19.2.03

Flashes -- II

Ele sentou-se à mesa sob o ar-condicionado para esperá-la mais sossegadamente. Então pediu uma taça de vinho espumante e bolinhos crocantes de carne tenra. Qual Proust, foi teleportado a outras paragens enquanto aguardava. Quando ela chegou, perguntou, sorrindo, se estava cochilando. A resposta, imediata, foi a de que jamais estivera tão desperto.

18.2.03

"Alice sighed wearily. `I think you might do something better with the time,' she said, `than wasting it in asking riddles that have no answers.'

`If you knew Time as well as I do,' said the Hatter, `you wouldn't talk about wasting it. It's him.' "

(Lewis Carroll, "Alice no país das maravilhas")

14.2.03

"Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento, cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. (...) O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo por si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser: é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe."

Maravilhoso parágrafo de Lou-Andreas Salomé, citada pela querida AngelBlue.

13.2.03

Já que o português anda desvirtuado mesmo, vamos rebatizar nossos bairros de uma vez... Alguns naquele inglês castiço de "The cow went to the swamp" ;-)))

Big Field - Campo Grande
Little Field - Campinho
Nice to meet you - Encantado
Will go now - Irajá
To walk there - Andaraí
Dry Square - Praça Seca
Set fire - Botafogo
Costumers - Freguesia
Very very holy - Santíssimo
Wait a minute - Paciência
Setting free - Livramento
Good Success - Bonsucesso
Very deep island - Ilha do Fundão
Grandson Rabbit - Coelho Neto
High School - Colégio
Funny view - Vista Alegre
Hard Cover - Cascadura
Mercy - Piedade
Well stay - Benfica
Bless you - Saúde
Flag Square - Praça da Bandeira
Flagmen Funtime - Recreio dos Bandeirantes
Small Farm - Rocinha
Change - Muda
All of the Saints - Todos os Santos
Mary of Grace - Maria da Graça
Holy Cross - Santa Cruz
Hello smile - Olaria
Mango Tree - Mangueira
Inside Mill - Engenho de Dentro
New Mill - Engenho Novo
Alligator to the water - Jacarepaguá

12.2.03

A propósito, quer saber o que vai mesmo acontecer quando a guerra começar? Dê uma olhada neste joguinho em inglês que Mestre C@t mandou para a sua lista...

10.2.03



Veja tudo sobre esta excelente iniciativa contra a arrogância americana aqui.
Sexta-feira, por volta de nove e meia da noite. Eu e Elis Monteiro estamos indo embora da redação depois do fechamento do caderninho. Entramos no elevador, onde já havia mais três pessoas, e pouco depois de ele começar a descer, pimba! acende-se uma luz de emergência no teto ao mesmo tempo que o elevador dá um solavanco e pára. Que ótimo. Presos no elevador numa véspera de sábado (e isso depois de todos os azares que a Elisinha tem tido ultimamente: torceu o pé, enguiçou com o carro na ponte, perdeu a voz uns três dias... ). Tivemos que rir da ironia da situação. Toquei o botão de emergência, que mais parecia um cacarejo ou um efeito de música funk. Ninguém ouviu. Batemos na porta. Ninguém ouviu. Gritamos. Nada. Elis pegou o celular e ligou para a redação, avisando do ocorrido. Depois, ligou para a portaria. Foi quando ouvimos o telefone tocando do outro lado da porta e resolvi tentar abri-la. Logo recebi ajuda de outro ocupante do elevador e conseguimos abrir a porta. Estávamos um pouco acima do nível do chão da portaria, e foi possível pular sem problemas. Ufa!

7.2.03

Telefonei esta semana para uma amiga muito querida, para matar as saudades (não a vejo há uns dois meses). E foi bom conversar, ainda que rapidamente. Você percebe que uma pessoa mexe com seu íntimo quando se emociona apenas por ouvir a voz dela atendendo o telefone. Parece bobagem, mas eu garanto que não é.

5.2.03

Deu na "Wired":

No One Asked Why He Wanted to Die (Culture 2:00 a.m. PDT)

A troubled young man's downward spiral before committing suicide is
chronicled in posts to an online message board whose participants give
him suggestions about how to kill himself. Is the website responsible
for his death?

4.2.03

Minicontos do desconforto -- 47

Mentiu tanto para ela que a relação dos dois virou uma farsa. Parecia a seqüência de filmes de 007: quanto mais elaboradas e absurdas as mentiras, mais divertido. Até que um dia, penitente, ele disse a verdade nua em pêlo.
Ela jogou as pipocas e o refrigerante em sua cabeça e saiu no meio da sessão.
Ele jurou a si mesmo nunca mais dizer a verdade. Anos mais tarde, virou parlamentar.
Minicontos do desconforto -- 46

Percebeu que tudo estava acabado quando ela começou a passar as noites diante da TV. Mas adiou a decisão. Até que um dia a encontrou lambendo o controle remoto.
Partiu sem dizer adeus.

31.1.03

Vou tomar uma cerveja hoje com meu grande amigo Octavius Britus, um sábio em muitas áreas. Há milênios não nos vemos, devido aos desencontros de trabalhos e viagens. Espero que ele tome vergonha e algum dia mande alguns de seus poemas para eu publicar no Cadafalso I.
"Of what a strange nature is knowledge! It clings to the mind, when it has once seized on it, like a lichen on the rock. I wished sometimes to shake off all thought and feeling; but I learned that there was but one means to overcome the sensation of pain, and that was death--a state which I feared yet did not understand."

(Mary Shelley, "Frankenstein")

30.1.03

Ou melhor: Senhor, dai-me uma guitarra. Aí as coisas vão melhorar ;-)
Vou confessar uma coisa: estou doido para este mês de janeiro acabar e ver se fevereiro traz fluidos mais simpáticos. O mês foi um horror para mim em todos os sentidos. Estou precisando espairecer, com urgência. A família de Wal toda está lá em casa (minha segunda sobrinha está para nascer, e como o pessoal mora longe, precisa fazer um pit-stop por lá), Wal anda uma pilha de nervos e acaba sobrando para mim (logo eu, que não gosto de levar desaforo para lugar nenhum...). Já deu para sentir o clima, né? E não posso nem falar nada, porque, se não fossem minha sogra e minha cunhada, eu ia ficar sem grana mesmo este mês.
Mas que dá um desânimo, lá isso dá. Meu consolo é ir trabalhar. Mas desde quando trabalho é calmante? Senhor, dai-me paciência e equilíbrio.

29.1.03

Tive uma experiência com o Multishow semelhante à que o Gustones teve tempos atrás. Resolvi gravar o show "Kiss: The Last Kiss", que a banda deu em Nova Jersey em 27 de junho de 2000, na última segunda-feira. Mal começou o programa -- tocou só uma música, "Detroit Rock City" -- e entrou um aviso "Interrompemos este programa para exibir o Big Brother Brasil. Dentro de vinte minutos voltaremos à programação normal". Fui tomado por um acesso de fúria e por pouco não joguei tudo no quintal de casa: televisão, set-top box da Net, o escambau. Felizmente estava assistindo enquanto gravava e dei um pause bem na hora. E felizmente, de novo, depois do BBB (que não vi, é óbvio. Troquei de canal na hora) o show recomeçou do exato ponto em que havia parado e foi até o fim. Agora, vem cá, se eles têm que exibir os vinte minutos desta porcaria de reality (realidade? onde?) show, porque não iniciam os programas do horário um pouquinho mais tarde e avisam seus telespectadores? Mas não, têm que interromper a qualquer minuto a programação, como se aquela merda do BBB fosse alguma notícia importante de última hora, e nos deixar à mercê do brilhantismo intelectual dos participantes.
D'après Patricia Kogut, aqui vai minha nota: zero mil zerocentos e zerenta e zero.

* * *

E a Warner ontem, que exibiu seus episódios de "Friends" sem legendas? Tá bom que a gente já tem um monte de palavras em inglês embutidas na língua, mas isso é ridículo. Esses canais não têm o mínimo respeito pelo assinante. E isso tudo sem falar dos anúncios sobre "novas temporadas" em meio a episódios repetidos à exaustão. No Sony é a mesma coisa. Nota zero absoluto Kelvin.

27.1.03

Minicontos do desconforto -- 45

-- O próximo -- disse o velho no portão.
Ele levantou-se e tocou um blues lento.
-- Só isso? -- perguntou o velho.
Ele apontou para cima. O velho olhou.
Todos os os anjos haviam parado de cantar e tocar suas liras e estavam ouvindo. Todos choravam (por isso choveu tanto no Mississippi aquela semana).
Então Pedro deixou o guitarman entrar. E Deus deu-lhe uma garrafa de uísque, para que não perdesse a tristeza entre as nuvens.

25.1.03

Da ótima, ótima, ótima coluna de Arnaldo Bloch sobre TPM:

"— Raiva, tristeza, melancolia, desejo de morrer e vontade de quebrar tudo? Bom, eu sou homem e sinto isso toda semana."

Cara, podes crer.

24.1.03

"Permite-me que um instante repouse na calma das Idéias, concentre cultualmente o Espírito, como no recolhido silêncio das igrejas góticas, e deixe lá fora, no rumor do mundo, o tropel infernal dos homens ferozmente rugindo e bramando sob a cerrada metralha acesa das formidandas paixões sangrentas."

(Cruz e Souza, "Oração ao Sol")

23.1.03

Minicontos do desconforto -- 44

Brigaram. Ele jogou um dos pratos favoritos dela, com a imagem da Igreja do Senhor do Bonfim, na pia com violência, e o pobre partiu-se. Ela, sempre calma, mas com talentos vulcânicos, cerrou os dentes, foi até o armário, pegou a louça que a madrinha dele lhes dera no casamento e a atirou, peça a peça, a seus pés.
Naquele momento tocou "Eine kleine nachtmusik" na casa ao lado.
Os dois levaram um pequeno susto.
Depois, do nada, riram.
E improvisaram uma dança desajeitada sobre os cacos.

22.1.03

Stevie Ray Vaughan morreu num estúpido acidente de helicóptero em agosto de 1990, após um show junto com Eric Clapton e Buddy Guy. Tinha 35 anos. Mas seu legado na guitarra é eterno. Peguei um DVD com duas apresentações suas no programa "Austin City Limits", uma em 83, no começo do sucesso, e outra em 89, no auge. Nas duas, o homem estava soberbo. Mesmo nervoso na primeira, ele arrasou em "Pride and Joy" e "Voodoo Chile", de Hendrix, uma música que poucos guitarristas conseguem executar direito até hoje. Na segunda, mais relax, com a adição do excelente tecladista Reese Wyman à sua Double Trouble, Vaughan arrasa ainda mais em sons como "Don't bother knocking", "Cold shot" e "Crossfire".
Eu me confesso um viciado em solos de guitarra, ainda mais se tiverem embutido o feitiço do blues. Gosto de rock pesado, mas não necessariamente do que meu antigo professor de música chamava de "pilotos de guitarra" -- aqueles caras que tocam um zilhão de notas por minuto, sem deixar o ouvinte saborear realmente a beleza do instrumento. Existem alguns muito bons, é verdade, como o Yngwie Malmsteen, por exemplo, mas para mim o bom guitarrista é aquele que sabe dar a nota certa na hora certa. Uma questão de feeling, e, claro, de dom também. Acho que na música pop mainstream de hoje os solos fazem muita falta.

17.1.03

“My nerves are bad to-night. Yes, bad.
Stay with me.
Speak to me.
Why do you never speak. Speak.
What are you thinking of?
What thinking? What?
I never know what you are thinking. Think.”

I think we are in rats’ alley
Where the dead men lost their bones.


(Thomas Stearns Eliot, "A game of chess")

16.1.03

A Crib Tanaka me mandou este filmezinho imperdível, que veio lá do Pulso Único. Assistam...

14.1.03

É duro ser crocodilo do outro lado do mundo. Vejam o que deu na CNN:

Crocodilo é preso em delegacia da Austrália. Motivo: vadiagem

4 de janeiro, 2003
Às 2:04 PM hora de Brasília (1604 GMT)

SYDNEY -- Um crocodilo foi preso por vadiagem e levado para a cela da delegacia da cidade de Derby, na região ocidental da Austrália, depois que as autoridades o capturaram quando perambulava no quintal de uma casa de repouso para idosos.
Segundo os policiais, o réptil, de 1,5 metro de comprimento, teria saído de um pântano da cidade e foi capturado na quinta-feira.
"Acho que ele chegou com a maré alta", disse o chefe policial Junior Djiagween. "E, provavelmente, descansava em algum lugar dos pântanos, quando a maré baixou e ele não tinha água para nadar". (...)

13.1.03

Minicontos do desconforto -- 43

Um amigo ligou para ele às 9:44 para dizer apenas: "Não suma, estou com saudade." Mesmo meio dormindo, sorriu. E percebeu que estava perdendo a batalha contra o conformismo. Naquela semana, telefonou para todo o seu catálogo de endereços -- mesmo para aqueles que não tinha muita vontade de ver por desentendimentos passados. Entendeu que a preguiça de ver as pessoas era o primeiro passo para o isolamento, onde era presa fácil para seus próprios demônios.

9.1.03

Comprei ontem e vi o DVD "Deep Purple -- Machine Head Live 1972", com um show na Dinamarca da banda em sua melhor fase: Ritchie Blackmore (guitarra), Jon Lord (teclados), Ian Paice (bateria), Ian Gillan (vocal) e Roger Glover (baixo). O show é pura eletricidade. Gillan arrebentando os pulmões em "Child in Time", Lord enlouquecendo e transformando partes de músicas em puro jazz com pitadas de clássicos, o igualmente louco Blackmore equilibrando a guitarra de ponta-cabeça nas mãos ou deitando-a ao chão para solar com os pés (e levando o público à loucura em "Lazy") e a máquina letal de bater em tambores que é Ian Paice no solo de "The Mule". O "Made in Japan", que seria gravado em agosto daquele ano, já estava todinho ali, com a exceção de "Smoke on the water". Fiquei estupefato vendo a performance dos caras. No fim, uma versão animadíssima de "Lucille", de Little Richard", e para fechar, "Black Night".
Também fiquei de comentar aqui o filme "The Last Waltz", em que a The Band se despediu das turnês em 76 no Winterland de San Francisco. Liderada pelo guitarrista Robbie Robertson, a banda arrasa junto com convidados como Ronnie Hawkins (cuja execuçào de "Who do you love?", permeada por gritos guturais, é hilária), Eric Clapton (com direito a duelos de guitarra com Robertson em "Further up the road"), Bob Dylan (com quem tocam "Forever young"), Van Morrison, The Staples e mais. Nos intervalos, depoimentos e histórias da banda. No fim, um Robertson com os olhos cheios d'água resume o motivo da despedida das turnês: "É apenas uma vida impossível".
Depois escrevo mais. Quero comentar sobre Stevie Ray Vaughan, um de meus guitarristas favoritos, e sobre um belo show da Sheryl Crow em Detroit.

8.1.03

Minicontos do (des)conforto -- 42

Gostava de observá-la dormindo, despudorada. Era quando revelava toda a inocência escondida na mulher forte e decidida. Isso também acontecia, em menor escala, quando ela estava distraída, fazendo qualquer coisa trivial -- fumando, lendo, escolhendo uma uva geladinha.
No dia seguinte, ganhou um dinheirinho inesperado no bicho. Chamou-a para a noite e gastaram tudo numa bela farra. Depois, no chope semanal com os amigos, ouviu de um deles:
-- Aí, cara, como é que você desperdiça tua sorte dessa maneira, gastando tudo no mesmo dia?
A resposta saiu de pronto.
-- Não foi desperdício. Minha sorte está em casa e eu investi nela.

6.1.03

Excelente a festa de aniversário do Gustones e da Elis, na Spin, sábado passado. Dançamos até nos acabarmos. Uma bela galera jornalística e a turma dos blogs se juntaram na bagunça geral. Nada como começar o ano com festas ;-))

3.1.03

Calendário

Naquele réveillon, o estudante jurou nunca mais se apaixonar. E a conheceu no dia seguinte, na praia.
No carnaval, a recém-apresentada que bocejara diante de seu papo-cabeça tascou-lhe um beijo no campo de futebol, longe do salão, no escuro.
Na semana santa, reviu a prima, que o arrastou para trás de uma árvore no fim da procissão.
Nas férias de julho... ah, com aquele frio...
Em sete de setembro ia dar certo, afinal o dia era da independência. Mas a irmã tinha uma amiga da Aeronáutica.
Por fim, no dia de finados pôs um buquê de cravinas sobre a lápide do seu juramento, que já fora comido pelos vermes.
E no réveillon seguinte jurou nunca mais jurar.

2.1.03

Olá! Voltei, pronto para outra, depois de um fim de ano calmo. Revi alguns velhos amigos, mas ainda falta encontrar outros. Descolei um DVD player e vi alguns shows memoráveis, que em breve comentarei aqui. O mais emocionante foi assistir novamente a "The Last Walz", despedida do The Band em 76 em San Francisco filmada pelo Martin Scorsese. Tinha visto o filme no cinema em 78 e ele me acompanha desde então na memória.

20.12.02

Vou dar uma descansada nas próximas semanas. Portanto, feliz Natal e excelentes agitos no Ano Novo a todos os amigos deste Cadafalso!!!!

19.12.02

Mais um conto junto com minha short-story partner!

Lingerie

André Machado e Crib Tanaka

Estavam os dois na seção de lingerie. Ela já olhara para ele e estava com vontade de dar uma risada. Ele tivera aquela idéia maluca de comprar um conjunto ousado para a mulher (era o que se dizia) e agora não sabia onde se esconder do olhar dela. Sentia a vermelhidão nas faces subir como um turbilhão. Foi quando ouviram um apito e gritos de outros fregueses, que saíram correndo da loja.

Ela foi até o caixa mais próximo perguntar o que estava acontecendo. Ele preferiu ignorar tudo e virou-se de costas.

-- O tráfico está passando aí e mandando fechar as lojas -- cacarejou a caixa, fechando atabalhoadamente sua máquina e dando no pé com a bolsa a tiracolo.

Ela olhou para a entrada e viu três homens bem-vestidos portando escopetas. Um apontava para o gerente.

-- Fecha aí senão a gente esculacha! -- vociferou.

A loja já estava quase vazia e as portas, quase totalmente baixadas. Ela hesitou entre ir até lá e voltar para avisar seu "vizinho" da seção de lingerie.

Foi o bastante para trancarem tudo e deixarem os dois às escuras, sozinhos, no exato momento em que ele se dera conta do "bonde" e, correndo, esbarrou com ela no meio do caminho. Ambos caíram sentados no chão e se viram ali, na penumbra, enquanto o efeito do ar-condicionado passava e o calor se fazia cada vez mais presente.

Ele ficou com uma perna esticada; a outra, flexionada, servindo de apoio ao corpo, não sentia nada. O tipo de nada que sobrevém quando milhares de sentimentos circulam freneticamente. Medo, suspense e impotência diante daquela situação onde absolutamente nada poderia ser feito.

Ela ficou ajeitando o vestido e os cabelos. Ria da calcinha vermelha que ele segurava.

-- A noite vai ser boa, né?

Ele, sem graça e acuado diante da pergunta dela, tentava disfarçar a vergonha. Desde pequeno fora educado tradicionalmente. A imagem de sua mãe lhe veio à cabeça. Italiana, num vestido florido e longos cabelos ainda negros, depois de tantos anos. O dedo esticado lhe dando uma bronca por estar com uma calcinha (vermelha) na mão.

Não respondeu nada.

-- Desculpe se o incomodei com a pergunta. É que acho que vamos passar horas aqui dentro. Meu nome é Lara. Comecei a trabalhar aqui hoje e, se já estava perdida antes, imagine agora...

Ela sorriu amarelo e acendeu um cigarro. Ele tossiu, abanando a própria boca.

-- Não tem medo de morrer, não? -- disse, por fim.

-- Tenho medo de morrer velha.

Andando pela loja, ela descobriu o estoque e logo voltou com uma caixa de microcalcinhas de renda, sutiãs transparentes, meias 7/8 brancas.

-- Olhe, vai ver acha alguma coisa interessante por aqui.

Ele afastou a caixa, meio irritado com aquela intimidação. Ela riu com os olhos e pôs a caixa em cima do balcão. Abria os saquinhos de plástico com cuidado, enquanto se olhava no espelho.

-- Licença. -- E logo a cortina do provador fechou-se.

Ele manteve-se impassível.

Ela saiu e pôs algumas peças dentro da bolsa.

-- Veste bem esse aqui, mas não gosto da cor. Leva para ela.

O sutiã branco de algodão caiu no colo dele.

-- Eu estava procurando alguma coisa mais colorida.

-- Olha esse então. -- E voou uma calcinha grande, verde-piscina.

-- Não, essa cor é feia.

Por fim ela jogou em cima dele um espartilho preto, com transparências entremeadas e flores de veludo recortadas minuciosamente. Ele guardou dentro da pasta sem dizer nada.

-- Esse ficou muito bem em mim -- comentou ela.

Em seguida, acendeu outro cigarro. Sentou-se encostada ao balcão, de lado para ele.

-- É para quem?

A porta abriu e a polícia entrou, vociferando "sai, sai!" Eles se levantaram correndo, assustados com a agressividade.

Tomaram caminhos diferentes e só perceberam isso quase chegando às esquinas opostas.

Foi o tempo de ela se virar e ele dizer, só mexendo a boca, sem emitir um som: "é para mim".

17.12.02

Historieta de Natal

Levantou-se. As costelas protestaram. Ainda fazia um friozinho lá fora, mas logo o calor insuportável tomaria seu lugar. Pegou o saco, que encontrara numa lixeira do prédio do BNDES há muitos verões, e que pretendia usar como cobertor, até que viu um carrinho no fundo dele na manhã seguinte e o dera para o filho no Natal daquele ano. Nunca questionara a propriedade multiplicadora do saco. Achava que era porque vinha do governo. Um subsídio que eles não entenderiam. Riu sozinho.
Esquentou o café na caneca surrada. Tragou-o puro, chamejante. Por fim acordou.
Ainda mastigando o pão de ontem com uma bitoca de manteiga, saiu e atrelou o Nicolau à carroça. Nicolau era um burro valente, capaz de agüentar o pior sol de Bangu. Vestiu a camiseta, pôs a velha boina de recruta na cabeça e começou o sacolejo em direção à saída da favela.
Passou o dia distribuindo discretamente presentes às crianças largadas nos sinais, aos adolescentes nos reformatórios, às mães sujas com bebês no colo sob as marquises. O saco funcionou fielmente mais uma vez.
O sol começou a cair e Nicolau já estava subindo a ladeira. Levou a carroça sozinho nos últimos metros, já que ele saltou na birosca. Encheu a cara de cachaça. Só comeu uns salaminhos com cara de safados.
Já de porre o suficiente para ferrar no sono, cambaleou até o barraco.
Nunca mais aquela neve nojenta, pensou.
Nunca mais aqueles duendes babacas.
Nunca mais aquelas renas teimosas.
Demorô.
Quem estaria lá, em seu lugar? Provavelmente o pessoal do marketing. Do marketing e da papelada. Aqueles que sabem tudo sobre sinergia, downsizing, fidelização, o c%$#@&*. Mas não entendem nada de noites felizes, porque são criaturas solitárias.
Pare de pensar nisso, ordenou-se. Caiu na cama improvisada; seu pé esbarrou na mesinha e um passaporte encardido foi ao chão.
Um raio de luar bateu na página onde estava o carimbo DEPORTADO, escrito em inuit, como o "Motivo da deportação: insistência em passar a dar presentes somente às crianças pobres, deixando para os pais mais aquinhoados a tarefa de comprar os de seus filhos. Desacato à Autoridade Celestial Suprema."
Autoridade... bah.
Dormiu o sono dos justos.

16.12.02

Coisas legais enviadas pelo C@t:

Um cartão de natal bonitinho, embora, como ele mesmo avise, com geografia trôpega ;-))

Uma boa gozação com os EUA.

14.12.02

Minicontos do desconforto -- 41

O rosto dela se iluminou quando sua música favorita começou a soar pelas mãos do tecladista. A seu lado, percebendo que ela estava meio tristonha por trás do sorriso, um homem levantou-se e convidou-a para dançar. E dançaram ali no meio do calçadão mesmo, à vista das ondas do mar, que se desmanchavam de ciúme na areia.
No fim, o homem desapareceu tão misteriosamente quanto surgira. E ela também se sentiu estranhamente melhor. Súbito, não lembrava mais por que estava triste.
Ouviu um bater de grandes asas e olhou para cima. Só viu um vulto. Podia ser um gavião perdido, mas ele tinha patas alongadas demais... Algo caiu a seus pés. Uma pétala azul. Tomou-a nas mãos e ela se desmaterializou diante de seus olhos.
Então levou a mão ao coração. Entendeu que pegara de volta um pedacinho -- só um pedacinho -- da tristeza que a afligira. E compreendeu que o homem -- ou o que quer que fosse -- tinha levado todo o resto embora consigo.

13.12.02

Realmente, essa fase pré-governo do Lula está gerando enorme expectativa. Hoje vim ouvindo a conversa de uma senhora com o motorista do ônibus sobre a escolha do novo presidente do Banco Central, o tucano Henrique Meirelles. O motorista achava que Lula já estava pisando na bola; a senhora contrapunha que ele estava fazendo a coisa certa.
Numa coisa, porém, os dois concordaram: para eles, Fernando Henrique Cardoso esculhambou de vez a vida dos aposentados.
Para mim, é especialmente irritante ouvi-lo falar que Lula vai herdar um problemão como se ele não fosse o responsável, no fim das contas.
O que é mais odioso é saber que existe gente que despreza o pessoal do PT por suposta falta de qualidades "cosmopolitas". O Leonardo Pimentel reproduziu em seu blog texto do Clóvis Rossi, da Folha, em que se comenta a gozação de parte da comitiva de FH nos EUA com o fato de o futuro ministro da Fazenda, Antônio Palocci, não falar inglês, ao contrário do atual, Pedro Malan.
Essa mentalidade colonizada é horrenda. Então para governar bem o país um presidente precisa saber discursar em francês no Parlamento em Paris? Ou precisa um ministro ter inglês fluente para negociar com os donos da grana?
Tantas qualidades diplomáticas no governo que se vai não resolveram a questão social brasileira.

12.12.02

Eu bem que gostaria de dar uma viajada na semana do Natal, quando terei uma folguinha. Mas as contas estão apertadas neste mês de dezembro. Às vezes, quando leio a tirinha do Zé do Boné e vejo o personagem sentado no sofá com um monte de contas espalhadas ao redor, sinto-me plenamente identificado com ele. Como seria bom pôr um fim a todas as dívidas de uma vez. Gostaria que isso acontecesse em 2003. Preciso fazer uma boa simpatia para isso ;-))
As crianças devem passar o Natal no sítio da avó materna, que é um lugar perfeito para essas coisas. Já Wal e eu pensamos em dar uma fugidinha. Este ano completamos 15 anos de casamento em outubro e ainda não conseguimos parar para comemorar direito.

10.12.02

Ontem a festa de fim de ano da galera do InfoEtc foi muito divertida. No fim da noite, fomos brindados com a verdadeira e única dança do Ragatanga, com o impagável Cat guiando o pessoal no refrão. Esse Cat...

9.12.02

Nova série (além dos Minicontos do desconforto e das Conversas ;-))...

Flashes -- I

Ele olhou para a baía. A cidade parecia feita de ouro maciço, tão delicada era a reflexão do sol nos poucos arranha-céus dispersos. O céu era de um azul ímpar, apenas maculado pelas gaivotas que voavam baixo, curiosas, observando os passantes no píer. Respirou fundo, sorveu mais um gole da Corona igualmente dourada à sua frente e provou uma colherada do espesso guisado de mariscos que pedira. Não era nenhum Proust, mas depois daquela colherada bem podia escrever um tratado sobre instantes perfeitos. Este era um, tinha certeza.

2.12.02

Welcome to the Hotel California...

28.11.02

Este post vai com antecedência porque estarei viajando a partir de amanhã. Volto semana que vem, a tempo para a festa.

Vou comemorar meus 40 anos dançando ao som de muito rock and roll. Também comemorará seu niver minha querida Alessandra Archer. A festa vai ser na semana que vem, sexta-feira, dia 6 de dezembro, na Spin, a partir de cerca de 22h30, onde o DJ será meu chapa Gustavo de Almeida, rocker dos bons. A Spin fica na rua Teixeira de Melo, 21, em Ipanema. É a primeira transversal logo que se chega na praia. O ingresso custa R$ 5, a consumação, R$ 7.
Música animada para hoje! Yeah!

(...) All you need is your own imagination
So use it that's what it's for
(that's what it's for)
Go inside, for your finest inspiration
Your dreams will open the door
(open up the door)

It makes no difference
if you're black or white
If you're a boy or a girl
If the music's pumping
it will give you new life
You're a superstar, yes,
that's what you are, you know it

Come on, vogue
Let your body groove to the music
(groove to the music)
Hey, hey, hey
Come on, vogue
Let your body go with the flow
(go with the flow)
You know you can do it


("Vogue", Madonna)

22.11.02

Hoje é aniversário de Nikiti City. Em 22 de novembro de 1573, o cacique temiminó Araribóia tomou posse das terras que recebera dos portugueses em recompensa pela ajuda na luta contra os franceses -- terras em que se destacava o Morro de São Lourenço, onde hoje está a igreja de São Lourenço dos Índios, marco da fundação da cidade. Gosto de pensar em como devia ser bela a paisagem então. Na minha infância, nos anos 60, a praia de Charitas, por exemplo, tinha águas cristalinas (hoje elas estão podres). Imagine em 1573!
Como ando muito de barca, fico olhando a baía de Guanabara e tentando me imaginar há 500 anos no mesmo local. Se apesar da esculhambação administrativa que foi enfeiando nossa paisagem ao longo dos séculos a vista ainda hoje é uma das mais lindas do mundo, chegue você de barco ou avião, é fácil deduzir que os primeiros europeus a aportarem aqui devem ter se sentido abençoados.
Veja fotos antigas da cidade (nos séculos XIX e XX) aqui.

21.11.02

De João do Rio, numa crônica amargurada em maio de 1916:

"O homem debruçou-se sobre minha mesa.
-- Que fazes?
-- Trabalho.
-- Em quê?
-- Escrevo.
-- Oh! Inutilidade! De todas as profissões no Brasil, é a menos acreditada. Porque, se escreves bem, só se servem de ti quando precisam e ficam com medo depois. E, se escreves mal, ainda é pior, porque nem com medo ficam antes ou depois. As profissões são os enterros da vida. A de escrever corresponde ao enterro de última classe no Brasil."

Bom, a julgar pela minha situação pecuniária nos últimos dezoito anos (e se os próximos dezoito forem do mesmo calibre), vou mesmo ter um enterro baratinho. ;-). O brasileiro só pode ser feliz na concepção imaterial da felicidade. E, como escreveu minha querida Tia Cora outro dia em sua coluna, jornalista com dinheiro é um ser mitológico. Talvez seja por isso que eu imagine algum dia virar figura folclórica ;-)).
Como dizia Wilde, tempo é perda de dinheiro.

17.11.02

Minicontos do desconforto -- 39

Sob o guarda-sol colorido, apreciava a brisa. A água turquesa e ondulante da piscina. O ouro subindo em bolinhas dentro do chope. O vapor perfumado de eucalipto que se evolava da porta semi-aberta da sauna. Acendeu um cigarro. Seus gestos eram lentos; o dia era devagar quase parando. Olhou a filha adolescente conversando em sussurros com a melhor amiga. Parou para observar sua mulher, branca como um lírio, os movimentos suaves ao falar à prima, a poucos metros dali.
De repente lembrou-se de suas lições de antropologia: transformar o familiar no exótico. Era como se observasse uma pintura em três dimensões à sua volta.
Ele quase -- quase -- percebeu que o Tempo tinha parado. Só de sacanagem, para acompanhar o domingo e lubrificar os Ponteiros.

16.11.02

Minicontos do desconforto -- 38

A frente fria daquela semana completou à perfeição a sensação de tédio que o perseguira durante todo o mês. Estava com uma vontade doida de conhecer alguém tinindo de novo, de se apaixonar, de através de uma cumplicidade fresquinha ser capaz de olhar o mundo de ângulos inusitados. Foi quando deu de cara com ela numa fila de banco. O mais improvável dos lugares, é verdade. Mas não é que ela cravou os olhos nele também?
Aí seu peito deu o aviso. A carne tremeu, ele pôde sentir os ecos de uma britadeira enferrujada lá dentro. Era o coração que espanava os ácaros. Só que a diferença entre as velhas batidas compassadas de um dia-a-dia cinza e as novinhas, turbinadas, potentes, movidas a paixão, foi demais para ele. Teve um enfarte ali mesmo, no meio dos caixas eletrônicos e do mau humor dos clientes mal atendidos.
Sobreviveu. Mas, tão logo a família e os parentes foram embora do quarto do hospital, chorou amargamente ao crepúsculo, pois sabia que não teria mais coragem de amar.

14.11.02

Ontem tomei uma cerveja com meus velhos amigos Marcellinho e Ita. Os dois não se viam há quase uma década (estamos todos ficando velhos mesmo ;-)) e fomos ao tradicional Steak House em Nikiti para botar os papos em dia. E que papos. Por mim, teria ficado lá até de manhã falando sobre a vida e seus desdobramentos, mas infelizmente tem aquela hora em que o Dever aparece vestido de garçom e, com a conta na mão, nos lembra que amanhã ainda é dia de trabalhar.
De qualquer modo a noite foi mágica. Nada como os amigos para botar nossa vida em perspectiva, não é?

12.11.02

I keep on dreaming dreams of tomorrow
Feel I'm wasting my time
Lighting candles in the wind,
Always taking my chances
On the promise of the future
But a heart full of sorrow
Paints a lonely tapestry


(Whitesnake, "Crying in the rain", 1982)

8.11.02

Minicontos do desconforto --37

Cresceu uma criança obediente. Foi um estudante obediente e, tendo-se casado muito jovem, cedo tornou-se também um marido obediente. Aos poucos, levado pela maré da mediocridade, transformou-se num não-homem. E nada mais alimentava o seu nada interior com tanta presteza quanto o álcool.
Devagarzinho, foi-se alienando da família. Os filhos, ainda adolescentes, já não o distinguiam do padrão do estampado do sofá. O primogênito o surrou certa vez, achando que socava a parede num acesso de raiva qualquer. A filha, mas tarde, jogou-o dentro de uma caçamba de entulho junto com uma poltrona velha.
No fim, ninguém mais o divisava. E não seria exceção o motorista do ônibus que o atropelou numa tarde de domingo.
Morto, porém, tornou-se material. Ao menos um corpo conseguiu ser. Mesmo assim ficou longos dias na gaveta do IML, até que acharam um cartão amarrotado no bolso com o telefone de uma prima, que o enterrou como pôde num cemiteriozinho de igreja.
Ninguém chorou por sua alma. Nem os proscritos que a acompanharam até o purgatório. Sim, porque ele nada fizera, nem bom nem mau.
Quem o salvou, no fim, foi Buda, o Iluminado, cujo costume de percorrer as diferentes esferas levou-o ao cantinho do não-homem. Buda percebeu que ali houvera um erro de encarnação, e permitiu que ele voltasse ao mundo dos vivos. Como uma pedra ao sol, imóvel e feliz.

(In memoriam: J. Para onde quer que vá, descanse em paz.)

7.11.02

Conversas -- III

-- Pronto, aí. Montei seus pedais para a guitarra e ainda botei o afinador conectado. Agora vai ser moleza ajustar o som.
-- Hum.
-- Que é? Não gostou?
-- Deixa pra lá.
-- Fala, pô.
-- É que... eu ODEIO esse afinador.
-- Não acredito no que você está dizendo. Não acredito!
-- Mas eu odeio.
-- Mas ele é o certo.
-- Eu sei, mas não me dou bem com ele. Prefiro afinar do meu jeito.
-- Não existe "seu jeito". O do afinador é universal.
-- Não adianta, eu sempre tenho que corrigir alguma coisa depois que afino com ele.
-- Isso é porque você toca mal.
-- Uma ova. É questão de sensibilidade. E você não tem nenhuma.
-- Ah, é, né? Puxa vida, eu montei esse negócio com o maior carinho...
-- Aimeudeus, vai começar a se fazer de vítima. Saco.
-- Tudo bem, faça como você quiser.
-- Tá bom, tá bom, vou pegar o afinador.
Blém, blém, blém, bleeeem, blém, blom, blum.
-- Tudo certo?
-- Acho que tá. Dá um mi aí. O acorde.
Brlerlelemmmmm.
-- Então, o afinador não é perfeito?
-- É. Mas dá a nota sol aí, que eu acho que está baixa...
-- #@*&%!!!!!!!!!!

6.11.02

Minicontos do desconforto -- 36

Não conseguiam se livrar das dívidas. Tudo parcelado em 36 vezes, para aumentar a angústia. A cada mês tinham de sortear mais contas que ficariam para o mês seguinte.
Num dia chuvoso, especialmente cinza-chumbo, eles se olharam e resolveram ir à delegacia. Queremos denunciar uma tentativa de assassinato, disseram ao delegado. E quem é a vítima?, perguntou ele.
-- Somos nós -- suspirou o marido. -- O dinheiro está matando nosso amor.

5.11.02

Como já havia dito aqui, novembro é o mês de aniversário dos Cadafalsos. O original, o Comentários e Versos do Cadafalso, completa um ano amanhã e já fiz um post nesse sentido por lá. Aqui, o aniversário é no dia 30/11, quando relembrarei a história de como esta pagininha veio ao mundo. Mas a guaribada na interface já vai antes, preparando a festa ;-))
Por ora, aí temos mais um momento roquenrou:

Momento rock -- 19

"Ele tinha pouco a ver com a guitarra no sentido técnico. O que fazia era tocar o espírito da música."

(Robert Fripp sobre Jimi Hendrix)
Não estou mais tocando com Hélcio, nem em Vila Isabel, nem em Niterói. Ele saiu do Choppgol e está acertando shows com outras casas noturnas. Enquanto isso, a banda fica no aguardo de uma nova estréia. Enquanto isso, estou de folga na música. Mas assim que for chamado para a ativa, aviso todo mundo.

1.11.02

Conversas -- II

-- Alô.
-- É do inferno?
-- É. Residência do Príncipe das Trevas.
-- Por favor, chame seu senhor. É do céu. O Pai Eterno quer falar com ele.
-- Pois não.
-- Alô?
-- Belzebs?
-- Eu.
-- Sou Eu.
-- Manda. Algum problema? São três horas da manhã, eu estou aqui assistindo com Brutus a dez reprises de "Direito de nascer".
-- É o seguinte: meu Filho está começando a despertar para o Seu lado divino lá embaixo...
-- Você quer dizer lá em cima.
-- Tá, como queira. O problema é que, embora os engenheiros de software celestial tenham trabalhado desde o Éden para criar o Mensageiro perfeito, houve uns problemas no código-fonte da alma Dele...
-- Eu falei pra Você não usar software proprietário...
-- Ai Meu cacete. Posso terminar?
-- Vai.
-- Ele está achando que sou Eu.
-- Ué! E não é?
-- Sim, mas até certo ponto. Tem aquela história do Pai, do Filho, do Espírito Santo... Sabe como é, a hierarquia...
-- E daí?
-- Daí que alguns adivinhos aqui mostraram que Ele não vai poder reinar para sempre e salvar o mundo de verdade, como planejado. Infelizmente, vamos ter que passar para o plano B.
-- Plano B?
-- É, Ele vai ter que virar um mártir.
-- Mártir?
-- É, assim a coisa fica mais simbólica, assim tipo uma salvação pelo sacrifício... sabe como é a mente dos homens, né? Eles chegam às conclusões mais tortuosas, por isso temos que jogar o jogo jogado.
-- Tu tá pior que marqueteiro de político, hein? Mas entendi. E o que que eu tenho com isso?
-- Vou precisar de um traidor. Dos bons. Daquele que chega de mansinho, entra na equipe e depois fode todo mundo. Entendeu?
-- Entendi. Mas Ele vai perceber, não vai?
--- Vai, mas também entenderá Meu objetivo. E terá que cumpri-lo até o fim.
-- Mas qual é o século lá em cima? Ah, os romanos tão com tudo, né? Porra, vão pregar Seu Filho na cruz...
-- Eu sei. Mas vai ter que ser.
-- E depois?
-- Depois Ele volta. Quando parar com essa mania de grandeza.
-- Hum. Acho que isso vai demorar. Mas tudo bem. Vou ver aqui quem mando.
-- Obrigado. Tem tempo. Veja sua novela com o Brutus. Decide amanhã.
-- Tá bom.
Clic.

31.10.02

Em novembro os Cadafalsos completam um ano de blogagem convicta. Haverá novidades por aqui, aguardem.

28.10.02

Lula lá.
Precisa dizer mais?

25.10.02

"Brazil to Swing to the Left in Break with History

By REUTERS

Filed at 10:30 a.m. ET

BRASILIA, Brazil (Reuters) - In a vital test for its young democracy, Brazil is poised for a dramatic shift to the left in Sunday's election just as Latin America's largest economy faces its most trying times in years.

For Brazil's 170 million people, the widely-expected victory of Luiz Inacio Lula da Silva of the left-wing Workers Party marks a juncture in history that could be described as almost revolutionary."

23.10.02

Ontem foi uma noite fria e chuvosa. Mas eu nem notei. Estava bebendo e conversando sem pressa com alguém realmente especial. E fazia um luar impecável dentro do meu peito.

21.10.02

"O auto-retrato
(Mário Quintana, em 'Apontamentos de História Sobrenatural')

No retrato que me faço
-- traço a traço --
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
-- pouco a pouco --
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!"

20.10.02

Ontem minha grande amiga Martha Lavenère reuniu no café Lamas os amigos para seu aniversário. Eu estava de plantão no jornal e depois segui para lá. Os convivas jornalísticos não podiam ser mais legais: minha "personal agent" e companheira dos tempos de Geográfica Ariadne Guimarães, a doce Mônica Arantes, Luiz Bello, Daniela Daher, Jaqueline Barbosa Ramos, Karen Diesel (cada dia mais linda), Paula Autran, Valéria Rehder e muitos outros...
Martha, sempre a anfitriã perfeita -- ainda que estivéssemos no meio do deserto, ela nos faria esquecer qualquer incômodo e nos deixaria à vontade -- estava uma gata angorá num vestido cinza e brilhou pelas várias mesas de amigos, como convém a uma aniversariante. Cheguei pensando em moderação etílica... em vão. Logo estava tomando vários chopes à medida que o papo fluía, divertido. Por volta das onze, as risadas já davam a volta na mesa.
Mais tarde, eu e Daniela, que moramos em Niterói, fomos esperar juntos o 996 na rua Senador Vergueiro, quando eis que passa de carro o repórter automobilístico José-Resende Mahar, que gentilmente nos deu uma carona até a Praça XV. E ainda fomos de papo até o momento em que os pontos de ônibus diferentes nos separaram.
Foi uma noite deliciosa. Marthinha, beijos e felicidades mil para você, que merece uma vida longa e próspera, como diria Spock.


19.10.02

Tudo bem, tudo bem, é a descrição do animal, mas vocês não concordam comigo que partes desta definição de "lula" do Aurélio poderiam ter sido escritas por um serrista?

"LULA [Do lat. lolligine > *lulin, o qual tomado como dim. deu lula.]
S. f. 1. (Zool.) Molusco cefalópode, dibranquiado, decápode, loliginídeo (Loligo brasiliensis), do Atlântico, de coloração amarelada com manchas escarlates, podendo mudar de cor segundo o meio ambiente, corpo alongado, com nadadeiras triangulares do lado oposto à cabeça, provido de dez tentáculos com ventosas, dois dos quais são mais finos e alongados. Sua carne é muito estimada."

E então?

Em tempo: Regina e Beatriz, o único Lula de que tenho medo é aquela lula gigante que atacou o "Nautilus" em "Vinte mil léguas submarinas".

18.10.02

Esta é para a Mariana, minha companheira de vocais na banda Swing Rio. Ontem ela estava linda num vestido rosa, e sempre me transforma num chafariz de alegria. Nós dois gostamos de dançar no palco e sempre rimos um bocado no meio do show. É bom demais.

"I got sunshine
On a cloudy day
when it's cold outside
i got the month of May
i guess you say
what can make me feel this way
my girl
my girl
my girl
talkin about my girl
my girl
i got so much honey
the bees envy me
i got a sweeter song
than the birds in the trees
well i guess you say
what can make me feel this way
my girl
my girl
my girl
talkin about my girl
my girl
ooooooooo
hey hey hey
hey hey hey
ooooooooo yeah
i don't need no money
fortune or fame
i got all the riches baby
one man can clame
well i guess you say
what can make me feel this way
my girl
my girl
my girl
talkin about my girl
my girl
talkin bout my girl
i got sunshine on a cloudy day
my girl
i even got the month of may with my girl"

("My girl", Temptations)


15.10.02

Um pouco mais de João do Rio (veja o Cadafalso I):

"Que se procura no amor? A transfusão das almas? Não! um acorde. Um acorde apenas."

("Crônicas efêmeras", Ateliê Editorial)

11.10.02

Conversas -- I

-- Pai.
-- Que é?
-- Se Papai do Céu existe, por que ele não fala com a gente?
Silêncio.
-- Bom... minha filha, você sabe quantas pessoas moram na Terra?
-- Dez mil
Risos.
-- Não, querida. Um trilhão, um zilhão, sei lá.
-- Mas o que tem isso?
-- Bom, se Papai do Céu fosse falar com todo mundo ao mesmo tempo, já pensou o que ia acontecer?
-- Ah.
-- Pois é, por isso Ele não fala. Ele manda sinais. Alguns bem simples. Você e sua irmã nasceram com saúde perfeita. Para mim, isso é motivo de felicidade, poderia ser um sinal.
-- Então a gente tem que prestar atenção.
-- Isso aí.
Silêncio.
-- Pai.
-- Hein.
-- Sua careca é um sinal?

10.10.02

Um dos sintomas da PVC (porra da velhice chegando) é nossa falta de paciência para explicar nossas idéias sonhadoras e mirabolantes a alguém que tem uma concepção de vida completamente diferente -- e não abre mão dela. Quando somos jovens, argumentamos até o fim, tentamos por a + b convencer o interlocutor, ou seduzi-lo para determinado tema. Mas os anos vão se passando e você fica cansado de falar. Simplesmente isso.

9.10.02

Andei relendo uns textos sobre a loucura que uma grande amiga escreveu e não quer publicar. Isso me dói, porque são brilhantes e me deixam estatelado de prazer e dor toda vez que abro o arquivo em que eles estão. A sensibilidade da autora flui aos borbotões e a gente sente as feridas da alma se abrirem ao ler determinados pedaços.

7.10.02

Minicontos do desconforto -- 35

A flecha veio devagar, e ele não sentiu quando ela entrou em seu ombro esquerdo. Estava ocupado combatendo. Foi o olhar que a moça com o arco lhe deu que ardeu em sua nuca. Voltou-se e ela sorriu de dentro da armadura espessa que vestia.

-- Não basta -- gritou ele, e correu para ela. Estranhamente, não a golpeou com a espada: jogou esta ao chão, ajoelhou-se e atirou-lhe as melhores palavras que aprendera em sua vida de cavaleiro semi-analfabeto.

O exército parou para olhar aquilo. Pouco a pouco, a armadura da arqueira se desfez, e ela permaneceu sem ação diante dele. Quando a última peça caiu no chão com um "clang!", ele respirou aliviado.

E morreu imediatamente.
Second round, here we go...

4.10.02

Adoro votar. Estive no meio daquele um milhão de pessoas na Presidente Vargas em 1984 gritando "diretas já". E esta eleição promete ser emocionante. Mais do que a Copa.
Para os indecisos do voto, deixo uma filosofada do general Patton: "Uma boa solução aplicada com vigor agora é melhor do que uma solução perfeita aplicada dez minutos depois".
E boas tecladas na urna ;-)

3.10.02

Escrevi este texto para a próxima edição do site Falaê. Aqui, a première dele:

Travessia mágica

Comecei a pegar as barcas Rio-Niterói para valer em 1981, quando ingressei na faculdade de jornalismo. Todo dia curtia a brisa da baía de Guanabara lendo a "Última Hora" ou algum livro do Wilde. Na volta, estava sempre com dois companheiros nikitenses (de Nikity City) e vínhamos conversando entusiasticamente sobre as grandes questões de nosso fim de adolescência: mulheres, mulheres e mulheres. (Mentira. Havia outros assuntos também, mas no fim tudo leva a elas ;-) )

Entretanto, de manhã estava invariavelmente só e desenvolvi o hábito da leitura na barca. Não existe melhor meio de transporte para a contemplação do que uma barca. Ela vai devagar, pachorrenta, gemendo e tremelicando por vezes com algumas ondas, e há tempo para aquela filosofada essencial. Comecei e terminei montes de volumes a bordo. Cheguei ao ponto de detestar encontrar alguém na estação porque sabia que me roubaria o tempo precioso em que podia mergulhar em paz na ficção. Meu vício apenas fez piorar depois que me casei. Sem sossego na casa habitualmente cheia, deixava para saborear meus alfarrábios na baía.

Nos tempos da Conerj, a companhia de navegação estadual, as barcas eram mal conservadas e sujas, ao contrário do que acontece hoje, depois da privatização. Mas havia mais folclore e tipos engraçados durante a travessia. Como uma velhinha tinhosa que dava um show de bola contando sua vida errante, seus encontros com a polícia e marginais e outros "causos". Todo mundo ria e no final ela pedia o dinheiro do cafezinho. Um dia recebeu uma moeda de um centavo e xingou o doador: "filhodaputa, acha que isso aqui dá pra tomar um café?" As gargalhadas balançaram a barca. E as histórias do pessoal que pegava a embarcação cedinho, cochilava na proa e caía na água? Hoje isso não acontece, é proibido viajar na proa. Mas na época podíamos até sentar na beira da barca, os pés balouçantes sobre a água que aparentemente corria, célere. Bom, mas voltando aos mergulhos involuntários, lembro-me do caso de um velhinho carregando sua marmita e caindo na água depois de um cochilo. Os passageiros da proa, com um humor impiedoso, gritavam, enquanto tentavam resgatar o velho: "aí, vovô, vai tomar sopa hoje no almoço, hein?"

Depois, as embarcações ganharam televisores (graças a Deus, retirados recentemente) faxina e assentos acolchoados. Uma tem até uma lanchonete dentro.

Também tenho saudade das antigas chatas para automóveis, que peguei muitas vezes com meus pais para visitar minha avó em Jacarepaguá, nos anos 60. Voltava deitado no banco de trás, olhando as estrelas. Veio a Ponte Rio-Niterói e elas foram embora. Ficamos com os engarrafamentos.

Viajo de barca ainda hoje, quase todo dia. É o melhor remédio para o estresse, não tem ansiolítico que substitua. Ainda mais depois de um dia duro de trabalho. Você passa vinte minutos na baía, deixa tudo para trás e chega a outra cidade, para um novo começo, seja do que for. Aliás, está na hora de embarcar. Até o próximo texto. Soltem as amarras!

2.10.02

Hoje não tocarei com o Hélcio em Vila Isabel. Estou febril e este Cadafalso encerrará suas operações mais cedo ;-)
Amanhã, se Deus quiser, estarei pronto para outra.

1.10.02

Head on down to New Orleans,
Prettiest place you ever seen,
Get on down to the river bend,
That's where the music never ends.

Open your ears,
Don't you feel good?
Get yourself one helluva shot of rhythm 'n' blues.


(Rory Gallagher, Bullfrog blues)

30.9.02

Minicontos do desconforto -- 34

Amou-a desde o primeiro aperto de mão, que lhe deu um choque. Mas não conseguiu dizer-lhe isso na primeira noite. Costurou palavras com fio de ouro, que lhe enviou durante meses. Então ela se apaixonou por outro, e ele se desesperou.

Uma tarde encontrou-a sozinha no parque. Respirou fundo, sentou-se e entregou o que lhe ia na alma. Os dois choraram juntos e ele pensou que ela enfim derrubaria o firewall invisível que os continha. Mas pousou por ali um pássaro de plumagem estranha, que atraiu a atenção dela. Depois, o momento foi embora sem se despedir e ela recompôs-se, sumindo rápido da cena.

No dia seguinte ele levou seu gato até o parque e o observou caçando os pássaros. Foi então que nasceu seu sorriso de sarcasmo, de que os amigos tiveram medo até o fim de seus dias.
"Em amor, possuir é nada; desejar é tudo."

(Stendhal)

"Quem não ama demais não ama o bastante."

(Bussy Rabutin)

28.9.02

A night to remember

Ontem aconteceu a melhor noitada que tive nos últimos tempos. Não quis que ela acabasse, foi simplesmente demais. Depois do fechamento, Elis e eu saímos para "abrir os trabalhos" etílicos no Lamas, onde ficamos até cerca das onze, papeando. De lá partimos para o Casarão Hermés, na ladeirona da Hermenegildo de Barros. Um lugar gostosíssimo, de onde se obtém uma visão ímpar da Cidade Maravilhosa. Rolava por lá a festa organizada pela minha doce Crib Tanaka para comemorar 15 anos de amizade com mais três beldades. Sentamos na varanda e rimos demais com a Crib, que estava com a corda toda (ela nem sempre fala muito, a não ser via email, e adorei vê-la agitada e entusiasmada). Permanecemos no Casarão até uma da madrugada, quando então zarpamos em direção à festa de 31 anos do Maloca, na Spin, em Ipanema. Nesta eu já entrei roubando o copo de uísque do aniversariante (e olhem que já havia descido um conhaquinho e uma caipirinha) e subi para cumprimentar a galera roqueira mais legal da cidade: Gustones, Maggi, Rodrigão, Carlos, China... Long live everyone.
E lá estava Alessandra Archer, que eu não via há mais de dois meses. Estava morrendo de saudade dela (assim como da Crib). Mais uns goles e caí na pista. Dançamos a noite inteira, quase sem parar, e conversamos o possível no meio daquele agito. Elis e eu também ensaiamos alguns bons passos no meio da bagunça (eu adoro dançar com ela).
Saímos com o dia claro, quase seis horas da manhã. Maloca, já para lá de Vladivostok, ordenou: todos ao Cervantes. Fomos Maggi, eu, Carlos e ele. Dormi na casa do Maggi e do Maloca. Eu no sofá e a cinzenta gata Sofia em sua "almofada" privê.
O momento mais bizarro da noite começou com uma conversa rápida entre mim e Maggi:
-- André, você vai dormir lá em casa?
-- Vou, pode ser?
-- Beleza. Avisa a Elis que, se ela não se sentir legal para dirigir na volta, tem espaço lá, qualquer coisa.
-- Beleza.
Ato contínuo, eu me viro, pego a Elis pelo braço e repito o que Maggi me disse no ouvido dela. Só que... não era a Elis!!!!! Vocês acreditam que este Guardião tresloucado estava falando com uma menina desconhecida (soube depois que era a outra aniversariante da noite) e a convidando na lata para ir dormir comigo na casa de um terceiro???!!!!
Surreal é isso, baby.
Eu devia ter levado uma bofetada na cara. Mas o que aconteceu é parte do motivo por que chamam esta cidade de de maravilhosa. Quando me dei conta do que estava fazendo, pedi perdão de joelhos (literalmente) à menina -- e ela simplesmente riu muito do absurdo da coisa. Mais tarde ainda me pediu um cigarro. Obrigado, meu São Sebastião, por me deixar nascer um carioca da gema no Grajaú.
E a noite devorou todos os erros, e eu me vi fora da realidade depois do terceiro uísque. É quando as emoções se soltam de você, genuínas, sem polimento. E como a gente precisa disso de vez em quando. Oxalá haja muitas noites assim em nossas vidas.

27.9.02

Marcas

Crib Tanaka e André Machado

Água fria para acordar de vez. Sentiu o sangue pelas pernas. Circulação acordando devagar, junto com os movimentos-vento do corpo dela. Deixava os olhos se irritarem com a água; por vezes, experimentava um leve afogar. Saiu deixando marcas-gotas no chão branco da casa. Com as costas e os pés molhados, deitou-se no sofá, de frente para o ventilador. Balançava os cabelos-chicote deixando-os mancharem as almofadas, paredes, livros. Jogou no chão a toalha que lhe servia de saia até aquele instante. Perto da janela, ensaiou um espreguiçar de férias. Não custava nada enganar-se por alguns segundos. Sentou-se e tomou calmamente uma xícara de café. Com os pés, trouxe até si o jornal deixado embaixo da porta. Passou o olho pela programação do cinema e horóscopo. Acordou.

Foi cumprir suas horas intermináveis no espaço computadorizado, artificialmente frio, vestida como um personagem. Formalidade hipócrita em mórbidos uniformes massificadores. Barulhos de conexões estranhas, vozes comedidas. Desfile coletivo nos corredores de atapetada alergia.

Saindo da cela, acendeu um cigarro. Deixou os vidros do carro abertos e ligou o som. Tirou o blazer e rasgou a meia-calça pretensiosamente cor-da-pele.

Parou em frente à casa dele.

Do chuveiro saíram, deixando marcas-gotas pelo corredor e quarto. Sentia o sangue pelas pernas. Circulação correndo junto com os movimentos-ondas do corpo dele. Circulação estagnada em marcas na alva pele.

Beijaram-se longamente. Tinha saudades da língua dele. Pensara nesse beijo o dia todo, enquanto fazia contas no trabalho. Quando tudo terminou, observou-o -- silenciosa -- arfando, trêmulo e satisfeito. Ele não percebera que ela sangrava de verdade; ele não a percebia. Estava ali, empanzinado e sonolento, encaixando seu cigarro na piteira e acendendo-o com o isqueiro dourado que já falhava. Ele olhava para o teto -- era como se a mulher a seu lado de repente pertencesse a outra galáxia.

Olhando aquele homem, que se bastava com tanta naturalidade, foi sentindo uma raiva surda tomar conta de si. Num ímpeto, tomou a cabeça do amante e forçou-a contra o meio das pernas, chafurdando a expressão beatífica de gozo dele no sangue feminino, pulsante, quente. Ele pensou que ela desejasse mais prazer e beijou seu sexo. Ela marcou seu rosto com a grande mão que tinha, derrubou-o da cama e se dirigiu calmamente ao banheiro.

Água fria. Gelada. Forte.

Abriu a porta ainda o olhando com ódio e com passos decididos, saiu nua pela rua, sangrando e vociferando: filho da puta, filho da puta, filho da puta.
Ontem tive a honra de almoçar com a bela Valeska, gente finíssima e uma delícia de companhia. Foi aniversário dela e tivermos um longo papo sobre a vida e suas vertentes no ambiente tranqüilo da Leiteria Mineira, no Centro. Se não tivesse de vir para a redação, ficaria papeando com ela até anoitecer, porque toda vez que nos encontramos a conversa flui, gostosa, mesmo nos momentos mais sérios. Val, um grande beijo deste Guardião e muitas felicidades, sempre.

25.9.02

Momento rock -- 18

"Alguns cientistas acreditam que o hidrogênio, por ser tão abundante, é o elemento básico do universo. Eu questiono este pensamento. Existe mais estupidez do que hidrogênio. Estupidez é o elemento básico do universo."

(Frank Zappa)

24.9.02

Minicontos do desconforto -- 33

Banhistas a trouxeram, semidesmaiada, até ele, depois de a tirarem das ondas. Colou sua boca na dela e começou a aplicar a respiração. Quando os olhos azuis acordaram, estavam estranhamente despidos de sentido. E ele tremia e chorava sem entender: havia puxado a alma dela pelos pulmões.
Minicontos do desconforto -- 32

Acordou na calçada, as gotas da garoa descendo em sua boca. Apalpou o bolso. A carteira estava lá. Perscrutou o peito: o coração tinha sido roubado.

23.9.02

Voltei hoje de férias (em Terê e na minha Nikiti City) e já encontrei um blog novo: o de Alessandra Archer. Também fiquei sabendo que o Maloca partiu para outra no trabalho. Things change...
Também haverá mais uma festa "Mate-me por favor" esta sexta, a cargo de Mr. Gustones, na Spin. E a bela Crib Tanaka mais três amigas vão celebrar sua amizade na night da Glória. Semana boa para voltar ao Rio! Vamos agitaaaarr!!!
Em breve, novos minicontos por aqui.

30.8.02

Estou saindo de férias hoje, por isso este blog talvez fique um pouco devagar nas próximas semanas. Volto dia 23 de setembro (mas se der blogo nos intervalos). Por ora, eis o trigésimo primeiro miniconto.

Minicontos do desconforto -- 31

Fizeram amor devagar. No fim, acendeu o cigarro e ficou fazendo argolas de fumaça no ar. Ela dormiu -- e de repente, no meio de um sonho, sussurrou o nome de outro. "Tom..."

Ele passou o dia inteiro agoniado no trabalho, já imaginando uma cena nelsonrodrigueana na volta para casa.

Não deu outra. Ao abrir a porta, ela sorriu (e como era poderoso seu sorriso), dizendo que queria lhe apresentar o Tom.

Aimeudeus aimeudeus aimeudeus, era só o que passava pela cabeça dele, enquanto a fúria subia das gônadas para o pescoço.

Entrou.

-- Este é o Tom. Eu quis lhe fazer uma surpresa...

O gatinho preto e branco ficou olhando de lado aquele bípede maluco que gargalhava num frenesi à sua frente.

28.8.02

Momento rock -- 17

"Eu não sou tecnicamente bom o bastante para ser um músico clássico. Não tenho disciplina. Quando você lida com música clássica, tem de ser rígido. Eu não sou um músico rígido. Gosto de improvisar."

(Ritchie Blackmore)

27.8.02

"Ele não sabe coisa alguma, e pensa que sabe tudo. Isso indica claramente uma carreira política."

(William Shakespeare)

25.8.02

One day in your life
You'll remember a place
Someone touching your face
You'll come back and you'll look around, you'll . . .

One day in your life
You'll remember the love you found here
You'll remember me somehow
Though you don't need me now
I will stay in your heart
And when things fall apart
You'll remember one day . . .

One day in your life
When you find that you're always waiting
For a love we used to share
Just call my name, and I'll be there
You'll remember me somehow
Though you don't need me now
I will stay in your heart
And when things fall apart
You'll remember one day . . .

One day in your life
When you find that you're always lonely
For a love we used to share
Just call my name, and I'll be there.


("One day in your life", Sam Brown III / R. Armand., cantada por Michael Jackson)
Ontem foi uma noite divertida. Saí do plantão do jornal e resolvi dar um pulo até o W-Grill, simpático restaurante em São Gonçalo onde o Antônio Corrêa (guitarra) e a Mariana (voz) fazem seu show em dupla (eles tocam em Jurujuba na sexta também). Cheguei ao terminal de Nikity City e peguei um ônibus para SG. Menino, não é que me perdi por lá (faz tempo que não vou para aqueles lados)? Saltei perto do Caneco 90, longe à beça de meu destino original, e acabei pegando um táxi, que após mais alguns erros de trajeto me deixou no local certo. Antônio se surpreendeu ao me ver chegar. Rimos muito com minhas desventuras gonçalenses. A esposa dele, Cláudia, de quem gosto muito, estava por lá também, e batemos longos papos sobre a vida, etc, enquanto os dois tocavam. É claro que, na qualidade de espectador, pedi que tocassem algumas coisas para mim, como "Eu sei que vou te amar" e qualquer balada legal em inglês que escolhessem. Mariana selecionou "I'll be there" e ar-ra-sou nos agudos. Que delícia. No fim, o dono do restaurante, que já me conhecia (fui tocar com o Hélcio por lá dia desses) generosamente não quis me cobrar os chopes que tomei. Fiquei devendo uma canja por lá na próxima visita.

24.8.02

Em breve, duas novas histórias a quatro mãos vão pousar neste Cadafalso: "Marcas", que escrevi junto com Crib Tanaka, e "Insônia", parceria com Alessandra Archer.
Minicontos do desconforto -- 30

Conheceu-a dois dias depois da morte, assim que renasceu. Entendeu que ela agora ia ser sua mãe -- logo ela, que o levara à loucura em apenas três meses.

Por isso, tão logo se entendeu como gente, suicidou-se. E repetiu o gesto nas três encarnações seguintes. Uma para cada mês de desespero.

Então o carma lhe pregou uma peça e ela retornou como sua filha. Viu-a crescer indomável, alheia a seus melhores esforços como pai para dar-lhe uma vida perfeita. Ela tornou-se aquela femme fatale invencível aos dezessete anos, e ele compreendeu que, desta vez, era seu sangue forjado em angústia que a envenenava, que lhe dava estranhos calores e apetites.

Ela se foi antes dele, num acidente, e ele chorou amargamente. Mas ficou neste mundo, onde viveu quase cem anos.

Em sua cabeceira de morte, ela estava novamente lá: foi a enfermeira que refrescou sua testa pela última vez.

Os dois não mais voltaram depois disso. E os anais do Eterno contam que até Abadon suspirou de alívio ao saber da nova.

23.8.02

Momento rock -- 16

"Expose yourself to your deepest fear; after that, fear has no power, and the fear of freedom shrinks and vanishes. You are free."

(Jim Morrison)

22.8.02

Cheguei ainda agora de SP, onde fui cobrir a Comdex e Borland Conference. Ufa! E já estou pronto para tocar hoje à noite em Charitas com Hélcio e cia.
Logo, logo, a produção dos blogs volta ao normal.

16.8.02

Apesar do que diz o quadro aí ao lado, eu não estarei tocando nesta quarta (21/8) em Vila Isabel, pois estarei viajando a trabalho. Na semana seguinte tudo volta ao normal.
Mas na quinta (22/8) vou tocar no ChoppGol de Charitas (Niterói) com a galera, a partir das 21h30.
Ontem foi a estréia da banda no segundo andar do ChoppGol de Niterói, em Charitas. Um ambiente muito gostoso, avarandado, com pista de dança, palco, iluminação e tudo o mais. Eu, Hélcio (teclados) e Marcos (batera) fomos acompanhados de Antônio (guitarra-solo), Juninho (baixo) e Mariana (vocais). Ela alternou músicas com Hélcio e fez backing vocals junto comigo. Me diverti horrooores, pois houve um set de rock and roll e agitei feito espoleta. A Mariana, que estava a meu lado, ria que se acabava comigo. No fim já estávamos fazendo o maior mise-en-cène, com coreografias à medida que tocávamos e cantávamos. Cheguei ao bar cansado de um dia estafante, mas no show e durante a ceia, lá pela uma da manhã, já estava gargalhando com os outros e pronto para outra.
O melhor de tudo é que alternamos com um DJ, que nos intervalos só tocou coisas disco dos anos 70. Vocês sabem, sou um roqueiro congênito, mas adoro essas músicas da era disco. Ouvi coisas que há muito tempo não ouvia, como "Instant replay" e "Born to be alive". Se dependesse de mim, acho que ficaria dançando até nos intervalos. Só não fiz isso porque ia cair duro na hora de tocar ;-))).
Mal posso esperar pela próxima quinta. Yesssssss!!!!!

14.8.02

Minicontos do desconforto -- 29

O veneno avançou por suas artérias com rapidez impressionante. Tinha tomado o cuidado de trocar de copos quando ela foi ao banheiro, mas se esquecera da comida. Na primeira garfada, ao mirar os olhos da ex-amante, viu que eles sorriam demais. Compreendeu tarde -- pouco antes de perder as faculdades mentais -- que aquilo não era mesmo um jantar de reconciliação.

12.8.02

Ace Frehley, guitarrista-solo do Kiss e um dos caras que influenciaram meu jeito de tocar, deu um show num clube de Nova York este fim de semana para festejar o aniversário do amigo radialista Eddie Trunk. Junto com o baixista/guitarrista ritmo Karl Cochran (co-autor da melhor música do "Psycho Circus", do Kiss -- Into the void) e do batera Steve Werner, mandou vários petardos dos anos 70 em seu set, como Rip it out, Parasite, Cold Gin, Strange ways e Love her all I can.

9.8.02

Mestre Gustones de Almeida, super-DJ e guitarman, avisa: vai botar som sexta-que vem, dia 16, na boate Spin, em Ipanema (r. Teixeira de Melo, 21), a partir das 22h. Estarei na área!
Minicontos do desconforto -- 28

Negociou a alma com o Canhoto para ser um virtuose em seu instrumento. No dia seguinte quebrou as duas mãos. A operação subseqüente tornou seus dedos estranhamente elásticos, e ele passou a visitar escalas antes inimagináveis com suas falanges mágicas.

No dia combinado para a entrega, já um maestro consagrado, pediu ao governante do Inferno que escutasse sua última composição antes de descer às profundezas. O Diabo se sentou e, ao ouvir a primeira frase, exclamou: "você esteve conversando com o Espírito! Isso não fazia parte do acordo!"

O maestro não respondeu. Tivera de repente um derrame fulminante. Mas... não havia alma nenhuma a receber. Furioso, o Príncipe das Trevas levantou-se e deu com o Arcanjo Miguel a seu lado. Este acendeu um cigarro e, sem conseguir disfarçar o riso, pôs a mão no ombro do velho anjo caído:

-- Então você não sabia que a principal qualidade de um virtuose é alcançar o Divino antes dos outros homens? O Eterno já se conectou à alma deste no dia seguinte ao seu pacto...

É por isso que quem desceu aos infernos e conseguiu voltar avisa: o maior problema do lugar é o repertório.
O maravilhoso Verissimo, hoje no Globo...

"Nós todos precisamos de cifras definitivas, mas estamos presos à mesma fatalidade: só a teremos depois de tudo terminado. Quer dizer: nunca. Não há fim que justifique os meios porque tudo, no fim, é meio. A cena final que explica tudo só existe na literatura policial. Nas nossas vidas, mal escritas e cheias de pistas falsas, nunca estamos presentes no desenlace. Morremos, invariavelmente, no penúltimo capítulo. E de todas as crueldades da morte, a maior é não podermos participar do nosso próprio velório, circular entre parentes e amigos, anotando quem foi e quem não foi, e ouvir o que falam de nós na nossa posteridade. E descobrir o que, afinal, a nossa vida quis dizer."

6.8.02

Tomei um animado chope ontem com minhas amigas jornalistas Daisy Chaves, Andréa Petti e Ilza Nogueira, companheiras dos anos que passei na Manchete. Fomos ao centenário Café Lamas e rimos a valer com as muitas histórias daquele tempo. Daisy hoje é roteirista e escritora e deixou as redações, criando em casa para a TV. Passamos poucas e boas como redatores de uma revista feminina, junto com a Ilza. Já Andréa foi minha valorosa companheira numa publicação que misturava ciência e temas esotéricos. Hoje trabalha na comunicação interna de uma grande empresa. O tempo passa...

5.8.02

Pronto, aí no quadrinho à direita tem um anúncio do show de todas as quartas, para lembrar a gALLera...
Minicontos do desconforto -- 27

Afrodite e Atena passeavam pelo jardim de nuvens topiadas do Olimpo. Como eram amigas há tempos (o incidente com Páris já fora esquecido), a primeira perguntou à segunda, com franqueza, o porquê de sua feiúra.

-- A sabedoria não faz mais radiantes os rostos dos homens -- foi a resposta. -- Quanto mais sabem, mais eles descobrem as chagas de suas almas; então suas testas se enrugam, os cabelos caem, as bocas murcham e os olhos perdem o viço. E eu sou a soma dessas criaturas infelizes.