nunca viu um pingüim. É o Linux que mais anda por aí nos computadores do varejo, inclusive os usados no projeto de computador popular no governo. A Insigne rearrumou a janela Comece Aqui, presente no Linux, e levou os ícones dos programas básicos para dentro dela. A empresa criou agora uma versão "live"do Insigne, que vou testar.
Por fim, a porção mulher do Tux está crescendo. As meninas do movimento LinuxChix.Br, que mexem com o sistema, já são mais de 300 e têm encontro marcado em Florianópolis, em setembro.
21.7.06
Vi a exposição do Degas, no MASP. Muito bem montada. Mas o mais legal foram as gravuras indecentes que Picasso fez de prostitutas aprontando o diabo enquanto o Degas, um tímido, observava de um canto, sempre com olhar espantado. A série foi batizada de "Degas voyeur" e é sensacional.
Também aproveitei para curtir o acervo do museu. A tela de Corot que retrata uma cigana com bandolim me hipnotizou.
Também aproveitei para curtir o acervo do museu. A tela de Corot que retrata uma cigana com bandolim me hipnotizou.
Li a biografia de D. Pedro I escrita com leveza e maestria pela Isabel Lustosa. O imperador é descrito por ela como a verdadeira identidade de Macunaíma, o herói sem caráter. Mas, apesar das muitas vaciladas, deu ao Brasil a Independência, manteve-o coeso e ainda conseguiu derrotar o irmão usurpador em Portugal e botar sua filha no trono. E tudo isso num espaço de 12 anos, entre 1822 e 1834. Consumiu-se rápido, o homem, morrendo com 36 anos no mesmo quarto onde nascera.
É impossível parar de ler o livro. O personagem é muito fascinante. Mas dá para perceber que os verdadeiros estadistas ao lado dele eram José Bonifácio e D. Leopoldina. Se tivessem assegurado maior influência sobre D. Pedro, nossa história seria diferente. E talvez o Primeiro Reinado não tivesse acabado tão rápido.
É impossível parar de ler o livro. O personagem é muito fascinante. Mas dá para perceber que os verdadeiros estadistas ao lado dele eram José Bonifácio e D. Leopoldina. Se tivessem assegurado maior influência sobre D. Pedro, nossa história seria diferente. E talvez o Primeiro Reinado não tivesse acabado tão rápido.
6.7.06
30.6.06
28.6.06
Estou relendo o "Retrato de Mr. W. H.", de Oscar Wilde. A história-ensaio gira em torno da identidade misteriosa do W.H. do título, a quem os sonetos de Shakespeare teriam sido dedicados.
Wilde escreveu o texto e, alguns anos depois, ampliou-o. O manuscrito original sumiu no leilão que se seguiu a sua prisão, em 1895, em Londres, e reapareceu décadas depois nos Estados Unidos. A versão ampliada foi publicada em suas obras completas.
Wilde escreveu o texto e, alguns anos depois, ampliou-o. O manuscrito original sumiu no leilão que se seguiu a sua prisão, em 1895, em Londres, e reapareceu décadas depois nos Estados Unidos. A versão ampliada foi publicada em suas obras completas.
24.6.06
23.6.06
15.6.06
11.6.06
10.6.06
9.6.06
Meu violão e minha guitarra estão encostados há um bom tempo num canto da sala lá de casa; é como uma parte adormecida de minha existência. E meus parceiros favoritos de som, Maloca e Gustones, andam longe e tão cheios de trabalho como eu. Assim que terminar meu novo livro techie, este mês, vou tentar armar uma reunião do Aerosilva. Viver sem rock e rhythm and blues é um pecado capital para um fiel dos três acordes como eu.
É como canta o David Coverdale:
Give me a rock an' roll band
With a mean an' dirty blues guitar!
E também:
I got a juke box heart
Full of honky tonk rhythm an' blues!
É como canta o David Coverdale:
Give me a rock an' roll band
With a mean an' dirty blues guitar!
E também:
I got a juke box heart
Full of honky tonk rhythm an' blues!
26.5.06
Eu parei para ver, outro dia, o documentário do Scorsese sobre Bob Dylan, "No Direction Home". É absolutamente sensacional. Imperdível, mesmo com quase três horas de projeção. Ajuda a entender um pouco os anos 60 nos EUA, o auge do Village em Nova York... Tem os beats falando, Allen Ginsberg, por exemplo. E o próprio Dylan pontuando entre as seqüências históricas e musicais.
Uma porrada. E tem os primeiros shows de Dylan com a The Band, afiadíssima. A guitarra de Robbie Robertson esmerilhada, os solos como uma relação sexual prestes a chegar ao orgasmo.
E todo mundo vaiando, dizendo que Dylan eram um judas por largar o folk acústico e cair de boca na eletricidade. O artista foi corajoso ao romper com o que estava ficando meio estereotipado e abraçar um novo caminho. Todo artista tem que ter essa coragem. Mas poucos, depois que fazem sucesso e ganham dinheiro, têm.
E é como alguém no documentário fala: nos anos 60, não era a indústria que fazia o artista. O que ele tinha a dizer realmente importava.
Mas hoje, com a vida digital e a cultura livre, as vozes independentes se fazem ouvir uma vez mais. Se por um lado a tecnologia impulsiona a "música" eletrônica (à qual tenho horror, porque fere minha formação musical), por outro cria alternativas de edição e publicação. É um consolo.
Uma porrada. E tem os primeiros shows de Dylan com a The Band, afiadíssima. A guitarra de Robbie Robertson esmerilhada, os solos como uma relação sexual prestes a chegar ao orgasmo.
E todo mundo vaiando, dizendo que Dylan eram um judas por largar o folk acústico e cair de boca na eletricidade. O artista foi corajoso ao romper com o que estava ficando meio estereotipado e abraçar um novo caminho. Todo artista tem que ter essa coragem. Mas poucos, depois que fazem sucesso e ganham dinheiro, têm.
E é como alguém no documentário fala: nos anos 60, não era a indústria que fazia o artista. O que ele tinha a dizer realmente importava.
Mas hoje, com a vida digital e a cultura livre, as vozes independentes se fazem ouvir uma vez mais. Se por um lado a tecnologia impulsiona a "música" eletrônica (à qual tenho horror, porque fere minha formação musical), por outro cria alternativas de edição e publicação. É um consolo.
5.5.06
Minicontos do desconforto -- 84
Tudo, absolutamente tudo nela era um clichê. Era insuportável vê-la falar frases inteiras chupadas da boca de gente medíocre, de livros medíocres, de filmes medíocres, de atores medíocres, de músicos medíocres, de namorados medíocres, de livros de auto-ajuda (chamá-los de medíocres é redundância).
Ele não agüentou. Um dia, resolveu telefonar para a Casa Branca.
-- George W., eu sei onde estão as armas de destruição em massa que vocês não encontraram no Iraque. Ah, sim, sei que era tudo mentira, mas no fim das contas elas existem aqui, insuspeitadamente. Manda uma força-tarefa aqui pro Rio de Janeiro, no condomínio *** na Barra.
-- Well, sir, but... armas num condomínio?
-- São armas de destruição em massa de paciência.
Tudo, absolutamente tudo nela era um clichê. Era insuportável vê-la falar frases inteiras chupadas da boca de gente medíocre, de livros medíocres, de filmes medíocres, de atores medíocres, de músicos medíocres, de namorados medíocres, de livros de auto-ajuda (chamá-los de medíocres é redundância).
Ele não agüentou. Um dia, resolveu telefonar para a Casa Branca.
-- George W., eu sei onde estão as armas de destruição em massa que vocês não encontraram no Iraque. Ah, sim, sei que era tudo mentira, mas no fim das contas elas existem aqui, insuspeitadamente. Manda uma força-tarefa aqui pro Rio de Janeiro, no condomínio *** na Barra.
-- Well, sir, but... armas num condomínio?
-- São armas de destruição em massa de paciência.
28.4.06
26.4.06
17.4.06
Trilha sonora de hoje:
Riders on the storms (Doors)
Rain (Cult)
Crying in the rain (Whitesnake)
Rainy days and mondays (Carpenters)
Chove Chuva (Jorge Ben Jor)
Chuva de prata (Gal)
Raindrops keep falling on my head (Burt Bacharach)
Lágrimas e chuva (Kid Abelha)
In the eye of the storm (Roger Hodgson)
The rain song (Led Zeppelin)
Riders on the storms (Doors)
Rain (Cult)
Crying in the rain (Whitesnake)
Rainy days and mondays (Carpenters)
Chove Chuva (Jorge Ben Jor)
Chuva de prata (Gal)
Raindrops keep falling on my head (Burt Bacharach)
Lágrimas e chuva (Kid Abelha)
In the eye of the storm (Roger Hodgson)
The rain song (Led Zeppelin)
13.4.06
Um filme bom é aquele que você vê várias vezes e, a cada sessão, descobre um ângulo diferente na história. Ontem revi "Closer", filme de que gostei muito, e desta vez fiquei com a nítida impressão de que o dermatologista interpretado (magistralmente) por Clive Owen consegue manipular direitinho os outros três personagens do filme (interpretados por Julia Roberts, Natalie Portman e Jude Law).
Também é de Owen uma das melhores frases do filme. Respondendo à acusação de Law de que é frio e vê o coração humano apenas como um diagrama, o médico responde na lata algo como: "seu babaca, você já viu um coração humano? Parece um punho fechado, coberto de sangue!"
Uma coisa não mudou, entretanto, em "Closer". Natalie Portman rouba o filme e está um Tesão, assim, com T maiúsculo mesmo. A fala de sua personagem na exposição de fotos dizendo que as pessoas fotografadas estão todas tristes, mas as fotos tornam tudo bonito e é isso que importa para os "apreciadores idiotas de arte", evidenciando a relação meio que de sanguessuga entre a problemática personagem de Julia Roberts e os objetos de suas lentes, também é uma porrada.
Também é de Owen uma das melhores frases do filme. Respondendo à acusação de Law de que é frio e vê o coração humano apenas como um diagrama, o médico responde na lata algo como: "seu babaca, você já viu um coração humano? Parece um punho fechado, coberto de sangue!"
Uma coisa não mudou, entretanto, em "Closer". Natalie Portman rouba o filme e está um Tesão, assim, com T maiúsculo mesmo. A fala de sua personagem na exposição de fotos dizendo que as pessoas fotografadas estão todas tristes, mas as fotos tornam tudo bonito e é isso que importa para os "apreciadores idiotas de arte", evidenciando a relação meio que de sanguessuga entre a problemática personagem de Julia Roberts e os objetos de suas lentes, também é uma porrada.
7.4.06
6.4.06
Verissimo sempre enfia a ponta de sua caneta na veia. Da sua coluna de hoje:
"(...) Os que hoje propõem a 'flexibilização' dos direitos dos trabalhadores conquistados em anos de luta (como os que os franceses hoje defendem nas ruas de Paris) babariam com o que veriam no século XIX: homens, mulheres e crianças trabalhando 15 horas por dia, sem qualquer amparo, e sem qualquer encargo legal ou moral, fora os magros salários, para seus empregadores."
Aqui no Brasil, onde o capitalismo ainda é totalmente selvagem, esse blablablá de livre negociação, fim de carteira assinada, contratos temporários, enfim, a tal flexibilização, tudo isso é conversa para boi dormir: as palavras elegantes escondem a involução das conquistas sociais, a regressão à barbárie (como se já não tivéssemos barbárie suficiente no país) e mais, mais, mais dinheiro para a turma já endinheirada, que nos olha de cima como se não passássemos de um monte de merda.
Eu esperava do atual governo, no mínimo, uma política salarial, coerente com o que o partido pregou ao longo de duas décadas. Mas os bancos nunca lucraram tanto, a galera da especulação financeira nunca esteve tão bem e nós, assalariados, somos como párias dentro de nosso próprio país. É uma vergonha!
E isso tudo sem falar da corrupção. Que, se não é nova e vem de outros governos (o que não a torna menos que inaceitável) é absolutamente imperdoável para quem sempre se proclamou sacerdotisa da ética.
Eu mal posso esperar a hora da eleição. Que os traidores do povo tenham seu próprio cadafalso dentro das urnas.
Eu não vou anular meu voto, que é minha única arma.
"(...) Os que hoje propõem a 'flexibilização' dos direitos dos trabalhadores conquistados em anos de luta (como os que os franceses hoje defendem nas ruas de Paris) babariam com o que veriam no século XIX: homens, mulheres e crianças trabalhando 15 horas por dia, sem qualquer amparo, e sem qualquer encargo legal ou moral, fora os magros salários, para seus empregadores."
Aqui no Brasil, onde o capitalismo ainda é totalmente selvagem, esse blablablá de livre negociação, fim de carteira assinada, contratos temporários, enfim, a tal flexibilização, tudo isso é conversa para boi dormir: as palavras elegantes escondem a involução das conquistas sociais, a regressão à barbárie (como se já não tivéssemos barbárie suficiente no país) e mais, mais, mais dinheiro para a turma já endinheirada, que nos olha de cima como se não passássemos de um monte de merda.
Eu esperava do atual governo, no mínimo, uma política salarial, coerente com o que o partido pregou ao longo de duas décadas. Mas os bancos nunca lucraram tanto, a galera da especulação financeira nunca esteve tão bem e nós, assalariados, somos como párias dentro de nosso próprio país. É uma vergonha!
E isso tudo sem falar da corrupção. Que, se não é nova e vem de outros governos (o que não a torna menos que inaceitável) é absolutamente imperdoável para quem sempre se proclamou sacerdotisa da ética.
Eu mal posso esperar a hora da eleição. Que os traidores do povo tenham seu próprio cadafalso dentro das urnas.
Eu não vou anular meu voto, que é minha única arma.
29.3.06
Moçada:Ganhei o prêmio SecMaster de Melhor Contribuição Jornalística na área de segurança da informação, na categoria Júri Popular. A premiação foi ontem à noite em São Paulo. É a primeira vez que o evento Security Week inclui a imprensa em sua premiação, e é claro que fiquei muito feliz de estar entre os vencedores.
A todos os que me deram a honra de seu voto, meu muito obrigado.
26.3.06
Ah, que bom acordar com a chuva num domingo de manhã. Especialmente num domingo em que você tem que dar plantão.
* * *
Ontem vi o filme "O último portal", baseado no livro "O clube Dumas", de Arturo Pèrez-Reverte. O livro é muito melhor. Até porque a direção de Roman Polanski é meio burocrática e os elementos de suspense do livro são quase todos retirados da trama. Mas Johnny Depp, Frank Langella e Emmanuelle Seigner salvam um pouco o resultado.
* * *
Por falar em Polanski, o melhor filme de todos os tempos sobre a solidão ainda é "O inquilino".
* * *
E já que estamos falando em cinema, outro dia mesmo vi "Entre umas e outras". Confesso que fiquei ansioso, até mesmo em algumas cenas onde deveria rir. É que tenho um amigo igualzinho (em comportamento) ao companheiro de aventuras de Paul Giamatti no filme. O cara é encrenca pura... e uma criança grande. Pobre Giamatti, eu sei bem o que você sofreu. ;-)
* * *
Ontem vi o filme "O último portal", baseado no livro "O clube Dumas", de Arturo Pèrez-Reverte. O livro é muito melhor. Até porque a direção de Roman Polanski é meio burocrática e os elementos de suspense do livro são quase todos retirados da trama. Mas Johnny Depp, Frank Langella e Emmanuelle Seigner salvam um pouco o resultado.
* * *
Por falar em Polanski, o melhor filme de todos os tempos sobre a solidão ainda é "O inquilino".
* * *
E já que estamos falando em cinema, outro dia mesmo vi "Entre umas e outras". Confesso que fiquei ansioso, até mesmo em algumas cenas onde deveria rir. É que tenho um amigo igualzinho (em comportamento) ao companheiro de aventuras de Paul Giamatti no filme. O cara é encrenca pura... e uma criança grande. Pobre Giamatti, eu sei bem o que você sofreu. ;-)
25.3.06
Em 1978 o Kiss lançou quatro Lps solo. O batera Peter Criss fez o mais suave de todos. É dele a melhor balada da coleção. Faz um tempo que não ouço, mas gosto muito dela.
Night falls on the city
Finds me all alone
Makes me wonder
Should I just go on home
And I walk up the stairs
To see if you're sill there
Would you mind if
I found you alone
Then a cold wind came callin'
Strange how it knew it'd bother me
See the night would fade
But the pain's gonna stay
Makes me wonder
Have you ever made love to me
I can't stop the rain,
here it comes again
Lightnin' strikes across the sky
Oh, I can't stop the rain, here it comes again
Lightnin' only blinds my eyes
Ain't it sad
When the only love I ever had
Just slips away
Right through my fingers
Ain't it a shame
when I think of your name
The only memory I have is it
I can't stop the rain,
here it comes again
Lightnin' strikes across the sky
Oh, I can't stop the rain, here it comes again
Lightnin' only blinds my eyes
("I can't stop the rain", Peter Criss)
Night falls on the city
Finds me all alone
Makes me wonder
Should I just go on home
And I walk up the stairs
To see if you're sill there
Would you mind if
I found you alone
Then a cold wind came callin'
Strange how it knew it'd bother me
See the night would fade
But the pain's gonna stay
Makes me wonder
Have you ever made love to me
I can't stop the rain,
here it comes again
Lightnin' strikes across the sky
Oh, I can't stop the rain, here it comes again
Lightnin' only blinds my eyes
Ain't it sad
When the only love I ever had
Just slips away
Right through my fingers
Ain't it a shame
when I think of your name
The only memory I have is it
I can't stop the rain,
here it comes again
Lightnin' strikes across the sky
Oh, I can't stop the rain, here it comes again
Lightnin' only blinds my eyes
("I can't stop the rain", Peter Criss)
Minicontos do desconforto -- 83
Precisou ir ao cinema, ficar no escuro, porque tinha vergonha das próprias lágrimas. Não importava que o filme fosse um desenho animado. Ele ficou lá atrás, tentando fazer do seu pranto a coisa mais silenciosa do mundo.
Quando se acalmou um pouco, recostou-se e fechou os olhos. E sonhou com sua juventude invencível, em que, como dizia a canção, não precisava da ajuda de ninguém. É, Lennon e McCartney estavam certos: a vida nos faz inseguros -- na verdade, nos faz pastiches de nós mesmos.
Naquela noite, a solidão daquele homem fez até os gaiatos personagens da tela se transformarem. O "o que é que há, velhinho" do Pernalonga até ficou mais cúmplice e menos sarcástico. A ira do pato Donald arrefeceu e ele fez as pazes com os esquilos. E Papa-Léguas e Coiote jantaram juntos, civilizadamente.
Ele devia estar sonhando -- aquilo não era possível. E estava: acordou quando o adolescente ao lado derramou um pouco do refrigerante em seu colo. Não ligou: pelo contrário, conseguiu sorrir pela primeira vez em duas semanas.
Quando saiu do cinema, catou na lata de lixo a vida que tinha jogado fora e a pôs novamente no bolso.
Precisou ir ao cinema, ficar no escuro, porque tinha vergonha das próprias lágrimas. Não importava que o filme fosse um desenho animado. Ele ficou lá atrás, tentando fazer do seu pranto a coisa mais silenciosa do mundo.
Quando se acalmou um pouco, recostou-se e fechou os olhos. E sonhou com sua juventude invencível, em que, como dizia a canção, não precisava da ajuda de ninguém. É, Lennon e McCartney estavam certos: a vida nos faz inseguros -- na verdade, nos faz pastiches de nós mesmos.
Naquela noite, a solidão daquele homem fez até os gaiatos personagens da tela se transformarem. O "o que é que há, velhinho" do Pernalonga até ficou mais cúmplice e menos sarcástico. A ira do pato Donald arrefeceu e ele fez as pazes com os esquilos. E Papa-Léguas e Coiote jantaram juntos, civilizadamente.
Ele devia estar sonhando -- aquilo não era possível. E estava: acordou quando o adolescente ao lado derramou um pouco do refrigerante em seu colo. Não ligou: pelo contrário, conseguiu sorrir pela primeira vez em duas semanas.
Quando saiu do cinema, catou na lata de lixo a vida que tinha jogado fora e a pôs novamente no bolso.
24.3.06
23.3.06
É muita cara de pau! Mas muita mesmo!
Do Boletim do Sindicado dos Jornalistas do Rio:
"Patrões de jornais e revistas oferecem 4,5% de reajuste -- Acredite, jornalista. Eles oferecem um reajuste inferior à inflação do período. Isso em um ano em que o faturamento com publicidade cresceu mais de 14%, num desempenho surpreendente para a economia brasileira. Na última reunião de negociação, no nosso Sindicato, tivemos alguns avanços em poucas cláusulas sociais — como o aumento do auxílio funeral de R$ 500 para R$ 1 mil (comemore! nossa reivindicação era de R$ 2 mil) — e muitas propostas indecentes. Uma delas foi de criar, no segundo maior estado da Federação e um dos centros de mídia do país, ex-capital da República, um piso salarial de R$ 560 reais. Sim, é isso mesmo. Você não está com problemas de leitura. Problemas você vai ter se não se mobilizar e lutar pelo seu salário. Para saber do andamento das negociações e defender sua qualidade de vida, fique atento à convocação da próxima assembléia. Estamos aguardando uma nova proposta, menos indecente, dos patrões, para então marcar o encontro da categoria. Quem fica parado é poste!"
Do Boletim do Sindicado dos Jornalistas do Rio:
"Patrões de jornais e revistas oferecem 4,5% de reajuste -- Acredite, jornalista. Eles oferecem um reajuste inferior à inflação do período. Isso em um ano em que o faturamento com publicidade cresceu mais de 14%, num desempenho surpreendente para a economia brasileira. Na última reunião de negociação, no nosso Sindicato, tivemos alguns avanços em poucas cláusulas sociais — como o aumento do auxílio funeral de R$ 500 para R$ 1 mil (comemore! nossa reivindicação era de R$ 2 mil) — e muitas propostas indecentes. Uma delas foi de criar, no segundo maior estado da Federação e um dos centros de mídia do país, ex-capital da República, um piso salarial de R$ 560 reais. Sim, é isso mesmo. Você não está com problemas de leitura. Problemas você vai ter se não se mobilizar e lutar pelo seu salário. Para saber do andamento das negociações e defender sua qualidade de vida, fique atento à convocação da próxima assembléia. Estamos aguardando uma nova proposta, menos indecente, dos patrões, para então marcar o encontro da categoria. Quem fica parado é poste!"
22.3.06
De volta de uma viagem a trabalho, no interior de SP. Fiquei num hotel com tendências místicas e fiz até uma caminhada com direito a pirâmide energizante, réplica do Templo do Sol dos incas e um labirinto concêntrico. Embora, como todo poeta, eu tenha um lado meio místico, nunca fui muito do estilo "nova era". Mas fiquei muito impressionado com a configuração sonora da réplica do Templo do Sol. Fiquei no centro dele e disse uma palavra. Ela ecoou imediatamente nos meus ouvidos, como se não tivesse sido eu a proferi-la, mas alguém a meu lado. É provável que haja alguma explicação científica para isso, mas tenho certeza de que não será suficiente.
17.3.06
Eu sou um romântico incurável, não um naturalista. Mas há que reconhecer, são poderosas as palavras de Júlio Ribeiro em "A carne":
O amor é filho da necessidade tirânica, fatal, que tem todo o organismo de se reproduzir, de pagar a dívida do antepassado segundo a fórmula bramática. A palavra amor é um eufemismo para abrandar um pouco a verdade ferina da palavra cio. Fisiologicamente, verdadeiramente, amor e cio vêm a ser uma coisa só. O início primordial do amor está, como dizem os biólogos, na afinidade eletiva de duas células diferentes, ou melhor, de duas células diferentemente eletrizadas. A complexidade assombrosa do organismo humano converte essa afinidade primitiva, que deveria ter sempre como resultado uma criança, em uma batalha de nervos que, contrariada ou mal dirigida, produz a cólera de Aquiles, os desmandos de Messalina, os êxtases de Santa Teresa. Não há recalcitrar contra o amor, força é ceder. À natureza não se resiste, e o amor é natureza. Os antigos tiveram uma intuição clara da verdade quando simbolizaram em uma deusa formosíssima implacavelmente vingativa, na Vênus Afrodite, o laço que prende os seres, a alma que lhes dá vida.
O amor é filho da necessidade tirânica, fatal, que tem todo o organismo de se reproduzir, de pagar a dívida do antepassado segundo a fórmula bramática. A palavra amor é um eufemismo para abrandar um pouco a verdade ferina da palavra cio. Fisiologicamente, verdadeiramente, amor e cio vêm a ser uma coisa só. O início primordial do amor está, como dizem os biólogos, na afinidade eletiva de duas células diferentes, ou melhor, de duas células diferentemente eletrizadas. A complexidade assombrosa do organismo humano converte essa afinidade primitiva, que deveria ter sempre como resultado uma criança, em uma batalha de nervos que, contrariada ou mal dirigida, produz a cólera de Aquiles, os desmandos de Messalina, os êxtases de Santa Teresa. Não há recalcitrar contra o amor, força é ceder. À natureza não se resiste, e o amor é natureza. Os antigos tiveram uma intuição clara da verdade quando simbolizaram em uma deusa formosíssima implacavelmente vingativa, na Vênus Afrodite, o laço que prende os seres, a alma que lhes dá vida.
13.3.06
Minicontos do desconforto -- 82
Ele compreendeu que seu vulcão interior -- depois de tantos anos quieto, sentindo o mar ventoso de tristeza lamber seus olhos cabisbaixos -- ia explodir de novo. Veio no meio da tempestade a consciência de que uma nova paixão despertava o magma e incandescia suas entranhas. Abriu-se para a chuva, repudiando toda a hesitação racional, e recebeu de volta sua verdadeira natureza, impetuosa, aventureira, com cascos de corcéis selvagens, sorrisos de sátiros e uma força irreprimível.
E ela, ela, só ela, tomava sua cabeça como uma voragem, como o aproximar das coortes de Aníbal, como o primeiro regurgitar do cosmo, como um coração escarlate a ribombar e espalhar vida renovada por um corpo ferido após longa doença.
Que pena que van Gogh não mais estivese vivo para pintá-lo.
Ele compreendeu que seu vulcão interior -- depois de tantos anos quieto, sentindo o mar ventoso de tristeza lamber seus olhos cabisbaixos -- ia explodir de novo. Veio no meio da tempestade a consciência de que uma nova paixão despertava o magma e incandescia suas entranhas. Abriu-se para a chuva, repudiando toda a hesitação racional, e recebeu de volta sua verdadeira natureza, impetuosa, aventureira, com cascos de corcéis selvagens, sorrisos de sátiros e uma força irreprimível.
E ela, ela, só ela, tomava sua cabeça como uma voragem, como o aproximar das coortes de Aníbal, como o primeiro regurgitar do cosmo, como um coração escarlate a ribombar e espalhar vida renovada por um corpo ferido após longa doença.
Que pena que van Gogh não mais estivese vivo para pintá-lo.
10.3.06
Moçada, sou finalista ao prêmio SecMaster de melhor contribuição jornalística na área de segurança da informação, que venho cobrindo há um bom tempo. Há uma comissão julgadora, mas também uma votação popular. Por isso, se quiserem me dar uma forcinha, o site para votação fica aqui.
É preciso se cadastrar para votar. Uma vez cadastrado, deve-se entrar com login e senha e ir até a categoria Finalistas para Contribuição Jornalística. Eu estou lá esperando seu voto. A quem puder dar uma força, agradeço.
(Obs: é preciso votar nas outras categorias também).
É preciso se cadastrar para votar. Uma vez cadastrado, deve-se entrar com login e senha e ir até a categoria Finalistas para Contribuição Jornalística. Eu estou lá esperando seu voto. A quem puder dar uma força, agradeço.
(Obs: é preciso votar nas outras categorias também).
7.3.06


Mais fotos da Bélgica (veja as outras no Cadafalso I). No alto, uma visão do Burg, em Bruges, local onde ficava a fortaleza do Conde de Flandres. Acima, eu diante da prefeitura de Bruges, um edifício de tirar o fôlego.
24.2.06
SHAKESPEARE E RICARDO III NA RIODADES
Parte III
-- Mas Ricardo, você há de convir que seu pai, o duque de York, não era boa bisca. Ele estava de olho no poder desde sempre.
-- Porque odiava ver o reino nas mãos de um neto de usurpador, e ainda por cima um neto inapto para o poder. Dizem que Henrique VI tinha até problemas mentais. Meu pai reivindicava legitimamente o trono para os seus.
-- Mas quando o rei teve um colapso nervoso em 1453, ele fez manobras sujas para se tornar protetor da Inglaterra.
-- E você queria o quê? Que ele perdesse a oportunidade? Não seja ingênuo, Will. De qualquer modo, o protetorado durou pouco. O rei se recuperou e nasceu um herdeiro, Eduardo de Westminster. Aos poucos, meu pai decidiu reunir seus exércitos e enfrentar os partidários de Henrique de frente. E assim começou a Guerra das Rosas, a vermelha dos Lancasters usurpadores, e a branca, dos York.
-- Imagino que seu ódio aos Lancasters advenha do que fizeram após a morte de seu pai, não? Botaram a cabeça dele numa estaca e uma coroa de papel, rindo e celebrando barbaramente sua morte. Foi depois de algumas batalhas entre os dois lados.
-- Foi odioso. Eu tinha oito anos de idade quando isso aconteceu. Lembro-me... era inverno, logo depois do Natal.
Parte III
-- Mas Ricardo, você há de convir que seu pai, o duque de York, não era boa bisca. Ele estava de olho no poder desde sempre.
-- Porque odiava ver o reino nas mãos de um neto de usurpador, e ainda por cima um neto inapto para o poder. Dizem que Henrique VI tinha até problemas mentais. Meu pai reivindicava legitimamente o trono para os seus.
-- Mas quando o rei teve um colapso nervoso em 1453, ele fez manobras sujas para se tornar protetor da Inglaterra.
-- E você queria o quê? Que ele perdesse a oportunidade? Não seja ingênuo, Will. De qualquer modo, o protetorado durou pouco. O rei se recuperou e nasceu um herdeiro, Eduardo de Westminster. Aos poucos, meu pai decidiu reunir seus exércitos e enfrentar os partidários de Henrique de frente. E assim começou a Guerra das Rosas, a vermelha dos Lancasters usurpadores, e a branca, dos York.
-- Imagino que seu ódio aos Lancasters advenha do que fizeram após a morte de seu pai, não? Botaram a cabeça dele numa estaca e uma coroa de papel, rindo e celebrando barbaramente sua morte. Foi depois de algumas batalhas entre os dois lados.
-- Foi odioso. Eu tinha oito anos de idade quando isso aconteceu. Lembro-me... era inverno, logo depois do Natal.
31.1.06
SHAKESPEARE E RICARDO III NA RIODADES
Parte II
-- Will, eu nasci no dia 2 de outubro de 1452, no castelo de Fotheringay. O mesmo castelo onde Maria Stuart perderia a cabeça em fevereiro de 1587, mas disso você deve se lembrar, pois estava bem vivo então. Meu pai era Ricardo, o terceiro Duque de York, e um homem, como eu, um bocado injustiçado. Aliás, é melhor começar daí, porque a história que vou lhe contar é uma de ódio e disputa por poder. Eu fui o último rei da Casa de York, que foi apeada do poder em manobras um tanto sujas. Tudo começa antes mesmo de 1400, no reinado de Ricardo II. Ricardo II, não sei se você sabe, era provavelmente bissexual. Mas se fosse um bom rei ninguém ia notar. O problema com ele (como também com o Eduardo II, seu bisavô) era que tinha porque tinha de botar seus favoritos para dar pitacos na administração do reino.
-- Também escrevi peças sobre isso.
-- Eu sei, e igualmente distorcidas, mas não tanto quanto a minha. De qualquer modo, só falo do Ricardo II para lembrar que ele foi deposto pelo primeiro sujeito da Casa de Lancaster a ocupar o trono inglês, Henrique de Bolingbroke, ou Henrique IV. Ele mandou matar Ricardo II após prendê-lo, mas as suspeitas de que o rei ainda vivia duraram tanto tempo durante seu reino de usurpador que precisou abrir o caixão de Ricardo só para provar à população que ele de fato estava morto.
-- Mórbido. Mas uma boa cena.
-- Henrique IV morreu em 1413, depois de uma terrível doença que lhe desfigurava a face e partes do corpo, além de aparentes ataques de epilepsia. Alguns os atribuíam a sífilis. Seu filho Henrique de Monmouth tornou-se então Henrique V. Este foi um grande guerreiro, o vitorioso da Batalha de Agincourt, que você tão belamente descreveu em sua peça sobre ele. Só que morrreu quando seu herdeiro, também chamado Henrique, tinha menos de um ano de idade. E aí a porca começa a torcer o rabo. Porque o reinado de Henrique VI foi um desatre total para a Inglaterra.
-- Também não é assim, Ma... desculpe, Ricardo.
-- É que você sempre escreveu do ponto de vista da Casa de Lancaster, a que está ligado meu maior inimigo, Henrique Tudor. Imagine, fazer uma peça em três partes sobre aquele bobalhão do Henrique VI...
-- Foi um bom rei.
-- Foi um rei bonzinho e babaca, governado pelos assessores e por aquela jararaca da mulher dele, Margaret de Anjou. Preste atenção e você verá o que quero dizer. Seu Amaro, desce mais uma cerveja aqui!
Parte II
-- Will, eu nasci no dia 2 de outubro de 1452, no castelo de Fotheringay. O mesmo castelo onde Maria Stuart perderia a cabeça em fevereiro de 1587, mas disso você deve se lembrar, pois estava bem vivo então. Meu pai era Ricardo, o terceiro Duque de York, e um homem, como eu, um bocado injustiçado. Aliás, é melhor começar daí, porque a história que vou lhe contar é uma de ódio e disputa por poder. Eu fui o último rei da Casa de York, que foi apeada do poder em manobras um tanto sujas. Tudo começa antes mesmo de 1400, no reinado de Ricardo II. Ricardo II, não sei se você sabe, era provavelmente bissexual. Mas se fosse um bom rei ninguém ia notar. O problema com ele (como também com o Eduardo II, seu bisavô) era que tinha porque tinha de botar seus favoritos para dar pitacos na administração do reino.
-- Também escrevi peças sobre isso.
-- Eu sei, e igualmente distorcidas, mas não tanto quanto a minha. De qualquer modo, só falo do Ricardo II para lembrar que ele foi deposto pelo primeiro sujeito da Casa de Lancaster a ocupar o trono inglês, Henrique de Bolingbroke, ou Henrique IV. Ele mandou matar Ricardo II após prendê-lo, mas as suspeitas de que o rei ainda vivia duraram tanto tempo durante seu reino de usurpador que precisou abrir o caixão de Ricardo só para provar à população que ele de fato estava morto.
-- Mórbido. Mas uma boa cena.
-- Henrique IV morreu em 1413, depois de uma terrível doença que lhe desfigurava a face e partes do corpo, além de aparentes ataques de epilepsia. Alguns os atribuíam a sífilis. Seu filho Henrique de Monmouth tornou-se então Henrique V. Este foi um grande guerreiro, o vitorioso da Batalha de Agincourt, que você tão belamente descreveu em sua peça sobre ele. Só que morrreu quando seu herdeiro, também chamado Henrique, tinha menos de um ano de idade. E aí a porca começa a torcer o rabo. Porque o reinado de Henrique VI foi um desatre total para a Inglaterra.
-- Também não é assim, Ma... desculpe, Ricardo.
-- É que você sempre escreveu do ponto de vista da Casa de Lancaster, a que está ligado meu maior inimigo, Henrique Tudor. Imagine, fazer uma peça em três partes sobre aquele bobalhão do Henrique VI...
-- Foi um bom rei.
-- Foi um rei bonzinho e babaca, governado pelos assessores e por aquela jararaca da mulher dele, Margaret de Anjou. Preste atenção e você verá o que quero dizer. Seu Amaro, desce mais uma cerveja aqui!
22.1.06
SHAKESPEARE E RICARDO III NA RIODADES
Parte I
Existe um lugar insuspeito perdido no subúrbio de Niterói. Chama-se Riodades e, lá, nada acontece. O tempo parou. Na esquina da rua Cinco de Março com a Álvaro Neves, fica a mercearia do Seu Amaro, um português simpático, bigodudo e bem-apessoado que gosta de puxar dois dedos de prosa com os clientes que aparecem para comprar uma cerveja ou um traçado. De vez em quando, Seu Amaro bota umas poucas mesas na calçada, para os bebuns de sempre jogarem um carteado.
Foi nessa mesa que, uma tarde, sentaram-se dois tipos. Ambos eram muito brancos. Um meio calvo, com uma barba penteada e um ar meio afetado. Outro, com um ar senhorial, lábios finos de juiz, olhos escuros e penetrantes. À primeira vista, poderia se pensar que mancava um pouco, mas o andar esquisito era na verdade causado pela cicatriz de uma velha ferida de batalha perto do joelho direito.
Embora os dois estivessem vestidos como a maioria dos homens da Riodades se veste no domingo — de bermudas, camisas de abotoar abertas e sandálias de dedo — e, também como os nativos, pedissem uma dose de cachaça antes de partir para a cerveja barata, seus nomes eram um tanto estranhos: William Shakespeare e Ricardo de Gloucester.
Outra coisa estranha era que, embora parecessem de carne e osso, os dois eram fantasmas. Fantasmas muito velhos — um do século XV, outro dos séculos XVI/XVII — e com uma certa conta a ajustar.
Esta é a crônica da conversa que William (Will) e Ricardo (que na verdade foi o rei Ricardo III da Inglaterra) tiveram naquela tarde pachorrenta. Eles falaram no inglês empolado de seus tempos, mas para o pessoal da mesa vizinha pareciam duas minhocas da terra falando um português bem rasteiro. É este que vamos ouvir aqui também.
— Will, você foi muito injusto comigo — começou Ricardo.
— Majestade, o senhor tem que entender...
— Não me chame disso aqui. Nem de senhor. “Você” servirá. Não queremos chamar a atenção.
— Sim, Ma... desculpe.
— Você foi muito injusto comigo, como eu dizia.
— Entenda: eu escrevia para os herdeiros do seu inimigo. Inimigo vencedor, diga-se de passagem. E você já estava morto há uns cem anos.
— Mesmo assim. Sua peça “Ricardo III” manchou minha reputação para sempre. Até hoje todo mundo acha que eu sou malformado, corcunda, a própria personificação do Mal.
— Para meus patrocinadores, você era.
— Eu o trouxe aqui porque acho que você deve conhecer a verdade.
— Sei.
— Não está interessado?
— Se não estivesse, não estaria aqui sentado. Mas a verdade é sempre um conceito muito subjetivo. Até me lembrei de outra peça minha, “Júlio César”. Você acha que a verdade sobre César era a mesma para Marco Antônio e Brutus?
— (Suspirando) Eu sei que não. Mas estou aqui para relatar apenas os fatos. Eu não sou um santo, mas sua injustiça me aborrece muito. Até Belzebu me sacaneia, dizendo que minha alma penada devia ser corcunda e manca. Não tenho ilusões de que recuperarei minha reputação, a não ser que você reencarne no século XV como um de meus aliados de York (risos), mas quero que me ouça mesmo assim. Vocês jornalistas detestam admitir seus erros.
— Nunca fui um jornalista. Escrevi peças e poemas.
— Foi um cronista do seu tempo, a seu modo. E aqui tem a chance de ouvir a história na fonte.
— Que seja. Estou ouvindo.
— Para começo de conversa, nunca conspirei contra meu irmão George, duque de Clarence. Eu o adorava. Ele é que cavou sua própria ruína. E também fui leal a meu irmão Eduardo IV até que ele desse seu último suspiro.
— Em vista de seus atos posteriores, eu duvido.
— Vou lhe contar a história desde o começo.
Parte I
Existe um lugar insuspeito perdido no subúrbio de Niterói. Chama-se Riodades e, lá, nada acontece. O tempo parou. Na esquina da rua Cinco de Março com a Álvaro Neves, fica a mercearia do Seu Amaro, um português simpático, bigodudo e bem-apessoado que gosta de puxar dois dedos de prosa com os clientes que aparecem para comprar uma cerveja ou um traçado. De vez em quando, Seu Amaro bota umas poucas mesas na calçada, para os bebuns de sempre jogarem um carteado.
Foi nessa mesa que, uma tarde, sentaram-se dois tipos. Ambos eram muito brancos. Um meio calvo, com uma barba penteada e um ar meio afetado. Outro, com um ar senhorial, lábios finos de juiz, olhos escuros e penetrantes. À primeira vista, poderia se pensar que mancava um pouco, mas o andar esquisito era na verdade causado pela cicatriz de uma velha ferida de batalha perto do joelho direito.
Embora os dois estivessem vestidos como a maioria dos homens da Riodades se veste no domingo — de bermudas, camisas de abotoar abertas e sandálias de dedo — e, também como os nativos, pedissem uma dose de cachaça antes de partir para a cerveja barata, seus nomes eram um tanto estranhos: William Shakespeare e Ricardo de Gloucester.
Outra coisa estranha era que, embora parecessem de carne e osso, os dois eram fantasmas. Fantasmas muito velhos — um do século XV, outro dos séculos XVI/XVII — e com uma certa conta a ajustar.
Esta é a crônica da conversa que William (Will) e Ricardo (que na verdade foi o rei Ricardo III da Inglaterra) tiveram naquela tarde pachorrenta. Eles falaram no inglês empolado de seus tempos, mas para o pessoal da mesa vizinha pareciam duas minhocas da terra falando um português bem rasteiro. É este que vamos ouvir aqui também.
— Will, você foi muito injusto comigo — começou Ricardo.
— Majestade, o senhor tem que entender...
— Não me chame disso aqui. Nem de senhor. “Você” servirá. Não queremos chamar a atenção.
— Sim, Ma... desculpe.
— Você foi muito injusto comigo, como eu dizia.
— Entenda: eu escrevia para os herdeiros do seu inimigo. Inimigo vencedor, diga-se de passagem. E você já estava morto há uns cem anos.
— Mesmo assim. Sua peça “Ricardo III” manchou minha reputação para sempre. Até hoje todo mundo acha que eu sou malformado, corcunda, a própria personificação do Mal.
— Para meus patrocinadores, você era.
— Eu o trouxe aqui porque acho que você deve conhecer a verdade.
— Sei.
— Não está interessado?
— Se não estivesse, não estaria aqui sentado. Mas a verdade é sempre um conceito muito subjetivo. Até me lembrei de outra peça minha, “Júlio César”. Você acha que a verdade sobre César era a mesma para Marco Antônio e Brutus?
— (Suspirando) Eu sei que não. Mas estou aqui para relatar apenas os fatos. Eu não sou um santo, mas sua injustiça me aborrece muito. Até Belzebu me sacaneia, dizendo que minha alma penada devia ser corcunda e manca. Não tenho ilusões de que recuperarei minha reputação, a não ser que você reencarne no século XV como um de meus aliados de York (risos), mas quero que me ouça mesmo assim. Vocês jornalistas detestam admitir seus erros.
— Nunca fui um jornalista. Escrevi peças e poemas.
— Foi um cronista do seu tempo, a seu modo. E aqui tem a chance de ouvir a história na fonte.
— Que seja. Estou ouvindo.
— Para começo de conversa, nunca conspirei contra meu irmão George, duque de Clarence. Eu o adorava. Ele é que cavou sua própria ruína. E também fui leal a meu irmão Eduardo IV até que ele desse seu último suspiro.
— Em vista de seus atos posteriores, eu duvido.
— Vou lhe contar a história desde o começo.
30.12.05
Outro dia eu estava conversando com o Paulo Couto, do FórumPCs, e ele me dizia que foi muito feliz quando morava na Bahia, um lugar onde se sabe curtir a vida. E fiquei pensando: a felicidade é mesmo essa coisa fragmentada -- porque nós, os seres humanos, temos uma baita barreira a refrear a sensação de felicidade: a angústia. Pelo menos os seres humanos que pensam têm alguma parcela de angústia, que volta e meia vem à tona, com ou sem motivo.
Então, quando a gente pára pra refletir, descobre alguns poucos momentos (os que a amnésia alcoólica nos permite reter) em que a angústia, por algum milagre, foi embora (ou se escondeu muito bem) e nos deixou contemplar (ou fazer parte de) um universo em perfeita harmonia (é por isso que a gente bebe: beber ajuda, se você não deixar o porre chegar à fase depressiva. Na fase alegre e amorosa, a angústia vai pra pqp.)
Dá para lembrar alguns momentos em que estive em perfeita sintonia com o Espírito: solando uma guitarra no teatro da Uff no em julho de 1983; sentado à beira de uma piscina semi-acordado com uma lata de cerveja na mão em abril de 1994; fazendo sacanagens com uma namorada no sofá em fevereiro de 1980; num romance de carnaval em fevereiro de 1982; na minha festa de casamento em outubro de 1987; quando conheci todos os meus amigos de infância, nas décadas de 1960 e 1970, que em minha mente chamo de Os Imortais; e quando vi minhas filhas cantarem no coral da escola este ano -- elas me fizeram chorar, porque a música, quando emitida somente através da voz humana, tem um poder de atingir o peito que nenhum outro instrumento possui.
Fins de ano não costumam figurar nestes momentos, porque o réveillon de modo geral me lembra que vou ficar mais velho. E me faz pensar em quanto tempo me resta. E nas coisas que ainda não fiz. Mesmo que eu dance a noite inteira e relaxe, me lembro disso em algum momento.
Mas quero lhes desejar um excelente 2006: afinal, temos muito ainda o que fazer este ano. No mínimo, nas urnas.
Um grande abraço a todos vocês que me acompanham aqui desde 2001.
Então, quando a gente pára pra refletir, descobre alguns poucos momentos (os que a amnésia alcoólica nos permite reter) em que a angústia, por algum milagre, foi embora (ou se escondeu muito bem) e nos deixou contemplar (ou fazer parte de) um universo em perfeita harmonia (é por isso que a gente bebe: beber ajuda, se você não deixar o porre chegar à fase depressiva. Na fase alegre e amorosa, a angústia vai pra pqp.)
Dá para lembrar alguns momentos em que estive em perfeita sintonia com o Espírito: solando uma guitarra no teatro da Uff no em julho de 1983; sentado à beira de uma piscina semi-acordado com uma lata de cerveja na mão em abril de 1994; fazendo sacanagens com uma namorada no sofá em fevereiro de 1980; num romance de carnaval em fevereiro de 1982; na minha festa de casamento em outubro de 1987; quando conheci todos os meus amigos de infância, nas décadas de 1960 e 1970, que em minha mente chamo de Os Imortais; e quando vi minhas filhas cantarem no coral da escola este ano -- elas me fizeram chorar, porque a música, quando emitida somente através da voz humana, tem um poder de atingir o peito que nenhum outro instrumento possui.
Fins de ano não costumam figurar nestes momentos, porque o réveillon de modo geral me lembra que vou ficar mais velho. E me faz pensar em quanto tempo me resta. E nas coisas que ainda não fiz. Mesmo que eu dance a noite inteira e relaxe, me lembro disso em algum momento.
Mas quero lhes desejar um excelente 2006: afinal, temos muito ainda o que fazer este ano. No mínimo, nas urnas.
Um grande abraço a todos vocês que me acompanham aqui desde 2001.
29.12.05
26.12.05
Já disse que estou mergulhado em "A torre negra", de Stephen King. Já estou lendo o quarto volume. Mas dei uma parada para reler "O leão, a feiticeira e o guarda-roupa", de C. S. Lewis, após ver o filme "Crônicas de Nárnia". Essa história me encantou quando criança e continua uma delícia: ao contrário da formalidade de seu amigo Tolkien, Lewis escreve conversando com o leitor, num estilo conciso e leve.
E qual de nós não gostaria, por vezes, de abrir um guarda-roupa e encontrar outro mundo, outras possibilidades de vida e jogo, numa passagem secreta? Pelo menos em alguns recantos do meu cérebro, há muitas Nárnias que visito, e que jamais perdem seu fascínio.
E qual de nós não gostaria, por vezes, de abrir um guarda-roupa e encontrar outro mundo, outras possibilidades de vida e jogo, numa passagem secreta? Pelo menos em alguns recantos do meu cérebro, há muitas Nárnias que visito, e que jamais perdem seu fascínio.
12.12.05
25.11.05
21.11.05
Minicontos do desconforto -- 81
Mais tarde ele não soube precisar, mas houve um dia em que dormiu criança e acordou adulto.
Antes, a Fé caminhava de braços dados com ele todos os dias -- na escola, no caminho para casa, durante as refeições, nas brincadeiras com os amigos. E ela tornava-o capaz de engendrar maravilhas com a sua mente crédula, despreocupada -- houve muitas primeiras vezes naqueles anos, um mar de olhos arregalados e de sorrisos francos e lágrimas de origem certa.
Então, num belo dia de maio, conheceu a Dúvida. Lânguida e silenciosa, envolta num vestido cor-de-cisma, ela o olhou de cima da mangueira onde ele se recostava com um livro. Ele olhou para cima, formulando uma pergunta e, sem saber, deu com os olhos da dama, oblíquos como os de Capitu.
Devagar, sem pressa, numa imitação digna de Oscar da serpente do Gênese, ela desceu da árvore e soprou sobre as folhas do livro. Ele leu um pouco mais e seu semblante ficou carregado.
Naquele fim de tarde, as afirmações dos amigos ficaram translúcidas e, quando a noite caiu, ele deixou de adivinhar os desenhos das constelações e passou a se perguntar quando as estrelas que via tinham morrido e quanto de falso tinha seu brilho.
Quando se deitou, a Dúvida fez amor com ele. Mas ele duvidou: achou que havia sido apenas uma polução noturna.
E ela riu quando percebeu que ele estava pronto. Riu o mesmo riso irônico que ele ofereceu a sua irmã menor no café da manhã do dia seguinte, quando ela lhe falou da fada dos dentes. E a Fé, que tomava uma xícara diáfana de café ao lado da menina, chorou amargamente.
Mais tarde ele não soube precisar, mas houve um dia em que dormiu criança e acordou adulto.
Antes, a Fé caminhava de braços dados com ele todos os dias -- na escola, no caminho para casa, durante as refeições, nas brincadeiras com os amigos. E ela tornava-o capaz de engendrar maravilhas com a sua mente crédula, despreocupada -- houve muitas primeiras vezes naqueles anos, um mar de olhos arregalados e de sorrisos francos e lágrimas de origem certa.
Então, num belo dia de maio, conheceu a Dúvida. Lânguida e silenciosa, envolta num vestido cor-de-cisma, ela o olhou de cima da mangueira onde ele se recostava com um livro. Ele olhou para cima, formulando uma pergunta e, sem saber, deu com os olhos da dama, oblíquos como os de Capitu.
Devagar, sem pressa, numa imitação digna de Oscar da serpente do Gênese, ela desceu da árvore e soprou sobre as folhas do livro. Ele leu um pouco mais e seu semblante ficou carregado.
Naquele fim de tarde, as afirmações dos amigos ficaram translúcidas e, quando a noite caiu, ele deixou de adivinhar os desenhos das constelações e passou a se perguntar quando as estrelas que via tinham morrido e quanto de falso tinha seu brilho.
Quando se deitou, a Dúvida fez amor com ele. Mas ele duvidou: achou que havia sido apenas uma polução noturna.
E ela riu quando percebeu que ele estava pronto. Riu o mesmo riso irônico que ele ofereceu a sua irmã menor no café da manhã do dia seguinte, quando ela lhe falou da fada dos dentes. E a Fé, que tomava uma xícara diáfana de café ao lado da menina, chorou amargamente.
12.11.05
7.11.05
Já estão saindo do prelo os livros "Fotos no PC", de Nelson Vasconcelos, e "Som no PC", de Leonardo Pimentel, os primeiros de uma série de entretenimento techie da Campus. Ambas as obras pretendem mostrar, num clima prático e objetivo, como trabalhar, respectivamente, com arquivos de imagem e de música no computador, otimizando a máquina para essas tarefas. Cobras em seus temas, Vasconcelos e Pimentel são as pessoas certas para levar o leitor por essas veredas. O lançamento oficial dos dois volumes será em breve; assim que tiver a data, aviso.
4.11.05
Um dos sonhos recorrentes que tenho é o de estar voando. Pois bem, nas férias dei uma volta pelo teleférico de Friburgo, subindo os 1.322 metros do Morro da Cruz em duas etapas. Andar de teleférico é como subir uma montanha-russa, só que sem o pavor daquela descida vertiginosa depois. Tudo bem, você desce mais tarde, mas é como estar planando. E numa cadeira, em vez de numa cabine, é sempre melhor, pois a sensação de estar flutuando acima de tudo é maravilhosa.
31.10.05
20.9.05
E a semana continua: depois do lançamento do livro, ontem, Jessica, minha filha mais velha, vai cantar no Municipal de Niterói amanhã, com o Coral do Centro Educacional, onde já milita há alguns anos. O coral é tudo de bom, eles arrasam. Não por acaso, a lotação do teatro já está esgotada. Este pai coruja estará lá animadíssimo. Rebeca, minha caçula, deve cantar também, se melhorar de um resfriado que pegou.
13.9.05
2.9.05
Amanhã, às 10h, eu e mestre Fernando de Oliveira daremos uma entrevista no programa da Promo Info na Rede Record sobre o novo livro, escrito junto com mestre Aroaldo Veneu, "Linux: comece aqui".
O lançamento do livro já está marcado: vai ser dia 19 de setembro, na Letras e Expressões, em Ipanema, a partir das 20h. Em breve vou botar um JPG do convite aqui.
O lançamento do livro já está marcado: vai ser dia 19 de setembro, na Letras e Expressões, em Ipanema, a partir das 20h. Em breve vou botar um JPG do convite aqui.
21.8.05
Minicontos do desconforto -- 80
Tocou a música que havia sido "dela", na adolescência.
Eles estavam alegres, haviam dançado e bebido pequenas batidas geladinhas de morango; estavam naquele território que fica entre iniciar o vôo para o nirvana ou se render ao desejo tão sublimado na busca da perfeição (perfeição lá para as nêgas do Buda, né?, que para nosso corpo sedento e trêmulo não serve mesmo, pensou ele, dominado pela vodca). Ele se sentou um pouco, ouvindo os acordes suaves.
Então, de repente ela o olhou de um modo estranho.
-- Você se importa se eu te beijar?
-- É claro que não -- ele se ouviu dizer numa voz cheia de nonchalance, que escondia a tensão súbita.
Ela deu-lhe um pequenino beijo nos lábios. Ele ficou insatisfeito. Veio outro beijo tímido, mais um, mais um e então ele lhe tocou os cabelos, acariciando sua nuca e sentindo todo aquele calor sólido subir-lhe pelo meio das pernas, exatamente como sentiu o caseiro de Lady Chatterley. A ereção foi pronta e inevitável.
E exatamente aí ela abriu a boca e as línguas deslizaram livres e sem vergonha, sem culpa, e então o beijo foi sôfrego como uma espera embutida no palato durante anos; as colcheias da música pareciam estar dentro da boca perfumada, as cifras do violão inscritas no batom delicado que se misturava aos líquidos amorosos, à respiração que parecia gemer e sussurrar dialetos perdidos no tempo, na relva e nas fontes dos jardins babilônicos.
Ele a abraçou, envolveu seu corpo no laço de seus músculos; o beijo ficou mais intenso e as línguas eram como katanas forjadas em carbono, que se tocavam e recuavam em movimentos ensaiados, cuidadosos, mas tão intensos que tudo à volta deles sumiu de repente e ambos se sentiram em outro lugar, em outra época, uma época pagã, livre, algo debochada, onde havia correntezas de vinho e sombras generosas com um frescor realmente novo.
A música voltou quando ela deitou devagar a cabeça em seu peito.
Eis a verdadeira sabedoria, a sabedoria do gesto: beijar, pensou ele. Para que se livrar do desejo, se é justamente ele que leva à ausência de sofrimento? O desejo é o cerne de nossa condição, refletiu. E não apenas o desejo de possuir -- ali, o desejo era de se entregar, de (se possível) arrancar sua alma, dobrá-la e dar de presente a ela.
Ele já saíra com muitas amigas, e muitas vezes quisera dizer-lhes o que ia na alma com um beijo, porque a certo momento da noite as palavras se retiravam para dormir. Mas a maioria não havia compreendido essa vontade premente.
Ela mudara isso e não percebera. Mas ele nunca se sentira tão feliz.
Ela abriu sua alma para ele o resto da noite, falando de todos os seus conflitos interiores. Ele ouviu e deu sua opinião. Mas, toda vez que queria falar de si e do que sentia, simplesmente a beijava com ardor.
E nunca ele foi tão eloqüente.
Tocou a música que havia sido "dela", na adolescência.
Eles estavam alegres, haviam dançado e bebido pequenas batidas geladinhas de morango; estavam naquele território que fica entre iniciar o vôo para o nirvana ou se render ao desejo tão sublimado na busca da perfeição (perfeição lá para as nêgas do Buda, né?, que para nosso corpo sedento e trêmulo não serve mesmo, pensou ele, dominado pela vodca). Ele se sentou um pouco, ouvindo os acordes suaves.
Então, de repente ela o olhou de um modo estranho.
-- Você se importa se eu te beijar?
-- É claro que não -- ele se ouviu dizer numa voz cheia de nonchalance, que escondia a tensão súbita.
Ela deu-lhe um pequenino beijo nos lábios. Ele ficou insatisfeito. Veio outro beijo tímido, mais um, mais um e então ele lhe tocou os cabelos, acariciando sua nuca e sentindo todo aquele calor sólido subir-lhe pelo meio das pernas, exatamente como sentiu o caseiro de Lady Chatterley. A ereção foi pronta e inevitável.
E exatamente aí ela abriu a boca e as línguas deslizaram livres e sem vergonha, sem culpa, e então o beijo foi sôfrego como uma espera embutida no palato durante anos; as colcheias da música pareciam estar dentro da boca perfumada, as cifras do violão inscritas no batom delicado que se misturava aos líquidos amorosos, à respiração que parecia gemer e sussurrar dialetos perdidos no tempo, na relva e nas fontes dos jardins babilônicos.
Ele a abraçou, envolveu seu corpo no laço de seus músculos; o beijo ficou mais intenso e as línguas eram como katanas forjadas em carbono, que se tocavam e recuavam em movimentos ensaiados, cuidadosos, mas tão intensos que tudo à volta deles sumiu de repente e ambos se sentiram em outro lugar, em outra época, uma época pagã, livre, algo debochada, onde havia correntezas de vinho e sombras generosas com um frescor realmente novo.
A música voltou quando ela deitou devagar a cabeça em seu peito.
Eis a verdadeira sabedoria, a sabedoria do gesto: beijar, pensou ele. Para que se livrar do desejo, se é justamente ele que leva à ausência de sofrimento? O desejo é o cerne de nossa condição, refletiu. E não apenas o desejo de possuir -- ali, o desejo era de se entregar, de (se possível) arrancar sua alma, dobrá-la e dar de presente a ela.
Ele já saíra com muitas amigas, e muitas vezes quisera dizer-lhes o que ia na alma com um beijo, porque a certo momento da noite as palavras se retiravam para dormir. Mas a maioria não havia compreendido essa vontade premente.
Ela mudara isso e não percebera. Mas ele nunca se sentira tão feliz.
Ela abriu sua alma para ele o resto da noite, falando de todos os seus conflitos interiores. Ele ouviu e deu sua opinião. Mas, toda vez que queria falar de si e do que sentia, simplesmente a beijava com ardor.
E nunca ele foi tão eloqüente.
17.8.05
Come on Charlotte
Wake up San Diego, Milwaukie, Miami
Put your two lips together and kiss
We're kissin' in Cleveland,
and Cincinnatti too
Way out in Chicago, I'll tell you what to do
They party all over, even in St. Lou
So baby get ready and I'll be kissin' you
Oh, oh, 'cause anytime is kissin' time, USA
So treat me right, don't make me fight
And we'll rock and roll tonight
We're kissin' in Dallas
And Philly's goin' wild
So let's Kiss Atlanta, ho
You know we'll make it smile
We love the women
Way down in Tennessee
So baby come on now
and start a-kissin' me
Oh, oh, 'cause anytime is kissin' time, USA
So treat me right, don't make me fight
And we'll rock and roll tonight
Kiss all of Seattle, LA to Baltimore
You know we been kissin' in 'Frisco,
so lets kiss some more
Let's do it in Detroit,
they all know the score
So baby, oh baby, what are we waitin' for!!
("Kissin' Time", gravada pelo Kiss em 1973)
Wake up San Diego, Milwaukie, Miami
Put your two lips together and kiss
We're kissin' in Cleveland,
and Cincinnatti too
Way out in Chicago, I'll tell you what to do
They party all over, even in St. Lou
So baby get ready and I'll be kissin' you
Oh, oh, 'cause anytime is kissin' time, USA
So treat me right, don't make me fight
And we'll rock and roll tonight
We're kissin' in Dallas
And Philly's goin' wild
So let's Kiss Atlanta, ho
You know we'll make it smile
We love the women
Way down in Tennessee
So baby come on now
and start a-kissin' me
Oh, oh, 'cause anytime is kissin' time, USA
So treat me right, don't make me fight
And we'll rock and roll tonight
Kiss all of Seattle, LA to Baltimore
You know we been kissin' in 'Frisco,
so lets kiss some more
Let's do it in Detroit,
they all know the score
So baby, oh baby, what are we waitin' for!!
("Kissin' Time", gravada pelo Kiss em 1973)
2.8.05

Repetindo o post do Cadafalso I:
Acaba de sair do prelo meu novo livro, escrito junto com Fernando de Oliveira e Aroaldo Veneu. "Linux: Comece Aqui" é o título, e ele é o diário de um usuário que se encontra pela primeira vez com o sistema operacional de código-fonte aberto simbolizado pelo pingüim, e conta sua experiência. O livro é voltado para quem não conhece o Linux e foi baseado na distribuição Fedora Core 2. Em breve, aviso aqui quando e onde será a noite de autógrafos. O prefácio do livro é de Mr. Marcelo Balbio e a quarta capa, de Elis Monteiro.
31.7.05
Crib Tanaka estava no casório também, linda como sempre. Mestre Agusto Sales apareceu por lá e Fernando de Oliveira também.
Estou devendo um conto a Crib. Prometi que não vou enrolar mais.
Estou devendo um conto a Crib. Prometi que não vou enrolar mais.
Aliás, genial tirada do Maloca, irritado com o pessoal da filmagem e das fotos que não deixava ninguém em paz:
-- Hoje em dia as pessoas não querem mais elaborar uma lembrança. Elas querem apenas um registro objetivo do que aconteceu. Quando viajam, as pessoas querem ver tudo através da câmera e se esquecem de fruir o momento, se esqucem de que o que vale mesmo é reconstruir este momento em sua mente.
-- Hoje em dia as pessoas não querem mais elaborar uma lembrança. Elas querem apenas um registro objetivo do que aconteceu. Quando viajam, as pessoas querem ver tudo através da câmera e se esquecem de fruir o momento, se esqucem de que o que vale mesmo é reconstruir este momento em sua mente.
Ontem foi o casamento do Gustavo e da Marcele, em Botafogo. Uma capela simpática, escondida num jardim, foi o palco. A cerimônia foi bonita. Marcele estava linda e Gustavo, meu guitarman preferido, elegante. Maloca Mendes, baixista do Aerosilva, estava um mafioso perfeito, todo de cinza: só faltava aquele estojo de violino escondendo a metralhadora.
No começo, levei um susto. Estava fumando um cigarro ao pé da escada que levava à capela quando um segurança me abordou:
-- Com licença, o senhor é que é o padre?
Eu sorri.
-- Não, meu filho. Eu vivo eternamente em pecado. Não faz isso comigo, não.
Depois, avisei ao Gus para tomar cuidado, que ele corria o risco de ter o casamento celebrado por seu batera...
A festa foi animada e, como terminou cedo, fomos todos para a casa do Maloca encerrar a noite. Uma turma muito boa, que nem sempre é reunida, o que é uma pena: Maloca, Sérgio Maggi, Rodrigão, Edmundo, Franciney, Raquel, Cristiane... Rimos muito, embalados por Bohemias e Skols.
No começo, levei um susto. Estava fumando um cigarro ao pé da escada que levava à capela quando um segurança me abordou:
-- Com licença, o senhor é que é o padre?
Eu sorri.
-- Não, meu filho. Eu vivo eternamente em pecado. Não faz isso comigo, não.
Depois, avisei ao Gus para tomar cuidado, que ele corria o risco de ter o casamento celebrado por seu batera...
A festa foi animada e, como terminou cedo, fomos todos para a casa do Maloca encerrar a noite. Uma turma muito boa, que nem sempre é reunida, o que é uma pena: Maloca, Sérgio Maggi, Rodrigão, Edmundo, Franciney, Raquel, Cristiane... Rimos muito, embalados por Bohemias e Skols.
18.7.05
22.6.05
14.6.05
10.6.05
The poetry of earth is never dead:
When all the birds are faint with the hot sun,
And hide in cooling trees, a voice will run
From hedge to hedge about the new-mown mead.
That is the grasshopper’s—he takes the lead
In summer luxury,—he has never done
With his delights, for when tired out with fun,
He rests at ease beneath some pleasant weed.
The poetry of earth is ceasing never:
On a lone winter evening, when the frost
Has wrought a silence, from the stove there shrills
The Cricket’s song, in warmth increasing ever,
And seems to one in drowsiness half-lost,
The Grasshopper’s among some grassy hills.
(Keats, 1816)
When all the birds are faint with the hot sun,
And hide in cooling trees, a voice will run
From hedge to hedge about the new-mown mead.
That is the grasshopper’s—he takes the lead
In summer luxury,—he has never done
With his delights, for when tired out with fun,
He rests at ease beneath some pleasant weed.
The poetry of earth is ceasing never:
On a lone winter evening, when the frost
Has wrought a silence, from the stove there shrills
The Cricket’s song, in warmth increasing ever,
And seems to one in drowsiness half-lost,
The Grasshopper’s among some grassy hills.
(Keats, 1816)
9.6.05
Há um ano escrevi uma reportagem sobre usabilidade de celulares, inspirado por um papo com Cora Rónai, que gerou um estudo da responsável pelo Laboratório de Usabilidade da Ibmec Business School, Simone Bacellar Leal Ferreira. Acabei me tornando co-autor do estudo, junto com Marcos Gurgel do Amaral, e ele foi apresentado pela Simone mês passado no congresso da IAMOT (International Association for Management of Technology), em Viena, Áustria. Infelizmente não pude estar lá de novo (já estive na cidade uma vez, ela é inesquecível), mas vocês podem imaginar como fiquei prosa. Simone também vai apresentar o estudo aqui, no Congresso Anual de Tecnologia da Informação da Fundação Getúlio Vargas, no fim do mês.
7.6.05
Minicontos do desconforto -- 79
Quando acordou, sabia que ia morrer. Tivera pesadelos terríveis a noite toda, e a manhã estava fria (embora fosse verão) na borda do campo de batalha. Na colina oposta, tremulava o estandarte do adversário -- um arrivista covarde, filho de rainha viúva com camareiro. Ele, ali, o último dos reis guerreiros de uma longa linhagem, sabia que o trono era seu por direito, mas fora longe demais. Mandara matar gente demais; achara que o povo odiaria, como ele e os seus de York, a esposa de seu irmão, o falecido rei Eduardo, uma pobretona que pôs todos os parentes nos melhores cargos e, no fundo, ajudara a levar à Torre seu irmão George.
Mas o povo era volúvel, como o é em todos os tempos, e ele, o caçula e o mais leal irmão do rei Eduardo -- George, era verdade, vivia conspirando -- passou a ser temido. Ainda mais depois que seus sobrinhos desapareceram misteriosamente da Torre. Disseram que ele os havia assassinado para garantir sua permanência no trono.
Só ele sabia a verdade. Mas não podia revelá-la. Deixaria que a História se encarregasse disso, se seus representantes fossem competentes.
Vestiu-se para a batalha e subiu no cavalo, que estava inquieto.
Quando finalmente as lanças e espadas dos soldados do Duque de Richmond atravessaram seu corpo, Ricardo III da Inglaterra só pôde sentir alívio.
Era o ano de 1485 e o campo de Bosworth se encheu de fantasmas. E fantasmas não têm pesadelos.
Quando acordou, sabia que ia morrer. Tivera pesadelos terríveis a noite toda, e a manhã estava fria (embora fosse verão) na borda do campo de batalha. Na colina oposta, tremulava o estandarte do adversário -- um arrivista covarde, filho de rainha viúva com camareiro. Ele, ali, o último dos reis guerreiros de uma longa linhagem, sabia que o trono era seu por direito, mas fora longe demais. Mandara matar gente demais; achara que o povo odiaria, como ele e os seus de York, a esposa de seu irmão, o falecido rei Eduardo, uma pobretona que pôs todos os parentes nos melhores cargos e, no fundo, ajudara a levar à Torre seu irmão George.
Mas o povo era volúvel, como o é em todos os tempos, e ele, o caçula e o mais leal irmão do rei Eduardo -- George, era verdade, vivia conspirando -- passou a ser temido. Ainda mais depois que seus sobrinhos desapareceram misteriosamente da Torre. Disseram que ele os havia assassinado para garantir sua permanência no trono.
Só ele sabia a verdade. Mas não podia revelá-la. Deixaria que a História se encarregasse disso, se seus representantes fossem competentes.
Vestiu-se para a batalha e subiu no cavalo, que estava inquieto.
Quando finalmente as lanças e espadas dos soldados do Duque de Richmond atravessaram seu corpo, Ricardo III da Inglaterra só pôde sentir alívio.
Era o ano de 1485 e o campo de Bosworth se encheu de fantasmas. E fantasmas não têm pesadelos.
29.5.05
Extraído de um email que enviei para uma amiga querida:
"Outro dia vi aquele filme em que a Gwyneth Paltrow vive a Sylvia Plath, aquela poeta americana que se matou em 1963. Me identifiquei muito com os mergulhos da personagem na solidão e com sua insegurança eterna. Quando escrevo minhas coisas, é como se eu voltasse a ser um menino: volta a sensação de estar perdido na voragem do mundo, o pavor da solidão, a certeza de ser sempre incompreendido."
"Outro dia vi aquele filme em que a Gwyneth Paltrow vive a Sylvia Plath, aquela poeta americana que se matou em 1963. Me identifiquei muito com os mergulhos da personagem na solidão e com sua insegurança eterna. Quando escrevo minhas coisas, é como se eu voltasse a ser um menino: volta a sensação de estar perdido na voragem do mundo, o pavor da solidão, a certeza de ser sempre incompreendido."
20.5.05
O novo episódio de Star Wars é mesmo o melhor desta nova saga de George Lucas. Se eu voltasse aos meus 15 anos (idade com que vi o primeiro episódio da saga antiga), vibraria mais. O começo do filme é um dos melhores começos de filme de aventura dos últimos tempos. Mas a história, é claro, é totalmente previsível.
Mesmo assim, é um clássico com a marca legítima Star Wars.
É como me disse o Jan Theophilo: por que não teve toda essa ação nos dois primeiros, pô?
Mesmo assim, é um clássico com a marca legítima Star Wars.
É como me disse o Jan Theophilo: por que não teve toda essa ação nos dois primeiros, pô?
18.5.05
Outro dia almocei com a Babs. Foi ótimo e matei a saudade, porque mal tenho tido tempo de sair e espairecer. Ela também anda superatarefada com um monte de coisas, e não nos falamos com calma há meses. No almoço, deu para ensaiar uma atualizada no papo, mas ainda faltam muitos chopes para ficarmos up-to-date.
Ela está linda como sempre e com aquela jovialidade capaz de derreter um coração de granito.
Merece, pois, as palavras imortais que Lord Henry Wotton disse a Dorian Gray num jardim vitoriano em 1890:
"You have only a few years in which to live really, perfectly, and fully. (...) Time is jealous of you, and wars against your lilies and your roses. (...) Live! Live the wonderful life that is in you! Let nothing be lost upon you. Be always searching for new sensations. (...) With your personality there is nothing you could not do. The world belongs to you for a season."
Ela está linda como sempre e com aquela jovialidade capaz de derreter um coração de granito.
Merece, pois, as palavras imortais que Lord Henry Wotton disse a Dorian Gray num jardim vitoriano em 1890:
"You have only a few years in which to live really, perfectly, and fully. (...) Time is jealous of you, and wars against your lilies and your roses. (...) Live! Live the wonderful life that is in you! Let nothing be lost upon you. Be always searching for new sensations. (...) With your personality there is nothing you could not do. The world belongs to you for a season."
Hoje uma amiga muito querida me enviou um email contando que, numa prova a que se submeteu num curso que está fazendo, havia um trecho de reportagem minha no Info Etc. Ela ficou exultante e rimos muito ao telefone (liguei assim que vi a mensagem). E eu também percebi que estou ficando velho mesmo ;-))
De qualquer maneira, é um luxo ser citado nesse contexto, não?
Mudando de assunto: puxa vida, será que é verdade esse negócio de R$ 250 mil para a Ana Paula Padrão no SBT? Se for, chega a dar depressão...
De qualquer maneira, é um luxo ser citado nesse contexto, não?
Mudando de assunto: puxa vida, será que é verdade esse negócio de R$ 250 mil para a Ana Paula Padrão no SBT? Se for, chega a dar depressão...
17.5.05
Mês agitadíssimo. Nova coluna, ao lado de mestres Cat e Piropo. Terminando mais um livro, com quilos de capítulos em produção. E tome matérias, matérias, matérias e mais matérias semanalmente. E ainda tenho projetos de consultoria na parada.
Bom, normal para quem está acostumado com o ritmo. Mas eu sonho todo dia com minhas férias, que só chegam no segundo semestre...
Por isso tenho postado pouco. No feriado de Corpus Christi vou compensar, moçada.
Bom, normal para quem está acostumado com o ritmo. Mas eu sonho todo dia com minhas férias, que só chegam no segundo semestre...
Por isso tenho postado pouco. No feriado de Corpus Christi vou compensar, moçada.
24.4.05
Minicontos do desconforto -- 78
Trinta e três anos depois, ele não a reconheceu de imediato quando entrou no restaurante (e ficou encabulado). Mas, depois de duas horas de papo, quando desceu as escadas, viu-se novamente no Rio de Janeiro de 1972 e riu junto com o Tempo gozador que era agora o porteiro do restaurante que não mais existia (isto é, não existia ainda).
O Tempo, com uma mesura e uma piscadela de olho, fê-lo entender que viajar por suas dimensões fugidias nada tinha a ver com a teoria da relatividade de Einstein, nem com astrofísica.
Tinha a ver com um grande amor. Do tipo que não se realiza.
Então ele se sentou no meio-fio e chorou amargamente a perda do que, no fundo, jamais tivera.
Trinta e três anos depois, ele não a reconheceu de imediato quando entrou no restaurante (e ficou encabulado). Mas, depois de duas horas de papo, quando desceu as escadas, viu-se novamente no Rio de Janeiro de 1972 e riu junto com o Tempo gozador que era agora o porteiro do restaurante que não mais existia (isto é, não existia ainda).
O Tempo, com uma mesura e uma piscadela de olho, fê-lo entender que viajar por suas dimensões fugidias nada tinha a ver com a teoria da relatividade de Einstein, nem com astrofísica.
Tinha a ver com um grande amor. Do tipo que não se realiza.
Então ele se sentou no meio-fio e chorou amargamente a perda do que, no fundo, jamais tivera.
19.4.05
Voltei do evento de segurança. Foi bem programado e deixou um tempinho para relaxar in-between. Wal anda reclamando (não sem razão) que estou viajando demais, mas o que fazer? Navegar, voar, correr é preciso nesse mundão techie ;-)
Eu só queria que meu cérebro tivesse Hyper Threading, aquela tecnologia que faz uma CPU trabalhar por duas, para absorver tanta informação.
Eu só queria que meu cérebro tivesse Hyper Threading, aquela tecnologia que faz uma CPU trabalhar por duas, para absorver tanta informação.
13.4.05
5.4.05
Semana agitada com a morte do papa e os debates sobre seu sucessor. Mal cheguei de viagem (veja o Cadafalso I) e precisei dar uma forcinha ao pessoal da Inter no caderno especial. Cheguei ontem em casa pelas onze e meia da noite e cinco da matina estava pronto para voar para Sampa, de onde estou postando isto, num evento da Sun com o pai do Java, James Gosling. O keynote dele foi bem interessante, mostrando as muitas facetas da xicrinha, que completa dez anos de vida em maio.
23.3.05
É isso aí!
"AUMENTO ZERO NÃO
Jornalistas lotam o Sindicato e decidem lutar contra tese xiita
Um evento como há muito não se via no Rio de Janeiro. Auditório lotado, os jornalistas profissionais deram um show de solidariedade e mobilização na assembléia da noite de ontem. Por praticamente unanimidade, foram rejeitadas as propostas patronais de rádio e TV e jornais e revistas de aumento real zero em 2005. A tentativa dos patrões de dividir os jornalistas, propondo abonos diferenciados, foi reprovada. A assembléia autorizou o Sindicato a fechar um acordo somente se os patrões deixarem o radicalismo de lado e entenderem que temos direito a aumento real para compensar um sacrifício que dura quatro anos, com reajustes inferiores à inflação.
A assembléia autorizou o Sindicato carioca a iniciar um movimento com o Sindicato de São Paulo para alertar a opinião pública a respeito do desinvestimento nas redações e na qualidade do jornalismo. Em São Paulo, os jornalistas de jornais e revistas conseguiram um aumento real além dos abonos, mas o acordo com rádio e TV não foi fechado, apesar de a data-base ser em dezembro, porque lá também eles insistem no mesmo radicalismo: zero de aumento real. No caso do Rio o radicalismo é ainda mais incompreensível porque os veículos tiveram um desempenho em 2004 superior à média nacional. Em um ano o aumento do faturamento bruto com publicidade foi de 33,15% nas TVs, 20,61% nos jornais e 37,91% nas rádios.
Os patrões insistem no princípio xiita do aumento zero em vez de se abrirem ao diálogo (como sempre fizemos) e aproveitarem o momento favorável da economia para começar a pagar sua dívida conosco. Por aceitarmos reajustes inferiores à inflação nós acumulamos, em quatro anos, perdas que somam 11,99% na mídia impressa e 14,5% nas emissoras. Sem contar a inflação de 5,8% do último ano. A assembléia considerou a proposta de aumento real zero um radicalismo sem sentido e rejeitou um acordo só com esmolas, ou melhor, abonos. Por mais interessante que pareça em um primeiro momento, todos sabemos que abono vira pó rapidamente. Precisamos começar a repor as perdas que aceitamos em nome de uma recessão que não existe mais.
O momento é de mobilização e o sucesso do nosso movimento depende de você. A assembléia de ontem mostrou que os jornalistas querem lutar por qualidade de vida. Se você acha que chegou a hora de parar de perder salário, aceite o desafio de convencer seu colega, seu chefe, seu editor e a direção de sua empresa de que nossa reivindicação é simplesmente justa. Os representantes patronais têm argumentado que o momento brasileiro é bom, o desempenho do setor foi sensacional, mas não podem dar aumento porque não sabem como será o futuro. Mas não é assim mesmo que as coisas funcionam? Por acaso só teremos direito a aumento quando eles tiverem uma lâmpada de Aladim ou uma bola de cristal para adivinhar um futuro eternamente grandioso?
É importante você saber que não estamos falando de futuro, mas de um ano de grande desempenho positivo das empresas, de fevereiro de 2004 a janeiro de 2005. E de quatro anos de perdas passadas. Quando aceitamos as perdas, não usamos o argumento ridículo de que o futuro seria melhor. Se a economia brasileira piorar no futuro, saberemos, como sempre, agir com flexibilidade e dividir o prejuízo. Mas agora temos direito à divisão de um bolo que cresceu muito. A maioria das categorias profissionais no Brasil tem conseguido aumentos reais em função disso. Não há motivo para discriminação contra os jornalistas. Não somos categoria de segunda.
Mobilize sua redação, chame o colega para a discussão, fortaleça sua categoria e prestigie seu sindicato. Faça reuniões, debata, pressione. Use os adesivos que vamos distribuir contra o radicalismo do aumento real zero. Prepare-se para a próxima assembléia, que vamos convocar provavelmente na próxima semana. Vamos dizer que os jornalistas do Rio decidiram não trocar seus direitos e sua dignidade por abonos passageiros. E que não concordamos com um radicalismo absurdo que prega o aumento zero em tempo de vacas magras ou gordas. Não ao aumento zero!
Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro"
"AUMENTO ZERO NÃO
Jornalistas lotam o Sindicato e decidem lutar contra tese xiita
Um evento como há muito não se via no Rio de Janeiro. Auditório lotado, os jornalistas profissionais deram um show de solidariedade e mobilização na assembléia da noite de ontem. Por praticamente unanimidade, foram rejeitadas as propostas patronais de rádio e TV e jornais e revistas de aumento real zero em 2005. A tentativa dos patrões de dividir os jornalistas, propondo abonos diferenciados, foi reprovada. A assembléia autorizou o Sindicato a fechar um acordo somente se os patrões deixarem o radicalismo de lado e entenderem que temos direito a aumento real para compensar um sacrifício que dura quatro anos, com reajustes inferiores à inflação.
A assembléia autorizou o Sindicato carioca a iniciar um movimento com o Sindicato de São Paulo para alertar a opinião pública a respeito do desinvestimento nas redações e na qualidade do jornalismo. Em São Paulo, os jornalistas de jornais e revistas conseguiram um aumento real além dos abonos, mas o acordo com rádio e TV não foi fechado, apesar de a data-base ser em dezembro, porque lá também eles insistem no mesmo radicalismo: zero de aumento real. No caso do Rio o radicalismo é ainda mais incompreensível porque os veículos tiveram um desempenho em 2004 superior à média nacional. Em um ano o aumento do faturamento bruto com publicidade foi de 33,15% nas TVs, 20,61% nos jornais e 37,91% nas rádios.
Os patrões insistem no princípio xiita do aumento zero em vez de se abrirem ao diálogo (como sempre fizemos) e aproveitarem o momento favorável da economia para começar a pagar sua dívida conosco. Por aceitarmos reajustes inferiores à inflação nós acumulamos, em quatro anos, perdas que somam 11,99% na mídia impressa e 14,5% nas emissoras. Sem contar a inflação de 5,8% do último ano. A assembléia considerou a proposta de aumento real zero um radicalismo sem sentido e rejeitou um acordo só com esmolas, ou melhor, abonos. Por mais interessante que pareça em um primeiro momento, todos sabemos que abono vira pó rapidamente. Precisamos começar a repor as perdas que aceitamos em nome de uma recessão que não existe mais.
O momento é de mobilização e o sucesso do nosso movimento depende de você. A assembléia de ontem mostrou que os jornalistas querem lutar por qualidade de vida. Se você acha que chegou a hora de parar de perder salário, aceite o desafio de convencer seu colega, seu chefe, seu editor e a direção de sua empresa de que nossa reivindicação é simplesmente justa. Os representantes patronais têm argumentado que o momento brasileiro é bom, o desempenho do setor foi sensacional, mas não podem dar aumento porque não sabem como será o futuro. Mas não é assim mesmo que as coisas funcionam? Por acaso só teremos direito a aumento quando eles tiverem uma lâmpada de Aladim ou uma bola de cristal para adivinhar um futuro eternamente grandioso?
É importante você saber que não estamos falando de futuro, mas de um ano de grande desempenho positivo das empresas, de fevereiro de 2004 a janeiro de 2005. E de quatro anos de perdas passadas. Quando aceitamos as perdas, não usamos o argumento ridículo de que o futuro seria melhor. Se a economia brasileira piorar no futuro, saberemos, como sempre, agir com flexibilidade e dividir o prejuízo. Mas agora temos direito à divisão de um bolo que cresceu muito. A maioria das categorias profissionais no Brasil tem conseguido aumentos reais em função disso. Não há motivo para discriminação contra os jornalistas. Não somos categoria de segunda.
Mobilize sua redação, chame o colega para a discussão, fortaleça sua categoria e prestigie seu sindicato. Faça reuniões, debata, pressione. Use os adesivos que vamos distribuir contra o radicalismo do aumento real zero. Prepare-se para a próxima assembléia, que vamos convocar provavelmente na próxima semana. Vamos dizer que os jornalistas do Rio decidiram não trocar seus direitos e sua dignidade por abonos passageiros. E que não concordamos com um radicalismo absurdo que prega o aumento zero em tempo de vacas magras ou gordas. Não ao aumento zero!
Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro"
22.3.05
19.3.05
Recebi ontem este email do Maloca Mendes, e é exatamente assim que nós, músicos que abandonaram a música e vivem hoje só flertando com ela de vez em quando, nos sentimos:
"Barba,
Cá estou às tantas da madrugada, bêbado, arranhando, para desespero
dos vizinhos, meu desafinado violão, quando lembro de uma canção
perdida no tempo, uma canção que me faz ter saudade de uma garagem na
Rua Passos da Pátria.
A melodia não é nossa, infelizmente, mas a tua versão para 'Pigs on the
Wing', aquela que tocávamos em sábados perdidos nas brumas do tempo, é
um marco. Pelo menos para mim. Até por que era uma das poucas que eu
conseguia tocar sem titubear.
Não consigo lembrar da letra em inglês sem que me venham os teus versos.
Essa música, na minha memória é uma parceria tua com o Waters.
Por onde andarão Minhoca [guitarrista da velha banda] e Palito [baterista da mesma banda]? Por onde andamos nós?
É incrível como o tempo passa e a vida se esvai sem que nos demos conta...
Até quando buscaremos abrigo contra os porcos a voar?
Saudades de você, camarada.
Desculpe o sentimentalismo etílico.
Maloca"
Meu caro, eu também tenho saudades. E, como lhe respondi, temos que pegar os violões e fugir para a casa do velho Carlos Octavius lá em Itaipuaçu para soltar todo esse blues na praia, à noite. E o Gustones e a Marcele têm de vir junto.
É mesmo uma merda ficar sem tocar e só relembrar tempos mais loucos que ficaram para trás.
E também preciso beber mais. Estou sóbrio há decênios.
"Barba,
Cá estou às tantas da madrugada, bêbado, arranhando, para desespero
dos vizinhos, meu desafinado violão, quando lembro de uma canção
perdida no tempo, uma canção que me faz ter saudade de uma garagem na
Rua Passos da Pátria.
A melodia não é nossa, infelizmente, mas a tua versão para 'Pigs on the
Wing', aquela que tocávamos em sábados perdidos nas brumas do tempo, é
um marco. Pelo menos para mim. Até por que era uma das poucas que eu
conseguia tocar sem titubear.
Não consigo lembrar da letra em inglês sem que me venham os teus versos.
Essa música, na minha memória é uma parceria tua com o Waters.
Por onde andarão Minhoca [guitarrista da velha banda] e Palito [baterista da mesma banda]? Por onde andamos nós?
É incrível como o tempo passa e a vida se esvai sem que nos demos conta...
Até quando buscaremos abrigo contra os porcos a voar?
Saudades de você, camarada.
Desculpe o sentimentalismo etílico.
Maloca"
Meu caro, eu também tenho saudades. E, como lhe respondi, temos que pegar os violões e fugir para a casa do velho Carlos Octavius lá em Itaipuaçu para soltar todo esse blues na praia, à noite. E o Gustones e a Marcele têm de vir junto.
É mesmo uma merda ficar sem tocar e só relembrar tempos mais loucos que ficaram para trás.
E também preciso beber mais. Estou sóbrio há decênios.
Meu domicílio eleitoral não é no Rio (voto em Niterói). Mas trabalho e tenho boa parte de minha vida na cidade que ainda considero maravilhosa e única em seu estilo, e se dependesse de mim Cesar Maia sofreria um impeachment. A maneira leviana como trata questões de saúde e segurança, deixando os cidadãos à míngua por divergências com autoridades estaduais e federais, e o acinte à população carioca com o anúncio de sua candidatura à Presidência logo após lhe ser dado um novo mandato são suficientes, a meu ver, para defenestrá-lo de uma vez por todas. O Rio de Janeiro precisa de lideranças decentes já! Estou com a Cora e o Jabor: o Partido do Rio de Janeiro tem que nascer imediatamente.
Aliás, os governantes do estado também deveriam voltar para o interior e apodrecer lá para todo o sempre.
A intervenção federal na saúde tem de continuar e precisa ser seguida por uma fortíssima na segurança. Já. Já estamos, na prática, acéfalos de autoridade há muito tempo, por isso o governo federal precisa agir. Pára de pensar em reforma ministerial, Lula, e olhe para nós, os desassistidos.
Aliás, os governantes do estado também deveriam voltar para o interior e apodrecer lá para todo o sempre.
A intervenção federal na saúde tem de continuar e precisa ser seguida por uma fortíssima na segurança. Já. Já estamos, na prática, acéfalos de autoridade há muito tempo, por isso o governo federal precisa agir. Pára de pensar em reforma ministerial, Lula, e olhe para nós, os desassistidos.
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